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ᴄᴏɴᴛᴏ ᴅᴇ ɴᴀᴛᴀʟ
Olhou mais uma vez para o relógio no painel do carro.
22:58.
A ansiedade apertava cada célula de seu corpo, enquanto a neve espessa acumulava-se ao redor, transformando as ruas em superfícies traiçoeiras e escorregadias. O asfalto, já molhado e endurecido pelo frio, refletia os poucos raios de luz das lâmpadas enfraquecidas dos postes, criando manchas e sombras inquietantes sobre o caminho. O vento gelado, que atravessava a janela entreaberta, penetrou até os ossos, o que o fez fechá-la rapidamente, apertando o volante com mais força, como se assim pudesse conter o tremor involuntário de suas mãos.
Pisou no acelerador, atento ao vazio das ruas. Havia ultrapassado o limite de velocidade incontáveis vezes, desrespeitando todas as leis que normalmente seguiria. Mas agora, com as calçadas cobertas de neve e as casas iluminadas por pisca-piscas cintilantes, o mundo parecia adormecido, como se estivesse só naquela escuridão gelada. As decorações natalinas, com suas luzes coloridas e laços festivos, eram apenas borrões que desapareciam rapidamente, apagados pela urgência que o dominava, como se estivesse sendo perseguido pelo próprio tempo.
Olhou para o relógio mais uma vez.
23:02.
O peso no peito se intensificou, uma angústia opressiva que se espalhava de forma lenta e insidiosa, como se cada gota de sangue estivesse contaminada por um medo paralisante. A sensação ardente que o atormentava era uma sombra do vinho tinto que bebera há pouco, enquanto ouvia risadas e histórias improvisadas ao lado da família. O calor da lareira e o cheiro de lenha queimando pareciam distantes agora, envoltos pela fria urgência daquele chamado inesperado.
Doze chamadas perdidas. Doze tentativas de contato. Aquilo não podia ser apenas coincidência, não naquele horário, não com a insistência de um número desconhecido. O telefone voltou a vibrar, e ele levantou-se abruptamente, deixando a taça sobre a mesa de carvalho sem dizer nada. Pelo canto dos olhos, viu a irmã alimentar a lareira com mais galhos, o brilho das chamas aquecendo o ambiente em contraste com o gelo que se apossava dele.
O número desconhecido ligava novamente, e desta vez, tomado pela inquietação, atendeu. Levou o aparelho até o ouvido, sendo imediatamente atingido pela voz angustiada de uma mulher, embargada pelo choro.
"Ele não está bem, preciso que você venha até aqui!" A voz parecia partir ao meio com cada palavra, uma urgência desesperada entre os soluços. "Não estou conseguindo acalmá-lo."
"Ele está assustando nossa filha."
O tom de desespero na voz dela deixou claro que ele precisava agir, sem questionar. Por mais que fosse véspera de Natal, aquela ligação tinha o poder de cortar o frio da noite e perturbar qualquer paz que ele pudesse ter esperado sentir. Era a única pessoa cujo chamado ele responderia com urgência, pois Harper era dura, autossuficiente, e orgulhosa demais para pedir ajuda de quem quer que fosse — especialmente dele. Ela o odiava. Ela sempre havia sido a pedra no sapato, a voz crítica, o olhar de desprezo que o colocava para baixo sem qualquer remorso. E agora, aquela mulher, orgulhosa e inabalável, implorava por socorro entre soluços, pedindo por ele, o último recurso, como se algo de fato ameaçador estivesse à espreita, exigindo sua presença.