O Segredo de Sofia

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O Uber seguia tranquilamente pelas ruas da cidade. Sofia estava no banco da frente, enquanto Juliana e Gabi dividiam o banco traseiro. As duas amigas riam baixinho de uma piada que Sofia havia feito momentos antes, mas a atmosfera leve começou a mudar quando Sofia deu novas coordenadas ao motorista.

— Pode fazer uma parada no cemitério Memorial da Paz, por favor — pediu Sofia.

Gabi e Juliana trocaram olhares confusos.

— Cemitério? — Juliana questionou, a incredulidade em sua voz evidente. — Sofia, isso é uma piada, certo?

— Não mesmo — respondeu Sofia, sem desviar o olhar da estrada à frente.

Gabi, mais contida, tentou entender.
— Está tarde, Sofia. Por que estamos indo a um cemitério?

Sofia se virou parcialmente para encará-las.
— Porque tem algo que eu preciso mostrar para vocês. Algo que eu devo a vocês, principalmente a você, Juliana.

O tom sério de Sofia silenciou as perguntas. O carro continuou até as grandes grades de ferro do cemitério. Ao chegarem, a leveza da noite havia se transformado em uma curiosidade carregada de tensão.

O cemitério era surpreendentemente bem cuidado e tinha uma iluminação suave, com postes baixos que projetavam sombras quase poéticas sobre os caminhos de pedra. O vento balançava as copas das árvores, criando um som sutil que tornava o ambiente menos silencioso, mas não menos inquietante.

Juliana sentia o coração acelerar a cada passo. Algo dentro dela já sabia o destino daquela visita.

— Sofia, não pode ser o que estou pensando — Juliana disse, a voz trêmula.

Sofia não respondeu de imediato, mas quando o trio parou diante de uma lápide impecavelmente cuidada, suas palavras foram confirmadas.

Camila, amada esposa, filha e amiga.

O coração de Juliana parecia se apertar. Gabi olhou para Sofia, visivelmente emocionada, enquanto a amiga tocava o mármore com delicadeza.

— É aqui que eu venho quando saio mais cedo — Sofia começou, a voz baixa. — Eu venho falar com ela.

Juliana engoliu em seco.
— Falar com Camila?

Sofia assentiu e se sentou na grama diante do túmulo. Ela gesticulou para que as outras a acompanhassem. Relutantes, Juliana e Gabi sentaram ao seu lado, ainda tentando processar o momento.

Sofia respirou fundo, segurando a base do túmulo como se precisasse de apoio.
— Eu nunca contei isso para vocês porque parecia... pessoal demais. Mas acho que é hora de vocês saberem.

Juliana e Gabi ficaram em silêncio, os olhos fixos em Sofia.

— Desde o dia em que Camila se foi, eu prometi que cuidaria de você, Juliana — Sofia disse, olhando para a amiga. — Não só porque ela me pediu, mas porque eu sabia que você ia precisar de alguém.

— E isso inclui vir até aqui? — Juliana perguntou, a voz carregada de emoção.

Sofia assentiu, lágrimas brilhando em seus olhos.
— Eu venho aqui para contar a ela como você está. Que você está seguindo em frente, mesmo que aos poucos. Que você está tentando.

Gabi colocou uma mão no ombro de Sofia, solidária.
— Isso é muito... generoso.

— Não é generosidade, Gabi. É amor. Camila era minha amiga, minha família. E você... — Sofia virou-se para Juliana. — Você é a coisa mais preciosa que ela tinha.

Juliana desviou o olhar, sentindo o peso das palavras de Sofia.

— E quando você apareceu, Gabi — Sofia continuou, olhando para a outra amiga —, comecei a falar dela para Camila também. Contar como você era diferente. Como parecia que finalmente alguém poderia cuidar do coração da Juliana do jeito que ela merece.

Gabi e Juliana trocaram um olhar longo e intenso, um misto de surpresa e compreensão passando entre elas.

— Você fez tudo isso por mim? — Juliana perguntou, a voz trêmula.

— Fiz porque ela faria o mesmo por mim. E porque eu amo vocês duas — Sofia respondeu, as lágrimas finalmente escorrendo.

As três ficaram em silêncio por alguns minutos, o ar carregado de emoções não ditas. Foi Juliana quem finalmente quebrou o silêncio.

— Obrigada, Sofie. Por tudo.

Sofia sorriu, enxugando as lágrimas.
— Sempre.

Enquanto a noite dava lugar ao amanhecer, as primeiras luzes do sol começaram a pintar o céu com tons de rosa e dourado. Era estranho estar ali àquela hora, mas, ao mesmo tempo, havia algo profundamente reconfortante naquele momento compartilhado.

— O sol está nascendo — Gabi comentou, olhando para o horizonte.

— E, por mais estranho que pareça, é bonito estar aqui agora — Juliana disse, a voz calma.

— Concordo — Sofia respondeu.

Elas ficaram ali, lado a lado, observando o mundo acordar ao redor do lugar onde Camila descansava. Era um momento de paz, um instante de conexão que marcava não apenas o encerramento de um ciclo, mas também o começo de algo novo.

Blue | ⚢Histórias para pegar e não largar. Descubra agora