Capítulo 52

746 82 5
                                        

O sol de outono atravessava as folhas douradas do Central Park, projetando sombras delicadas sobre o chão. Andrea, sentada em um banco de madeira com um leve sorriso no rosto, observava suas quatro Priestlys com o coração em paz. Miranda, elegante mesmo com os cabelos presos de forma prática e usando jeans escuros e camisa branca impecável, caminhava ao lado de Chloe, encorajando a pequena com palavras doces e seguras a dar suas primeiras pedaladas sem as rodinhas.

— Vai, minha pequena, você consegue... mamãe está aqui. — Miranda dizia, com a voz embargada de orgulho e emoção.

Caroline e Cassidy, mais à frente, riam e corriam ao redor, apostando corrida, mas sempre mantendo os olhos atentos na caçula. Andrea, ali parada, se sentia completa. Aquela era sua vida, e era perfeita.

Foi então que uma voz familiar soou atrás dela:

— Olha só quem eu encontro aqui... Andrea Sachs no meio do parque.

Andrea se virou com um sorriso largo, levantando-se rapidamente ao ver Christian Thompson se aproximando de moletom cinza, tênis e os cabelos desalinhados de maneira charmosa. Eles se abraçaram com carinho e naturalidade.

— Chris! Meu Deus, quanto tempo. — ela disse, rindo. — Que surpresa boa!

Lá de longe, Miranda observava a cena com olhos estreitos. A forma como Andrea se jogou nos braços dele. A intimidade. A naturalidade. As lembranças começaram a queimar feito álcool derramado. Tudo o que ela conseguia ver era o homem que, mesmo com boas intenções, havia estado presente quando Andrea foi embora... levando consigo a filha que Miranda nem sabia que existia. Seu maxilar trincou, e o corpo ficou rígido como aço.

— A mãe está com ciúmes — sussurrou Caroline para Cassidy, que reprimiu uma gargalhada. — Olha o jeito que ela está olhando.

— Aposto que vai chegar lá do nada e fazer aquela cara de "sou absolutamente indiferente", mas por dentro está pegando fogo — completou Cassidy, divertida.

Enquanto isso, Chloe, que já havia ganhado confiança na bicicleta, pedalou até onde Christian estava e, ao vê-lo, largou a bike e correu em direção ao homem.

— Tio Chris! — gritou, pulando em seus braços.

Ele a ergueu com facilidade e a girou no ar, provocando risos altos da menina.

— Minha pequena Coisa 3! Você está enorme! — disse ele, abraçando-a forte.

Andrea ria, com a mão sobre o peito, visivelmente emocionada com o reencontro. Foi nesse momento que Miranda se aproximou. Sem dizer uma palavra, passou o braço pela cintura da noiva com discrição, mas de forma firme e territorial. Andrea não precisou olhar para saber o que estava acontecendo. Ela sorriu por dentro, adorava quando Miranda fazia isso. Aquela Miranda controlada, sofisticada, que raramente demonstrava emoções, ficava completamente desarmada quando se tratava dela.

— Christian. — disse Miranda, com um leve aceno de cabeça.

— Miranda. — ele respondeu, respeitoso. — Bom vê-la.

Chloe se agarrou no pescoço de Christian, mas olhou para Miranda e sorriu.

— Mamãe, o tio Chris me prometeu um sorvete da última vez. A gente pode?

Miranda apenas acariciou os cabelos da filha e respondeu:

— Talvez depois do almoço, querida.

O clima ficou levemente tenso. Andrea tentou suavizar com um comentário:

— Chris estava correndo e nos viu por acaso. Coincidência adorável, né?

— Adorável. — respondeu Miranda, com uma expressão indecifrável.

Christian sentiu o peso da presença da editora, que, mesmo sem elevar a voz ou mover um músculo, impunha respeito com cada palavra. Ele sorriu, mas entendeu o recado. Estava invadindo um momento de família, e, mesmo sem más intenções, aquela mulher ao lado de Andrea não estava disposta a dividir nada dela.

— Bom, já atrapalhei demais. Foi ótimo ver vocês. Chloe, vê se não cresce tão rápido, hein? Quero aproveitar ainda um pouco a minha afilhada.

— Tio Chris, me leva pra andar de skate da próxima vez? — pediu a menina.

— Combinado, coisinha. — ele riu, beijando sua bochecha antes de colocá-la de volta no chão.

Andrea o abraçou mais uma vez, e ele se despediu das meninas. Antes de ir, lançou um último olhar para Miranda, que não disse nada, apenas manteve seu braço em torno de Andrea.

— Ele é só meu amigo, você sabe disso, né? — disse Andrea, depois de alguns minutos, caminhando de volta ao banco com Miranda.

— Claro que sei. — respondeu Miranda com uma calma que não convencia nem a si mesma. — Só não gosto da maneira como ele... olha pra você.

Andrea parou e a olhou com ternura.

— Ele me admira. Mas quem eu amo é você. Só você. E não há espaço pra mais ninguém aqui — disse, pousando a mão sobre o próprio peito. — Você é minha casa, Miranda Priestly.

Miranda sentiu seu coração derreter. A insegurança, por mais absurda que fosse, ainda a visitava vez ou outra, porque amava com tanta intensidade que qualquer sombra sobre aquela felicidade a fazia estremecer.

— Desculpe se fui... irracional — murmurou.

— Você não foi irracional. Só foi humana. E por mais que eu goste de quando você se arma toda pra me proteger, saiba que eu nunca vou me deixar levar por ninguém além de você. — Andrea disse, pousando um beijo suave nos lábios da editora.

As meninas voltaram correndo em direção a elas. Chloe, empolgada, pulava de um lado pro outro, feliz com o dia no parque. Caroline e Cassidy continuavam zombando da expressão de Miranda, o que fazia a própria começar a rir, contra sua vontade.

— Ok, vocês duas... já chega! — disse ela, entre um sorriso e outro.

— A mamãe com ciúmes foi a melhor parte do passeio! — disse Cassidy.

— Vou lembrar disso da próxima vez que me chamarem de dramática — provocou Caroline.

Andrea ria alto, puxando Miranda pela mão.

— Vamos, Miranda. Temos uma pizza pra pedir e um filme pra escolher com nossas quatro mini nós.

Miranda suspirou, ainda com o orgulho um pouco ferido, mas com o coração inundado de amor. Sim, Christian era do passado. O presente — e o futuro — estavam ali, com ela. Era aquela mulher de olhos doces, coração imenso, e sorriso irresistível que ocupava todos os espaços do seu mundo.

E não havia lugar mais seguro do que aquele.

A TERCEIRA PRIESTLYHistórias para pegar e não largar. Descubra agora