O Peso do Silêncio

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Sofia tomou um longo gole do vinho. A bebida, embora quente em sua garganta, não aquecia o vazio que insistia em se instalar. A luz suave da luminária ao lado do sofá fazia sombras brincarem nas paredes do pequeno apartamento. As molduras penduradas exibiam momentos congelados no tempo: Camila sorrindo ao lado dela, ambas cobertas de lama depois de uma corrida improvisada na chuva; as duas em um festival de música, com os braços ao redor uma da outra, os olhos brilhando de alegria genuína.

Ela se levantou, descalça, caminhando lentamente até a parede. Seus dedos tocaram a superfície fria de uma das fotografias. "Você era minha fortaleza, Cami. E agora... quem sou eu sem você?", murmurou para o vazio. O silêncio em resposta era insuportável.

Camila não era apenas sua melhor amiga; ela era sua irmã de alma, seu porto seguro, a única pessoa no mundo com quem Sofia podia ser completamente ela mesma. Camila sabia de cada cicatriz, cada medo, cada sonho despedaçado que Sofia escondia do mundo. E, em troca, Sofia sabia de Camila. Ou pelo menos achava que sabia, até aquele dia fatídico, quando sua amiga confidenciou algo tão vago, tão carregado de dor, que Sofia não conseguiu interpretar na hora.

"Você prometeu que ia me contar o resto depois," Sofia sussurrou, sentindo os olhos arderem. "Mas você nunca contou."

Naquela época, Sofia tinha percebido que algo estava errado. Camila estava mais distante, suas palavras carregavam um peso estranho, como se cada frase tivesse sido ensaiada antes de ser dita. No entanto, Camila ainda ria alto, ainda fazia piadas sobre os crushes de Sofia e a chamava de "Sofi-baby" em público só para provocá-la. Camila era a tempestade e o sol, e Sofia nunca imaginou que aquele brilho pudesse ser uma máscara para algo tão sombrio.

Na última conversa que tiveram, Camila mencionou algo sobre "carregar um peso que ninguém mais entendia". Sofia não insistiu. "Quando você estiver pronta para falar, eu vou estar aqui," ela dissera, com o tom firme de quem acreditava que a amizade delas era invencível.

Mas Camila nunca mais teve a chance de estar pronta.

O luto foi uma tortura silenciosa. Sofia chorava baixinho, na privacidade do quarto, sufocando os gritos com o travesseiro. No funeral, manteve-se estoica, recebendo abraços de pessoas que mal conheciam Camila enquanto sussurravam palavras vazias. "Ela era tão jovem..." "Que tragédia." Tragédia, sim, mas ninguém parecia entender o quanto aquilo a despedaçava. Ninguém se preocupou em perguntar como Sofia estava.

E quando os meses se transformaram em anos, o mundo pareceu seguir em frente, mas Sofia ficou presa no mesmo dia.

A dor de ser esquecida — tanto por Camila quanto pelos que deveriam apoiá-la — era um fardo que carregava sozinha.

Blue | ⚢Histórias para pegar e não largar. Descubra agora