A verdade é que eu já sabia o que aconteceria quando Mia me ligou de manhã, com a voz tremendo, dizendo que a mamãe estava chorando. Otávio tinha ido embora. Ele sequer teve a decência de terminar pessoalmente - mandou uma mensagem fria, como se meses de relacionamento significassem nada. E talvez não significassem mesmo. Talvez ele nunca a tivesse amado.
Meu peito apertou ao pensar nisso enquanto o táxi se aproximava da nossa casa. Eu sabia que minha mãe só queria ser feliz, mas fez escolhas erradas. Não pude deixar de pensar que, de certa forma, eu também era culpada. Otávio queria informações sobre a gangue - sobre a minha vida - e eu, mesmo sem querer, fui o motivo para tudo desmoronar.
Desci do táxi, respirando fundo. O ar parecia pesado, como se cada passo em direção à porta carregasse o peso das decisões erradas e das consequências inevitáveis. Girei a maçaneta sem bater e entrei. A casa estava silenciosa demais. Isso me deixou em alerta.
Mia estava em pé na cozinha, olhando para a nossa mãe, que parecia perdida, agitada, preparando alguma bebida como se sua vida dependesse disso. Toquei de leve no ombro de Mia, que me deu um sorriso pequeno, mas preocupado.
Minha mãe limpava a mesma bancada repetidamente, como se tentar apagar a sujeira fosse apagar também a dor. O pano passava, voltava e repetia o ciclo.
- Ela tá assim há quanto tempo? - perguntei, baixinho.
- Não tem muito. - Mia suspirou, cruzando os braços. - Assim que viu a mensagem, chorou no sofá. Depois ficou repetindo que estava bem, e agora tá assim...
Olhei para minha mãe, que não parecia ter notado minha chegada. Caminhei até ela em passos lentos, sem querer assustá-la. Toquei seu ombro, e ela se virou rápido demais.
Seus olhos estavam vermelhos e inchados, brilhando com lágrimas não derramadas. Antes que eu pudesse dizer qualquer coisa, ela desabou nos meus braços, chorando de soluçar.
- Nicole... - Ela sussurrou entre lágrimas, me apertando forte, como se eu fosse sua âncora. Instintivamente, meus braços a envolveram, tentando passar segurança quando eu mesma me sentia quebrada por dentro. - Desculpa, desculpa...
Ela repetia, e aquelas palavras me atingiram como facas. Eu não queria vê-la assim, despedaçada. Mesmo sabendo que era inevitável, aquilo me matava.
- Tá tudo bem... - murmurei, segurando firme para não chorar também.
- Você estava certa. - Ela se afastou o suficiente para me olhar nos olhos, e mais lágrimas escorreram. - Você tinha avisado e...
- Mãe, para... - interrompi, balançando a cabeça. - Isso não importa agora. Nada disso importa.
Ela balançou a cabeça, concordando, mas as lágrimas continuavam caindo. Eu a puxei de volta para o abraço, sentindo o quanto ela tremia. E então, de repente, senti os braços de Mia ao nosso redor também. Ela nos envolveu em um abraço apertado, e ficamos assim, como se o mundo lá fora não existisse.
Mesmo vendo minha mãe naquele estado, eu não conseguia evitar o alívio por saber que Otávio tinha ido embora. Ele não poderia mais machucá-la.
Mais tarde, depois que conseguimos acalmá-la, sentamos na cama como costumávamos fazer antes. Conversamos sobre coisas banais. Fiz piadas ruins para fazê-la rir, e quando finalmente ouvi o som da risada dela, mesmo que fraca, senti um pequeno peso sair dos meus ombros.
Ela adormeceu logo depois, exausta. Fiquei observando-a por um tempo antes de sair do quarto em silêncio, com Mia ao meu lado. Fomos para a cozinha para conversar sem correr o risco de acordá-la.
- Não consigo evitar ficar feliz que ele foi embora, Cole. - Mia quebrou o silêncio primeiro, sua voz carregada de alívio misturado à culpa.
- Nem eu. - Admiti, soltando um sorriso curto. - Mas agora você vai ter que ficar de olho nela.
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GANGSTER
RomanceNicole Forbes é uma garota de 17 anos, muito tímida e recatada, que mora em uma cidade pequena. Sempre foi uma romântica incurável. Sua vida muda quando descobre que Luke Bryan, irmão de sua melhor amiga e chefe de uma gangue, está de volta à cidade...
