A brisa leve da primavera soprava pelas ruas arborizadas do Upper East Side naquela tarde de quarta-feira, mas dentro do carro, Andrea mal conseguia esconder o friozinho que sentia na barriga. Miranda, sentada ao volante, notou o modo como a noiva ajeitava a blusa a cada dois minutos e como alisava a barra da calça como se estivesse em uma entrevista de emprego.
— Está nervosa, Sachs? — perguntou com um sorriso contido nos lábios, sem tirar os olhos da rua.
Andrea soltou uma risadinha.
— Talvez um pouco. É minha primeira reunião de pais como mãe oficial de Caroline e Cassidy. E vamos entrar de mãos dadas. Isso é... grande.
Miranda olhou de relance para ela, estendendo a mão livre e entrelaçando os dedos aos de Andrea.
— Já somos uma família há muito tempo, sweet. Hoje é só uma formalidade... e um belo motivo de orgulho.
Andrea apertou a mão da noiva, sentindo a tensão dar lugar a um calor confortável. Quando chegaram à escola, algumas crianças brincavam no pátio, e pais já começavam a se reunir no salão principal. Andrea inspirou fundo antes de descer do carro. Miranda, sempre impecável, caminhava com a segurança de quem conhecia bem o caminho — mas, dessa vez, seu passo desacelerou para se alinhar ao de Andrea.
Entraram de mãos dadas, como haviam prometido fazer. Algumas mães e pais já presentes se viraram para observá-las. Houve sorrisos genuínos, olhares amistosos — e, sim, outros curiosos, investigativos, talvez um pouco surpresos. Mas nada que perturbasse o laço firme que as unia. Nada que pudesse abalar o orgulho estampado no rosto de Andrea.
Ao entrarem na sala onde aconteceria a reunião, foram recebidas pela coordenadora pedagógica, uma mulher de olhos calorosos e fala doce, que apertou a mão das duas com simpatia.
— Que bom que vieram! Caroline e Cassidy são incríveis. Vai ser uma reunião leve e cheia de bons relatos, garanto.
Andrea sorriu, emocionada com o carinho. Miranda agradeceu com um leve aceno de cabeça.
Sentaram-se na terceira fileira, bem no centro. Miranda pousou sua bolsa sobre o colo e entrelaçou novamente os dedos aos de Andrea, como se dissesse: estou aqui, com você, sempre. E assim permaneceram durante toda a reunião — mãos firmemente unidas, olhos atentos, corações pulsando em sintonia.
As apresentações começaram, e, quando a palavra foi passada para os pais de Caroline e Cassidy, Miranda se levantou, com sua elegância habitual.
— Boa tarde — disse, com aquela voz que fazia qualquer sala silenciar. — Sou Miranda Priestly, e esta é minha noiva, Andrea Sachs, a outra mãe de Caroline e Cassidy.
Houve uma leve movimentação de cadeiras, alguns cochichos, mas também muitos sorrisos. A professora responsável pela turma se adiantou, dizendo com naturalidade:
— Já tivemos o prazer de conhecer Andrea em outras ocasiões, mas é maravilhoso vê-las agora juntas como mães oficiais das meninas. Caroline e Cassidy têm nos encantado este ano.
Andrea, emocionada demais para falar, apenas sorriu e assentiu.
A reunião prosseguiu com avaliações e comentários individuais dos alunos. Quando chegou a vez das meninas, a sala se encheu de risos.
— Vamos começar com Cassidy — disse a professora, folheando suas anotações. — Ah, nossa Cassidy. Espontânea, falante, divertida... às vezes um pouquinho arteira, sim, mas nunca por mal. Ela tem um carisma que conquista qualquer um. É uma líder nata. Tem facilidade em agrupar os colegas, criar estratégias em grupo, propor soluções... e confesso que é difícil acompanhar o ritmo de tanta energia.
Andrea riu, claramente reconhecendo a filha naquelas palavras.
