O Último Encontro

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Faltavam apenas 24 horas para que o prazo da devolução das chaves terminasse. Juliana sentia o peso dos dias que passaram, debatendo consigo mesma se deveria ou não voltar àquele lugar. Longas noites insones a acompanhavam, sua mente um turbilhão de pensamentos que giravam em torno Dela.

Era como se sua vida inteira estivesse suspensa, pautada apenas nessa decisão. Trabalhar tornou-se impossível. Comer, uma tarefa forçada. Até as coisas mais banais pareciam distantes. A chave permanecia ali, no balcão, onde ela a havia deixado após aquele último encontro com Renata.

Desde aquele dia, Juliana foi consumida por sentimentos que não conseguia nomear. Algo gritava dentro dela que precisava retornar àquele lugar, precisava encarar o que por anos fora sua prisão invisível. Não podia mais ignorar.

Seu amor por Camila havia sido o mais profundo e arrebatador de sua vida. Cada momento ao lado dela parecia ter sido retirado de um sonho. Camila era sua calmaria, seu porto seguro. Tudo parecia perfeito até o dia em que não era mais. Agora, Juliana vivia aprisionada à lembrança daquela mulher, de quem ela ainda não conseguia se despedir.

Nem por um instante Juliana havia se sentido infeliz ao lado de Camila, e talvez por isso fosse tão difícil deixá-la ir. As noites eram um misto de saudade e arrependimento. Ela só queria tê-la de volta, sentir o calor de seu abraço, o perfume que trazia conforto, olhar novamente para aqueles olhos que tanto a acolheram. Mesmo sabendo que era impossível, Juliana queria mais uma chance – uma última chance – para dizer adeus.

Quando a noite caiu, o dilema ficou insuportável. Juliana encarava o teto escuro do quarto, os pensamentos fixos na "galeria". Como seria voltar lá? Haveria alívio? Alguma resposta? Ou apenas mais dor, mais memórias que rasgariam sua ferida ainda não cicatrizada?

Exausta de tentar ignorar o chamado, ela se levantou. Deslizou as mãos pelo rosto, tentando clarear a mente, e respirou fundo. Vestiu a primeira roupa que encontrou, simples, despretensiosa. Antes de sair do quarto, parou por um instante, olhando ao redor como se se despedisse.

Na sala, a chave ainda estava no balcão. Por seis dias, ela repousou ali, um pequeno objeto carregado de um peso imenso. Juliana parou diante dela. Sua mão hesitou, mas, ao sentir o frio do metal contra a pele, algo dentro dela se firmou.

Era o momento.

Com a chave apertada entre os dedos, Juliana caminhou até a porta. Ao atravessá-la, deixou para trás o vazio que, por tanto tempo, havia chamado de lar. A noite parecia envolvê-la, e cada passo em direção ao destino era uma mistura de ansiedade e determinação.

Ela sabia que o que viria a seguir poderia machucá-la ainda mais. Mas também sabia que não poderia continuar vivendo com aquele peso. Era hora de enfrentar a última despedida. E, quem sabe, finalmente abrir espaço para algo novo.

Blue | ⚢Histórias para pegar e não largar. Descubra agora