CAPÍTULO 64

2.2K 127 49
                                        

Assim que cheguei na casa dos meus avós, o cansaço me dominou. Minha avó havia preparado o quarto de visitas com tanto carinho que bastou eu me jogar na cama para apagar. Acordei horas depois, com o sol já alto, e o estômago roncando de fome.

Levantei devagar, os músculos ainda doloridos da viagem longa e desconfortável. Um banho rápido me ajudou a despertar, e a água quente lavou parte do peso que eu sentia no peito. Vesti uma roupa leve e segui o cheiro familiar de comida caseira até a cozinha.

A cozinha da minha avó era como um pedaço do passado preservado no presente. Pequena, mas aconchegante, tinha paredes de azulejos brancos com detalhes em azul-claro. O piso de madeira escura contrastava lindamente com os móveis creme de puxadores de metal envelhecido.

Uma grande janela adornada com cortinas rendadas deixava a luz do sol entrar, iluminando prateleiras repletas de louças floridas e potes de vidro cheios de especiarias. No canto, um fogão dividia espaço com um moderno forno elétrico, como se o tempo ali tivesse parado, mas sem perder a praticidade do presente.

Minha avó sorriu assim que me viu.

- Venha tomar um chá comigo, querida. Fiz os biscoitos que você adora.

Eu me sentei, tentando me agarrar àquela sensação de conforto enquanto comia os biscoitos. No entanto, uma inquietação pairava sobre mim, como se algo estivesse errado, mesmo ali, na casa que sempre foi meu refúgio.

A tranquilidade não durou muito. Meu avô apareceu na porta da cozinha, nos chamando para ir ao mercado.

- Vai assim ao mercado? - perguntou ele, franzindo a testa quando me viu pronta para sair.

Eu estava com um vestido florido e um salto plataforma. Soltei os cabelos, passei um pouco de gloss e um toque de blush. Talvez estivesse um pouco arrumada demais para um simples mercado.

- Tá ruim? Exagerei? - perguntei, sentindo a insegurança me morder.

- Deixa ela, querido. - Minha avó interveio, dando um leve tapinha no ombro dele. - Está linda, querida.

Meu avô balançou a cabeça, resmungando alguma coisa sobre moda, mas abriu a porta e me deu passagem.

Foi quando tudo parou.

Meus olhos se fixaram na figura em pé na pequena estrada de pedra que cortava o gramado da frente. Meu coração deu um salto tão violento que precisei me agarrar à barra do vestido para manter a compostura.

Luke.

Ele estava ali, como uma sombra que eu não conseguia apagar, vestido completamente de preto - da jaqueta de couro até as luvas apertadas. A moto estava estacionada atrás dele, brilhando ao sol. Seu olhar pousou em mim como um peso, misturando alívio, raiva e... ternura? Não. Eu me recusei a acreditar que havia ternura naquele olhar.

Minhas mãos começaram a suar, e meu coração bateu tão rápido que parecia ecoar em cada parte do meu corpo. Suas sobrancelhas se uniram em uma expressão confusa, como se ele quisesse me decifrar, e isso só aumentou minha inquietação.

- O garoto Bryan - disse meu avô, interrompendo o silêncio sufocante.

- Meu jovem, não esperávamos você aqui. - Minha avó sorriu, mas eu me encolhi um pouco atrás deles.

- Desculpe chegar sem avisar. - Luke falou, caminhando em nossa direção.

Cada passo dele parecia ecoar no chão de pedra, fazendo meu estômago se revirar. Eu fiquei presa entre querer correr para longe e querer gritar com ele.

- Vim falar com a Nicole.

Sua voz era firme, mas havia algo mais ali. Algo que me fez sentir como se estivesse sendo observada por um predador.

GANGSTER Onde histórias criam vida. Descubra agora