Capítulo 57

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O domingo amanheceu preguiçoso, com raios dourados filtrando-se pelas copas das árvores e invadindo suavemente a tenda onde a família Priestly ainda dormia. O som dos passarinhos anunciava um novo dia no meio da natureza, e Chloe foi a primeira a acordar — com os cabelos despenteados, usando seu pijama estampado de planetas e estrelas. Esfregou os olhos, olhou ao redor, e por um segundo se lembrou que estavam no meio do mato... e adorou a lembrança.

— Mamãe? — sussurrou, cutucando Andrea no braço.

Andrea resmungou algo incompreensível, ainda mergulhada no calor do sono. Chloe deu uma risadinha e então pulou em Miranda, que dormia com uma expressão rara: completamente relaxada, sem o menor traço da mulher intransigente da Runway.

— MAMÃE MIRANDAAAA! Acorda, tem uma borboleta azul gigante lá fora!

Miranda levou alguns segundos para reagir. Abriu um olho lentamente, como se fosse indecente levantar tão cedo em um domingo, ainda mais em pleno "camping".

— Chloe... minha querida... por que você está gritando no meu ouvido como se fosse um alarme de incêndio?

— Porque a borboleta tá indo embora! Vem ver! — puxou-a pela mão, já animada, com os pezinhos descalços tocando o chão frio da tenda.

Minutos depois, todas estavam de pé — ou pelo menos fingindo que estavam. Cassidy e Caroline ainda tentavam decidir se estavam sonhando ou se realmente tinham acordado com Miranda vestida em uma calça cargo bege e uma das camisetas esquisitas de Andrea, com parte do cabelo platinado preso em um rabo de cavalo. Sem maquiagem. Sem salto. Sem Prada.

— Isso merece uma foto histórica. — murmurou Cassidy, pegando o celular escondida.

— Apague isso imediatamente, Cassidy. — disse Miranda, com um meio sorriso ameaçador.

O plano do dia era simples: trilha curta e banho de cachoeira. A empresa que organizava o acampamento havia preparado um roteiro leve, próprio para crianças, com placas informativas ao longo do caminho. Caroline se encantou com o percurso — sua curiosidade aflorava a cada passo. Estava com um caderninho nas mãos e fazia anotações sérias, como se estivesse estudando para um trabalho importante.

— Olha, Chloe, isso aqui é uma samambaia arborescente. Ela existe desde a época dos dinossauros! — explicou, orgulhosa.

— Então ela viu um T-Rex de verdade?! — Chloe arregalou os olhos.

— Provavelmente não exatamente essa, mas a espécie, sim. — respondeu Cassidy, entrando na conversa. — E esse inseto aqui, com as antenas compridas? É um bicho-pau.

— Parece um graveto! — Chloe comentou, fascinada. — Gente, o mato é incrível!

Andrea ria ao ver as meninas conversando, fazendo perguntas, se sujando de barro sem a menor culpa. Miranda observava em silêncio, com um sorriso discreto, os olhos azuis refletindo as folhas e a luz dourada da manhã. Ela parecia absorver cada momento com uma fome calma, como se quisesse armazenar tudo dentro de si.

— Eu ainda não acredito que te convenci a vir pro meio do mato. — disse Andrea, caminhando ao lado dela.

— Você não me convenceu. Você me arrastou. — respondeu Miranda, mas seu tom era leve. — E... bom, talvez eu tenha gostado de ser arrastada. Um pouco.

— Só um pouco?

— O suficiente pra considerar repetir a experiência. — e então, baixinho, — Principalmente se for com vocês.

A trilha levou o grupo até uma pequena cachoeira de águas cristalinas. O barulho da queda d'água era tranquilizador e as meninas tiraram os tênis rapidamente, mergulhando os pés na água gelada com gritinhos e risadas. Andrea foi logo atrás, mas Miranda parou na margem, observando com cuidado onde pisava.

— Vem, Mamãe Mi! — gritou Chloe, já até os joelhos dentro da água. — Tá gelada, mas é tão legal!

— Deus... esse lugar parece um spa selvagem e congelado. — resmungou, mas deu alguns passos, sentindo a água tocar sua pele. A primeira reação foi franzir o rosto, mas logo se rendeu ao riso das filhas e à expressão encantada de Andrea.

Tomaram banho de cachoeira, fizeram guerra de respingos, escorregaram em pedras, riram até doer a barriga. Andrea conseguia ver Miranda rindo com as filhas de um jeito que nunca tinha visto antes — livre, solta, sem a menor vergonha de se mostrar. A editora-chefe poderosa ali era apenas uma mãe apaixonada, descobrindo que podia se divertir sem perder sua identidade.

Horas depois, após um lanche improvisado com frutas e sanduíches, voltaram para o acampamento. Começaram a desmontar o que podiam enquanto a equipe cuidava do restante. Chloe cochilou no colo de Andrea durante o trajeto de volta para casa. Cassidy e Caroline, ainda animadas, mostravam as fotos que tiraram, rindo das caretas e dos tombos.

— A senhora realmente ficou linda com aquela lama na testa, mamãe Miranda. — comentou Caroline.

— Serei eternamente grata por esse comentário. — ironizou Miranda, embora com o canto dos lábios visivelmente sorridente.

De volta à casa, o som familiar da cidade parecia estranho, distante. Tudo estava no lugar, mas elas tinham voltado diferentes. Era como se, por um breve instante, tivessem vivido uma vida paralela — onde Miranda sabia o nome de flores e Andrea devorava Big Macs como se fossem trufas francesas.

Quando finalmente entraram em casa, Miranda se espreguiçou e declarou:

— Eu preciso de um banho de verdade, um copo de vinho e talvez um ano inteiro de silêncio.

— E eu quero repetir tudo isso no mês que vem. — retrucou Andrea.

— Claro que quer.

— Você sobreviveu, Miranda. — ela sorriu.

— Eu mais do que sobrevivi, Andrea. Eu... vivi.

E Andrea a abraçou, como se soubesse que aquela era a maior rendição que Miranda Priestly já tinha feito em sua vida.

A TERCEIRA PRIESTLYHistórias para pegar e não largar. Descubra agora