Capítulo 48

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O dia começou como tantos outros na Runway: com Miranda Priestly atravessando o corredor central da redação como uma tempestade de elegância, segurança e autoridade. Os saltos de seu scarpin ecoavam ritmados como um metrônomo implacável, e bastava um olhar para que assistentes, estagiários e editores se colocassem em movimento.

— Quero a prova das fotos da campanha da Versace na minha mesa até as dez. Se tiver um só elemento desalinhado, vamos recomeçar do zero. Emily, você ouviu? Do. Zero.

— Sim, Miranda. Já estou em contato com o time do Milan.

— Ligue para a assessoria da Dior e diga que a modelo da página trinta e dois não vai mais ser usada. Ela parece uma adolescente entediada. Quero uma mulher que saiba o que faz com um salto alto e um vestido de couro. Substituam até o fim do dia.

Emily correu, Nigel se aproximou com os olhos arregalados.

— Miranda, a equipe de design quer saber se você aprova a nova paleta para o editorial de setembro...

— Se eu quisesse aprovação de infantilidade em tons pastéis, eu teria chamado a editora da revista "Bebê e Mamãe". Diga a eles que quero impacto. Quero algo que diga poder, renascimento, desafio. Estou gerando uma nova vida, Nigel. Que o editorial esteja à altura disso.

O stylist sorriu de leve. Miranda estava radiante. Mesmo em meio ao caos da redação, exalava algo diferente. A gravidez de Andrea a tinha transformado. Sua postura era ainda mais firme, mas havia uma centelha de fogo nos olhos, de paixão, que a deixava mais imponente do que nunca.

Tudo fluía com a precisão de um desfile de alta-costura até a chegada de Jacqueline Follet.

A francesa, vestindo um terninho Chanel e um sorriso frio, não precisou anunciar-se. Bastou atravessar a redação com aquele ar de "elegância afiada" e todas as cabeças se viraram. Jacqueline sempre fora uma sombra constante, uma rival não declarada, uma cobra que rastejava ao redor da coroa de Miranda.

— Chérie, que surpresa vê-la... ainda tão dedicada — disse Jacqueline, com seu francês meloso, invadindo o escritório de Miranda sem ser anunciada.

Miranda sequer ergueu os olhos dos papéis à sua frente.

Jacqueline sorriu, forçando charme.

— Jacqueline. A ousadia de aparecer sem ser convidada é, de fato, sua assinatura mais consistente — respondeu com um tom seco, o olhar finalmente se erguendo, cortante como navalha. — Espero que não tenha largado sua revista aos próprios erros por muito tempo.

— Miranda — ela disse, com um sotaque propositalmente acentuado. — Sempre uma visão... É verdade então? Está preparando um novo editorial inspirado em... maternidade?

— Estou preparando um editorial inspirado em poder feminino. Mas você não entenderia.

Jacqueline riu, falsa.

— E como estão as coisas com... sua jovem noiva? Ou devo dizer... a jornalista oportunista?

Miranda levantou os olhos, gélida. O silêncio na redação era total.

— Cuidado com o próximo insulto que vai sair da sua boca, Jacqueline.

— Não teme que a imagem da Runway possa ser... manchada? Afinal, estar com uma mulher como Andrea... é no mínimo arriscado. Uma jornalista comum, com uma filha a tiracolo... não exatamente o que se espera da mulher mais poderosa da moda.

Miranda se levantou. A sala pareceu diminuir com a presença dela de pé.

A tensão ficou palpável. Emily, que segurava pastas ao lado de Miranda, quase deixou tudo cair.

Miranda se levantou da poltrona, com a lentidão de quem não precisa correr para impor respeito. Seu olhar perfurava como um raio.

— Comum? — repetiu com desprezo. — Andrea é extraordinária. Inteligente, ética, genuína. Algo que você jamais entenderia, Jacqueline, pois está demasiado ocupada tentando preencher o vazio da sua carreira com provocações infantis e sexualmente frustradas.

Jacqueline deu um passo à frente, tentando manter o controle da situação, mas Miranda já a tinha esmagado com as palavras.

— Se me permite um conselho... não desperdice sua pouca dignidade tentando insinuar que poderia ocupar um espaço na minha vida. Você não é e nunca será sequer sombra da mulher que Andrea é. Sua ambição patética, disfarçada de preocupação profissional, é tão transparente quanto a sua tentativa de parecer relevante.

— Miranda... — começou Jacqueline, sem graça, buscando alguma brecha de recuperação.

— Não termine essa frase. Vai se poupar do vexame de ser humilhada de forma ainda mais contundente.

Ela fez uma pausa, e seu olhar adquiriu um brilho letal.

— Você quer saber o que Andrea significa para mim? Ela é minha paz depois da guerra. Ela é o riso das minhas três filhas no fim de um dia caótico e não ouse nunca mais dizer que Chloé não é MINHA FILHA, tanto quanto Carolina e Cassidy e estamos transbordando com mais um que está a caminho. Ela é o amor que eu nunca soube que merecia. Andrea não me diminui — ela me eleva. E você, Jacqueline, é tão pequena que não conseguiria alcançar nem a sola do sapato dela mesmo de salto alto.

Silêncio.

Jacqueline empalideceu, como se tivesse tomado um tapa. Um sonoro e elegante tapa de luvas de couro Chanel.

Miranda ajeitou os punhos da blusa, girou lentamente sobre os saltos, e disse, como quem descarta algo irrelevante:

— Agora, se me der licença... eu tenho um império para comandar. E você tem uma reputação para reconstruir, se é que sobrou alguma coisa depois disso.

Jacqueline se retirou em silêncio absoluto, engolindo a derrota como um gole amargo de vinho azedo. Assim que a porta se fechou, Nigel entrou de fininho.

Assim que ela se foi, Miranda respirou fundo. Emily ofereceu um copo d'água. Nigel sorriu.

Miranda se recostou na cadeira, ajeitando os papéis.

— Uau. Isso foi... épico. — Ele sorriu. — Quer que eu prepare uma taça de vinho? Ou uma faixa com "ela mereceu"?Se você não fosse minha chefe, eu pediria sua mão em casamento.

— Isso seria um desperdício. Eu já pertenço a outra mulher.

Miranda arqueou a sobrancelha, olhando para Nigel, triunfante e então voltou a sentar-se, seu olhar fixo nos documentos à frente.

— Uma boa publicação será suficiente, Nigel. Que o editorial brilhe — como Andrea brilha em minha vida.

Miranda sorriu sozinha.

Ela não precisava provar nada a mais ninguém. Ela tinha Andrea, suas filhas, um bebê a caminho e uma revista que ainda era o epicentro da moda mundial.

Jacqueline podia tentar o que quisesse. Mas Miranda Priestly não caía. Miranda Priestly brilhava. E agora, brilhava ainda mais por saber que o amor que vivia era seu maior editorial.

A TERCEIRA PRIESTLYHistórias para pegar e não largar. Descubra agora