Os dias que seguiram, o quase afogamento de Juliana foram como uma corda bamba para Sofia. A cada manhã, ela acordava com a angústia de não saber se Juliana abriria os olhos naquele dia ou se permaneceria prisioneira do sono induzido. No entanto, mesmo no meio de sua ansiedade, havia um alívio silencioso: Juliana estava viva. Ainda lutando, mas viva.
Sofia e Gabi organizaram um revezamento rigoroso para garantir que Juliana nunca estivesse sozinha no hospital. Gabi, com sua maneira tranquila e metódica, preenchia as noites com leituras ao lado da cama, a voz baixa e ritmada, como se acreditasse que Juliana pudesse ouvi-la mesmo inconsciente. Sofia, por outro lado, era a tempestade. Caminhava pelo quarto durante o dia, às vezes falando com Juliana, às vezes discutindo silenciosamente com seus próprios pensamentos.
Uma tarde, enquanto Sofia segurava a mão de Juliana, encarando o vazio, Gabi chegou com duas xícaras de café. O aroma quente cortou o ar frio da sala.
— Você precisa disso mais do que eu — disse Gabi, estendendo uma das xícaras para Sofia.
Sofia aceitou com um sorriso fraco.
— Obrigada. Não sei como você consegue ser tão... calma.
Gabi sentou-se na poltrona ao lado da cama, com um olhar suave.
— Não é questão de calma, Sofia. Eu estou apavorada. Mas se eu desmoronar, quem vai estar aqui por ela?
Sofia ficou em silêncio por um momento, absorvendo as palavras. Gabi parecia ter uma força silenciosa que Sofia invejava.
— Ela gosta muito de você, sabia? — arriscou Sofia, virando-se para Gabi.
— Eu sei — respondeu Gabi, com um sorriso tímido. — E eu gosto dela também. Mais do que deveria, talvez.
Houve uma pausa confortável entre as duas, enquanto observavam Juliana.
— Você acha que ela vai ficar bem? — perguntou Sofia, a voz quase um sussurro.
— Acho que ela é mais forte do que parece — disse Gabi. — Mas ela precisa de tempo... e de nós.
Sofia assentiu, mas o peso de sua própria culpa continuava a pressionar seu peito. Ela sabia que precisava contar a verdade para Juliana. Camila havia confiado nela para proteger Juliana, mas, em algum momento, Sofia sentiu que falhara com ambas. Agora, a possibilidade de perder Juliana também era insuportável.
As noites que Gabi passava no hospital tinham um ar quase poético. Ela trazia livros — romances, poesia, até mesmo contos engraçados que Juliana adoraria zombar se estivesse acordada. À luz fraca do abajur, Gabi lia com devoção, como se cada palavra fosse uma ponte entre ela e Juliana. Quando não estava lendo, ficava observando Juliana dormir, os dedos acariciando suavemente as costas de sua mão, como se aquele gesto pudesse trazê-la de volta.
Uma noite, enquanto Gabi lia em voz baixa um poema de Pablo Neruda, Juliana mexeu levemente os dedos. Gabi congelou, o coração disparado.
— Ju? — chamou, a voz baixa, mas esperançosa.
Nada. Foi apenas um reflexo. Gabi tentou não se decepcionar, mas as lágrimas vieram mesmo assim. Ela inclinou-se e beijou a testa de Juliana, murmurando:
— Eu estou aqui. Pode voltar quando estiver pronta.
Na manhã seguinte, Sofia chegou para seu turno. Gabi lhe contou sobre o pequeno movimento, e Sofia agarrou-se àquele fio de esperança como se fosse uma âncora. Ela passou horas ao lado de Juliana, segurando sua mão e falando baixinho.
— Ju, você é a pessoa mais teimosa que eu conheço — disse Sofia, com uma risada nervosa. — Mas, dessa vez, vou precisar que você me ouça. Preciso que você volte.
Na manhã do quinto dia, Juliana finalmente abriu os olhos. A luz do sol entrava pelas cortinas entreabertas, e o som distante do tráfego preenchia o silêncio. Ela piscou lentamente, sentindo o peso do próprio corpo, o gosto metálico na boca. Tudo parecia confuso, até que um som familiar preencheu seus ouvidos.
— Juliana?
Era a voz de Sofia, trêmula e carregada de emoção. Juliana virou a cabeça com dificuldade, encontrando os olhos marejados da amiga.
— Oi... — murmurou, a voz rouca e fraca.
Sofia deixou escapar um soluço de alívio, segurando a mão de Juliana com mais firmeza.
— Você voltou... — disse, a voz embargada.
Juliana piscou, tentando processar tudo. Fragmentos de memória começaram a voltar, e, entre eles, uma lembrança específica se destacou: o telefone de Sofia, as palavras duras como um golpe. "Camila... Ela... Foi suicídio"
O rosto de Juliana contorceu-se em dor, e lágrimas brotaram em seus olhos.
— Camila... — sussurrou.
Sofia congelou. Sabia que aquele momento chegaria, mas não estava pronta.
— A gente vai falar sobre isso — prometeu, apertando a mão de Juliana. — Mas agora, você só precisa descansar.
Juliana não disse mais nada. Fechou os olhos novamente, mas dessa vez, Sofia sabia que ela estava apenas tentando se proteger.
Enquanto observava Juliana, Sofia sentiu uma mão tocar seu ombro. Era Gabi, que havia chegado silenciosamente.
— Ela vai ficar bem — disse Gabi, com um sorriso tranquilizador.
Sofia olhou para Gabi e, por um breve momento, permitiu-se acreditar naquelas palavras. Juliana estava viva, e, com sorte, elas conseguiriam reconstruir os pedaços que Camila deixara para trás.
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Blue | ⚢
RomanceJuliana vive mergulhada em uma solidão que já parece parte de sua própria identidade. Desde a perda devastadora de seu grande amor, ela se isolou, convencida de que a dor é mais segura do que arriscar sentir novamente. As tentativas de suas melhores...