— E Caroline — continuou a professora — é o equilíbrio perfeito. Tranquila, organizada, observadora. Criou e lidera o clube de troca de livros da escola com uma dedicação surpreendente. Tem uma sensibilidade ímpar para lidar com os colegas. E, juntas, essas duas formam uma dupla poderosa: Cassidy com as ideias loucas e corajosas, e Caroline com o plano detalhado para realizá-las.
Houve aplausos espontâneos. Andrea apertou os olhos para conter as lágrimas. Miranda deslizou o polegar sobre a mão dela, confortando-a em silêncio.
Ao final da reunião, foram cercadas por algumas mães e professores que queriam cumprimentá-las, agradecer pela educação das meninas e expressar apoio sincero. Ainda assim, Andrea notou dois ou três pais que apenas observavam de longe, cochichando discretamente.
Mas o olhar de Miranda não se alterou. Ela se manteve firme ao lado da noiva, altiva e orgulhosa, como sempre. E não largaram as mãos nem mesmo quando pegaram os folders entregues pela escola. Só soltaram, de fato, por um breve instante — para assinar a lista de presença.
Quando saíram da escola, o sol já se despedia no horizonte, tingindo os prédios dourados de Manhattan. Andrea caminhava devagar, como quem ainda digeria tudo o que havia acontecido.
— Estou... exausta — ela disse, suspirando. — Mas tão feliz. Eu... nunca pensei que ouvir alguém dizer "a outra mãe das meninas" fosse me fazer sentir tão inteira.
— Você é, Andrea. Sempre foi — respondeu Miranda, virando-se para ela e encostando a testa à dela por um instante. — Mas agora o mundo sabe também.
Seguiram de mãos dadas, falando sobre os comentários dos professores, rindo das observações sobre as traquinagens de Cassidy e se emocionando, de novo, com o orgulho que Caroline transmitia à escola inteira. Foi então que, passando pela esquina de uma praça movimentada, Andrea parou subitamente.
— Miranda... — ela apontou com o queixo — tem um carrinho de cachorro-quente ali.
— E...?
— E eu quero um.
Miranda arqueou uma sobrancelha, incrédula.
— Cachorro-quente de rua?
— Sim. Um cachorro-quente de rua, com molho, batata palha e tudo o que tiver direito. Por favor. Estou com desejo.
Miranda suspirou, fingindo indignação.
— Andrea, eu faço um cachorro-quente maravilhoso em casa. Com ingredientes frescos, molhos orgânicos...
— Não quero gourmet — interrompeu Andrea, segurando o braço da noiva. — Quero aquele, fedido, cheio de mostarda, com pão que vem do saquinho. Vai, por favor. Eu fui uma ótima mãe hoje. Me deixa isso.
Miranda ainda tentou resistir, mas a expressão pidona de Andrea — e o fato de saber que não resistiria mesmo — a fizeram ceder. Comprou dois. Entregou o primeiro a Andrea, e deu uma mordida no segundo, como quem desafia o próprio paladar.
— Está horrível? — perguntou Andrea, de boca cheia.
Miranda mastigou devagar. Depois, limpou o canto da boca com elegância e disse:
— ...Infelizmente, está delicioso.
Andrea gargalhou.
— Sabia! Você nunca vai admitir, mas adora essas coisas.
— Só quando vêm acompanhadas da sua risada — disse Miranda, com um brilho raro nos olhos.
Sentaram-se num banco da praça, dividindo o momento mais simples e, ainda assim, um dos mais especiais. Andrea encostou a cabeça no ombro da noiva, e Miranda passou o braço ao redor da sua cintura.
Naquele instante, o mundo inteiro parecia caber ali: duas mulheres apaixonadas, duas filhas amadas, uma família com sobrenome compartilhado — e dois cachorros-quentes que jamais seriam esquecidos.
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A TERCEIRA PRIESTLY
FanfictionSer abandonada por Andrea, na noite mais importante no mundo da moda, o Paris Fashion Week, causava em Miranda uma dor tão pungente e o arrependimento de ter deixado o amor de sua vida escapar por entre seus dedos. Andrea, sofrendo com a rejeição ap...
