Capítulo 58

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Andrea havia acordado com uma ideia que não conseguia tirar da cabeça: queria fazer algo especial para Miranda. Desde que voltaram do acampamento, havia notado que Miranda parecia mais leve, mas ainda carregava, em pequenos gestos, a sombra das inseguranças da semana anterior. E Andrea sabia: não bastava dizer com palavras que estavam bem. Às vezes, era preciso mostrar.

Decidiu então passar com Chloe na floricultura preferida de Miranda, comprar um buquê de peônias brancas — as favoritas da editora — e levar um café quente da delicatessen francesa que ela adorava. Era um gesto simples, mas cheio de significado. Chloe, toda animada, vestiu o vestido azul com corações e pediu para levar o desenho que tinha feito de toda a família na cachoeira.

— A mamãe Miranda vai amar, né, mamãe Andy?

— Vai amar mais do que tudo, meu amor. — respondeu, beijando sua testa.

Chegaram ao prédio da Elias-Clarke perto das onze da manhã. O hall de entrada estava movimentado como de costume. Andrea segurava Chloe pela mão, já sentindo o cheiro familiar de perfume caro e papel recém-impresso, quando viu algo que a fez estacar os passos.

Jacqueline Follet descia a escadaria de mármore do prédio, ao lado de Irv Ravitz.

O sorriso automático de Andrea se apagou. O estômago se revirou em alerta. Jacqueline estava impecável, como sempre — o blazer rosa-chiclete perfeitamente alinhado, o salto agulha tinindo no piso polido, e o olhar... o olhar predatório. Irv, por sua vez, parecia sempre o mesmo: um rato de gravata, mascarado de executivo de alto escalão.

O instinto de proteção foi imediato. Andrea apertou a mão de Chloe, puxando-a sutilmente para mais perto, como quem protege um tesouro. Ela conhecia Jacqueline. Sabia exatamente o tipo de mulher que ela era — e o quanto invejava Miranda. E ver aquele brilho triunfante nos olhos da francesa acendeu algo dentro de Andrea que há muito não queimava: fúria.

— Ora, se não é a Srta. Sachs... — Jacqueline disse com um sorrisinho venenoso, parando diante delas. — E essa... é a famosa filha de Miranda?

Chloe, tímida, se escondeu atrás da mãe.

Andrea manteve a expressão firme, erguendo o queixo com discrição.

— Essa é Chloe Priestly Sachs. E sim, filha de Miranda.

— Filha de verdade? — Jacqueline arqueou uma sobrancelha, olhando para a menina com desdém. — Não é o que dizem por aí...

Andrea não teve tempo de responder antes que Jacqueline se abaixasse levemente — na tentativa patética de parecer simpática — e dirigisse-se diretamente à menina:

— Você sabe, chérie, que você não é filha de verdade da mamãe Miranda, não sabe? Ela tem outras filhas... você é só... uma convidada na vida dela.

Foi como um estalo. Um veneno derramado.

Andrea ficou paralisada por um segundo. Chloe, confusa, mordeu o lábio e apertou a barra do vestido, os olhos marejando. Andrea nunca viu tamanha crueldade em um gesto tão sutil. Mas Jacqueline não esperava que, ao atacar uma criança, estivesse libertando algo em Andrea que nem mesmo ela conhecia até então: a ira de uma mãe.

Ao avistar Nigel e Emily se aproximando, Andrea fez um sinal discreto com a cabeça. Emily, que captou o recado de imediato, se adiantou.

— Chloe! Venha comigo, querida. Vamos ver a mamãe Miranda. Ela está com saudades.

Chloe hesitou por um segundo, olhando para Andrea com olhos molhados. Andrea se agachou, a abraçou com força e sussurrou:

— A mamãe tá bem. Vai com a tia Emily. Já já eu subo com você, tá bom?

A menina assentiu e foi, ainda cabisbaixa, sendo conduzida por Emily, que lançava um olhar mortal para Jacqueline.

Jacqueline sorriu, acreditando que Andrea estava envergonhada, derrotada, humilhada em público. Talvez pensasse que a garota do café ainda morava em algum lugar dentro daquela mulher. Mas Jacqueline jamais soube o que era a força de Andrea Sachs — muito menos a força de uma mulher que ama uma filha e uma companheira com todo o seu ser.

— Você cometeu o pior erro da sua vida, Jacqueline. — Andrea falou, com a voz baixa, gélida.

— Ora, foi só uma verdade... — Jacqueline sorriu, satisfeita. — Crianças devem saber seu lugar.

Foi tudo o que Andrea precisou ouvir.

Com um único movimento seco, rápido, Andrea deu um soco direto no rosto da mulher. O estalo do impacto ecoou pelo hall luxuoso, seguido de um grito de dor. Jacqueline cambaleou para trás, levando a mão ao nariz, de onde escorria sangue.

Irv arregalou os olhos, sem saber se tentava acudir Jacqueline ou correr.

Nigel soltou um sonoro "Meu Deus!", e alguém da recepção gritou por segurança, mas Andrea não se moveu. Estava calma. Serena. Como Miranda quando decidia quem seria destruído na próxima edição da revista.

Aproximou-se de Jacqueline, que tremia de dor e choque, e disse, com uma frieza cortante:

— Você pode duvidar de muitas coisas na vida. Pode tentar puxar o tapete da Miranda, se quiser brincar de idiota. Mas nunca mais ouse se dirigir à minha filha. Nunca mais olhe para ela. Nunca mais pronuncie o nome dela. Porque da próxima vez, Jacqueline, não será só o seu nariz que vou quebrar.

O silêncio que se seguiu foi absoluto. O tipo de silêncio que nasce da autoridade. Da verdade. Da justiça.

Andrea olhou para Irv, que deu dois passos para trás, claramente constrangido.

— E você... — disse, virando-se para ele. — A única coisa mais patética do que suas tentativas de tirar Miranda do cargo... é sua parceria com lixo humano como ela.

Andrea virou as costas, pegou o buquê que havia deixado cair, ajeitou o cabelo e caminhou na direção dos elevadores. Entrou com Nigel ao lado, que ainda estava de queixo caído, mas com um brilho orgulhoso nos olhos.

— Sachs... — ele disse, ainda sem acreditar. — Eu sabia que você tinha fogo dentro de você, mas... isso foi nível Miranda. Eu tô arrepiado.

— Ninguém machuca minha filha. — respondeu, simplesmente.

Quando as portas do elevador se abriram no andar da Runway, Chloe correu para os braços da mãe, e Miranda apareceu logo em seguida, alarmada com a confusão. Andrea sorriu e entregou as flores.

— Eu só queria te trazer café e um pouco de amor... mas acho que acabei trazendo também a queda do império Follet.

Miranda olhou para ela, para Chloe, e depois para o sangue seco no punho da blusa de Andrea.

— O que aconteceu?

— Jacqueline. Disse algo imperdoável pra nossa filha.

Miranda não precisou de mais palavras. Apenas a abraçou forte, com Chloe entre elas.

E Andrea soube: elas eram, sem sombra de dúvida, uma família.

A TERCEIRA PRIESTLYHistórias para pegar e não largar. Descubra agora