O despertador ainda não havia tocado quando Miranda abriu os olhos, ofegante, o corpo encharcado de suor frio, o coração martelando no peito como se quisesse escapar dali. A escuridão do quarto contrastava com a nitidez absurda da cena que ainda a dominava — Andrea nos braços de Christian, sorrindo, os dois tão próximos, como se aquele breve reencontro tivesse sido mais do que o esperado. E então, como um soco no estômago, o pesadelo começava: Chloe chamando Christian de "papai", Andrea olhando para Miranda com um pedido silencioso de compreensão, como se já tivesse feito sua escolha.
Miranda sentou-se na cama, passando as mãos trêmulas pelo rosto. Nunca em sua vida havia sentido algo parecido. Ciúmes? Aquela emoção tão... vulgar, tão distante da mulher que controlava as maiores publicações de moda do mundo com um simples olhar? Mas ali estava ela, às quatro e meia da manhã, completamente abalada.
"Ele esteve presente quando eu não estive", pensou, amarga. "Quando Andrea mais precisou, quando ela estava assustada, grávida, sozinha... ele estava lá. Eu não."
A insegurança, essa criatura rara em seu mundo, a atacava com garras invisíveis. E se Christian ainda desejasse Andrea? E se Andrea, inconscientemente, ainda alimentasse algum carinho além da amizade por ele? E se Chloe, com sua doçura, acabasse criando uma conexão com ele e sentisse que era isso o que faltava? Um pai.
A mente de Miranda foi longe demais. Tão longe que não notou quando Andrea se mexeu na cama, sonolenta, buscando sua presença no colchão vazio.
— Mira? — chamou, a voz suave e grogue. — O que foi meu amor?
— Nada. — ela respondeu rapidamente. — Apenas... não consegui mais dormir.
Andrea sentou-se, os cabelos bagunçados caindo sobre os ombros, os olhos ainda semicerrados.
— Pesadelo? — ela perguntou, num sussurro.
Miranda hesitou por alguns segundos antes de acenar positivamente com a cabeça. Andrea apenas estendeu a mão, puxando-a de volta para a cama.
— Vem cá... só mais um pouquinho. — disse, abraçando-a. — Você está gelada.
Miranda se permitiu ficar ali por mais alguns minutos. O calor do corpo de Andrea era um bálsamo. Mas o estrago já estava feito. O pensamento não a largava. E o que a corroía ainda mais era o fato de estar com raiva de alguém que nunca lhe dera razão para tal. Andrea era fiel, amorosa, transparente. Mas a presença de Christian a desequilibrava de um jeito que ela não sabia administrar.
Na manhã seguinte, a casa era um festival de sons infantis e correrias. Chloe corria pela sala com um pedaço de torrada na mão, enquanto Cassidy e Caroline discutiam sobre um projeto da escola. Andrea arrumava as lancheiras enquanto chamava Chloe pela terceira vez para escovar os dentes. Miranda, por sua vez, estava em silêncio. Formal demais. Postura ereta, expressão contida. Havia um leve tremor em sua pálpebra esquerda — um sinal quase imperceptível, mas Andrea conhecia bem o suficiente para notar.
— Amor, você pode ver se a Chloe colocou as meias certas? — Andrea pediu, num tom leve, quase tentando quebrar o gelo.
Miranda assentiu, indo até a pequena que protestava por ter que calçar "aquela meia que pinica".
— Está certa, sim. — respondeu ela, depois de verificar. A voz estava firme, mas sem a usual doçura que usava com a caçula.
Andrea observou. Algo estava errado. Miranda estava se esforçando para não deixar transparecer, mas algo a corroía por dentro.
— Mãe... você tá bem? — perguntou Cassidy, a mais sensível à energia da casa.
— Claro querida. — respondeu ela rapidamente. — Apenas um dia cheio.
Foi nesse momento que o celular de Andrea vibrou sobre a bancada. Ela secou as mãos e pegou o aparelho. Uma mensagem de Christian.
"Foi muito bom ver você ontem. Fico feliz em saber que você e Chloe estão bem. Qualquer coisa, estou por aqui. — Chris."
A mensagem era inocente. Gentil. Mas não para Miranda, que viu o nome na tela e, com ele, todo o seu corpo enrijecer.
— Preciso ir. — disse ela, de súbito. Deu um beijo rápido no topo da cabeça de cada filha e em Andrea, mas não foi como costumava ser. Não houve aquele toque suave na cintura, nem o olhar de quem queria ficar por mais cinco minutos. — Roy pode levá-las. Vou dirigindo hoje.
Andrea a acompanhou até a porta, surpresa.
— Você está bem mesmo?
— Estou. Só preciso de silêncio. Um pouco de ar.
Andrea franziu o cenho, preocupada. Queria perguntar sobre a mensagem, queria entender o que estava acontecendo. Mas havia três meninas na cozinha, esperando pelo café da manhã, e não era o momento de aprofundar nada.
— Ok. Só... me avisa quando chegar, tá?
Miranda assentiu e saiu sem olhar para trás.
Andrea terminou de organizar as coisas das meninas com a mente a mil. Era claro como a água: Miranda estava com ciúmes. E por mais que houvesse um traço de humor nisso — era raro ver aquela mulher tão abalada —, também havia algo sério. Ela precisava garantir que Miranda soubesse que não havia absolutamente nada entre ela e Christian.
— Mãe... a mamãe Miranda está brava com você? — perguntou Caroline, enquanto colocava a mochila.
Andrea sorriu, disfarçando o aperto no peito.
— Claro que não, meu amor. Só está cansada. Às vezes adultos ficam assim.
— Tipo quando a gente briga com as amigas? — perguntou Chloe, com a cara suja de geleia.
— Mais ou menos isso. Mas ela vai ficar bem. — Andrea respondeu, limpando o rostinho da filha.
Dentro dela, no entanto, sabia que não bastaria um beijo ou um "está tudo bem" para apaziguar o que Miranda estava sentindo. O medo que ela havia escondido durante anos — o de perder Andrea — estava ali, vivo, latejando.
E Andrea faria de tudo para dissipar isso. Porque nunca, em tempo algum, Christian ou qualquer outra pessoa teria lugar no coração dela. Esse coração já tinha dona. E o nome dela era Miranda Priestly.
VOCÊ ESTÁ LENDO
A TERCEIRA PRIESTLY
FanfictionSer abandonada por Andrea, na noite mais importante no mundo da moda, o Paris Fashion Week, causava em Miranda uma dor tão pungente e o arrependimento de ter deixado o amor de sua vida escapar por entre seus dedos. Andrea, sofrendo com a rejeição ap...
