A casa estava silenciosa quando Miranda girou a chave na porta. O perfume leve de lavanda e baunilha, vindo de um dos difusores que Andrea espalhava pela casa, a envolveu como um abraço suave. A editora deixou a bolsa no aparador da entrada, tirou os sapatos com um suspiro de alívio e percorreu o corredor com passos firmes, mas silenciosos. A luz da sala estava baixa, a TV exibia alguma comédia romântica esquecida no pause, e ali, encolhida no sofá, estava Andrea.
Miranda parou. Seus olhos passearam pela figura de sua mulher, adormecida com uma manta puxada até a cintura, a cabeça ligeiramente caída para o lado, os lábios entreabertos e as mãos repousando sobre a barriga. O rosto sereno, os cílios longos, a expressão de paz. Linda. Tão linda. Sempre foi, mas agora... agora Andrea carregava ainda mais do que beleza. Carregava vida. Carregava um filho delas. E Miranda sentiu o peito se apertar com a intensidade do amor que transbordava dentro de si.
Com os olhos marejados, ela se aproximou devagar, apenas para roçar os dedos com delicadeza no rosto de Andrea. "Minha mulher", pensou. "Minha família. E ninguém — absolutamente ninguém — tem o direito de tocar nisso." A lembrança do que Jacqueline ousou dizer mais cedo a atravessou como uma lâmina. Mas a raiva se dissolveu diante da imagem da paz adormecida à sua frente. Ela jamais deixaria que palavras podres atingissem Andrea. Não enquanto ela respirasse.
Foi até o banheiro, precisando se livrar do dia, da tensão, das palavras ásperas que pairavam no ar. O banho foi quente e longo, com o aroma de eucalipto e rosas preenchendo o ambiente. Fechou os olhos sob o jato d'água e sentiu cada gota levando embora os resquícios de tudo o que não importava. Saiu envolta no roupão felpudo que Andrea havia pendurado para ela dias atrás com um bilhete engraçado preso na gola. Ainda estava lá: "Não se esqueça de relaxar, general." Sorriu. Ela sempre cuidava de tudo.
Antes de voltar à sala, desviou para o corredor das meninas. Abriu a porta com cuidado e se aproximou da cama de cada uma delas. Cassidy dormia profundamente, com os fones de ouvido mal encaixados e uma música instrumental suave escapando dali. Caroline, enrolada como uma lagarta em seu cobertor de listras coloridas, respirava compassadamente.
Na cama montessoriana ao lado da janela, Chloe dormia de bruços, os bracinhos abertos como se esperasse um abraço do universo. Miranda se abaixou e acariciou as costas da filha mais nova. Chloe resmungou baixinho, virou o rosto em direção à mãe e murmurou com a voz embargada de sono:
— Te amo, mamãe Mi.
Miranda sentiu o peito derreter.
— Também te amo, minha Coisinha Quatro... — sussurrou, com os olhos brilhando.
Beijou a testa da filha e ajeitou a coberta. Ficou ali mais um instante antes de sair do quarto com o coração aquecido.
Na sala, Andrea continuava dormindo. Miranda se ajoelhou ao lado do sofá e roçou os lábios na bochecha dela, sussurrando baixinho:
— Amor... vem pra cama, meu anjo.
Andrea resmungou algo ininteligível, virou o rosto e fez um biquinho preguiçoso. Miranda riu baixo.
— Andy, acorda, meu amor. Você vai ficar com dor nas costas aqui.
Os olhos castanhos se abriram devagar, pesados de sono. Andrea piscou algumas vezes até focar em Miranda e soltou um suspiro:
— Droga... eu queria ter ficado acordada até você chegar. — A voz era baixa, arrastada, carregada de manha. — Me desculpa, Mi...
— Não se desculpa por isso, bobinha. — Miranda sorriu, pegando-a pela mão. — Você é a coisa mais fofa do universo quando tá manhosa.
Andrea riu devagar e esfregou os olhos.
— E você é injusta. Chega toda cheirosa, de roupão, com esse cabelo perfeito e essa voz de veludo... Quem resiste?
— Ninguém — Miranda respondeu, beijando-lhe a ponta do nariz. — Vem, vamos pra cama. Quero você comigo, nos meus braços.
Andrea assentiu e se levantou devagar, ainda sonolenta. Miranda a guiou até o quarto com a mão espalmada nas costas dela, carinhosa, protetora.
Deitadas, Andrea se acomodou nos braços de Miranda como se ali fosse seu lugar natural — e era. As pernas entrelaçadas, os corpos alinhados, a respiração aos poucos sincronizada. Miranda passou os dedos pelos cabelos castanhos da esposa, enquanto Andrea acariciava distraidamente sua cintura por debaixo do robe.
— Como foi seu dia? — Andrea perguntou, bocejando.
— Longo. Exaustivo. Mas suportável porque terminou aqui, com você. — Miranda fez uma pausa. — E você? Como foi com as meninas?
— Uma aventura. Chloe tentou colocar glitter nas panquecas, dizendo que elas estavam precisando de um pouco de brilho. Caroline me pediu ajuda com um dever de física quântica e Cassidy queimou um brigadeiro no micro-ondas. — Riram juntas. — Mas também fizemos colares de miçanga. E elas escreveram uma música ridícula sobre a barriga e ainda por cima fizeram um vídeo disso.
— Meu Deus... — Miranda balançou a cabeça. — Vamos ter que esconder esse vídeo no cofre.
— Com certeza. A gente pode usá-lo para chantageá-las quando forem mais velhas. — Miranda gargalhou a apertando mais em seus braços.
Silêncio por alguns instantes. Apenas o som da noite e a respiração tranquila. Então Miranda, mais suave, disse:
— Eu vi você dormindo no sofá hoje. E pensei: não existe nada mais bonito do que você assim. Você me acalma só de existir, Andy.
Andrea sorriu, emocionada.
— Você me faz sentir segura. Em paz. Nunca imaginei isso. Nunca com ninguém.
— Eu não deixarei ninguém tocar no que a gente construiu. — A voz de Miranda endureceu por um instante. — Nem Jacqueline. Nem o mundo. Andrea, você é minha família. Meu lar. A mulher da minha vida.
— Eu sei. E você é a minha. Sempre foi.
Miranda a apertou mais contra o peito.
— Dorme, meu amor. Estou aqui. Sempre vou estar.
Andrea suspirou, beijou o colo da esposa e murmurou contra sua pele:
— Boa noite, minha noiva linda.
— Boa noite, minha esposa de alma.
E ali, envoltas uma na outra, em sua bolha de amor, silêncio e aconchego, elas adormeceram com o coração em paz. O futuro podia esperar. Naquela noite, tudo o que importava já estava ali.
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A TERCEIRA PRIESTLY
FanfictionSer abandonada por Andrea, na noite mais importante no mundo da moda, o Paris Fashion Week, causava em Miranda uma dor tão pungente e o arrependimento de ter deixado o amor de sua vida escapar por entre seus dedos. Andrea, sofrendo com a rejeição ap...
