Capítulo 60 - O Fim de Jacqueline Foullet

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Miranda Priestly não era conhecida por perder o controle — ao menos, não em público. Suas emoções eram cuidadosamente embaladas em caixas invisíveis, empilhadas com precisão germânica e trancadas com cadeados forjados pela elegância. Mas depois do que Jacqueline Foullet dissera à sua filha, não havia mais contenção possível. Não havia mais diplomacia, nem misericórdia. A criança que ela jurara proteger com a própria vida havia sido ferida, e não por qualquer um, mas por uma velha rival que ousou mirar uma inocente por vingança mesquinha.

Era o fim da linha.

Na manhã seguinte, ainda antes de tomar seu café, Miranda fez a ligação que sabia que mudaria o rumo da Runway em Paris — e da própria Elias-Clarke.

— Massimo. — sua voz saiu firme, direta.

— Miranda. — a voz do magnata italiano soou calorosa, mas tensa. — Estava pensando em você. Recebi notícias de algo... desagradável?

— Desagradável é um eufemismo. Jacqueline Foullet abordou minha filha de cinco anos ontem no hall da Elias-Clarke. Disse a ela que não era minha filha de verdade. Olhou para ela como se fosse lixo. Chloe ficou devastada. Chorou, não quis comer. Você sabe o que isso significa pra mim.

Do outro lado da linha, o silêncio foi tão pesado que Miranda quase podia ouvir o sangue fervendo nas veias do italiano.

— Ela fez isso? — Massimo sibilou. — Com sua filha?

— Sim. E não me interessa se está no comando da Runway Paris. Ou se tem contratos pendentes. Eu quero aquela mulher fora. Imediatamente.

Massimo bufou com fúria.

— Considere feito. Dou-lhe minha palavra, Miranda. Ela está fora antes do almoço. E farei questão de que todos os patrocinadores saibam exatamente por quê.

— Obrigada. — disse Miranda, com um fio de emoção que raramente permitia transparecer.

— E Miranda?

— Sim?

— Jacqueline mexeu com a criança errada. E definitivamente com a mãe errada.

Às onze e trinta da manhã, o salão principal da Runway Nova York foi tomado por um clima de julgamento público. Miranda estava sentada à cabeceira da longa mesa de reuniões, elegante em um terno Dior cinza-grafite, o rosto uma máscara de contenção, mas os olhos... os olhos eram punhais.

À sua esquerda, Massimo Cortelone, imponente, com sua barba perfeitamente aparada e terno azul-marinho impecável, falava em italiano com um grupo de investidores franceses que exigiram estar presentes. À direita, dois representantes do conselho jurídico da Elias-Clarke e Emily, que já havia preparado um dossiê completo com as últimas atitudes de Jacqueline Foullet, incluindo depoimentos, imagens das câmeras de segurança e prints de mensagens e e-mails pouco éticos. Ao fundo da sala, Nigel observava em silêncio, mas com um brilho de expectativa mal disfarçado.

Foi então que Jacqueline entrou, como sempre fazia: como se fosse dona do lugar. Usava um conjunto Chanel claro, óculos escuros e o que sobrava de sua arrogância colada ao corpo como perfume barato. Ao seu lado, Irv Ravitz, o rato mor da corporação, suava.

— Miranda — disse Jacqueline, tirando os óculos lentamente. — Fiquei surpresa com esse convite. Imaginei que ainda estivesse envergonhada com o espetáculo da sua... família.

Miranda manteve o rosto imóvel. Massimo, porém, levantou-se com o ar de um imperador romano à beira de uma execução.

— Jacqueline Foullet, você está dispensada de todas as suas funções na Runway Paris. Imediatamente. Esta sala, este grupo de investidores, e esta diretoria, estão cientes do que você fez com a filha de Miranda Priestly. E condenam sua atitude de forma unânime. Você não representa mais a marca Runway.

Jacqueline engasgou.

— Você não pode me demitir assim! Eu construí a edição francesa!

— E agora está destruindo-a. — retrucou Massimo com frieza. — E mais: por exigência dos nossos parceiros, estamos rompendo qualquer vínculo contratual. Você não receberá indenização. A cláusula de conduta ética foi violada. Gravemente.

— Isso é um absurdo! — gritou ela. — Miranda está se vingando porque nunca conseguiu me engolir!

— Eu me vingaria sim — disse Miranda, erguendo-se. — Mas isso, Jacqueline... isso é justiça.

Jacqueline tentou rir, mas sua expressão era de pura tensão.

— E você, Irv? Vai ficar calado? Vai permitir que essa mulher destrua tudo?

Irv levantou-se, limpando a testa com um lenço amassado.

— Jacqueline, eu... eu tentei avisar que você estava indo longe demais. A verdade é que, bom, todos nós ficamos desconfortáveis com a situação. Você fez o que ninguém faria. E, bem, houve... conversas... sobre sua estabilidade na empresa antes mesmo disso...

Miranda ergueu uma sobrancelha.

— Conversas? Interessante. Irv, você se esqueceu de mencionar que essas "conversas" vinham de você. Você foi quem propôs o meu afastamento da Runway. Quem alimentou Jacqueline com falsas esperanças de sucessão. Quem buscava investidores para tomar meu lugar.

Irv abriu a boca, mas nenhum som saiu. Massimo apenas cruzou os braços.

— Irv Ravitz — disse ele com firmeza. — Você também está desligado da Elias-Clarke. A diretoria já foi notificada. Suas ações serão congeladas. Vamos investigar todo o seu envolvimento com os últimos contratos.

O rosto de Irv perdeu todo o sangue.

— Isso... Isso é um golpe!

— Não. — respondeu Miranda calmamente. — Isso é justiça. E, para sua sorte, Irv, ao contrário da Jacqueline, você não insultou uma criança. Senão, eu mesma teria rasgado seu contrato com as unhas.

Nesse momento, Jacqueline, tomada por uma fúria cega, gritou:

— SUA VADIA PRESUNÇOSA!

E avançou em direção a Miranda, erguendo a mão para estapeá-la. Mas Miranda, com a elegância que só alguém acostumada a desfilar entre leões possui, desviou no exato momento. Jacqueline perdeu o equilíbrio, tropeçou nos próprios saltos e caiu de cara no carpete branco e felpudo da sala de reuniões.

O som foi seco. E o silêncio que se seguiu, ainda mais.

Miranda apenas ajeitou a gola do terno.

— Lamento que tenha se rebaixado a esse ponto, Jacqueline. Mas agora, ao menos, sua saída será memorável.

Emily, quase sufocando de tanto segurar o riso, aproximou-se e deixou uma pasta sobre a mesa.

— Documentos de desligamento, madame Foullet. Sugiro que leia com atenção. E assine. Ou será arrastada até a porta pelos seguranças.

Jacqueline, com o rosto arranhado e a dignidade aos frangalhos, recolheu-se sem dizer palavra.

Irv, ainda tremendo, saiu logo atrás. Ninguém se moveu para impedi-los. Ninguém sentiu pena.

Miranda respirou fundo e então se virou para os investidores, com um leve sorriso.

— Agora, senhores, que tal discutirmos o futuro da Runway Paris com alguém que, de fato, entenda de moda... e de decência?

Massimo sorriu.

— Já era hora.

E ali, naquele salão banhado em vidro e poder, Miranda Priestly fechou um capítulo da história da revista com a força de uma mãe. Não apenas a editora implacável, mas a mulher que se recusava a deixar que a maldade passasse impune. Porque quem fere sua filha, fere a si mesma.

E com Miranda Priestly, ninguém fere impunemente.

A TERCEIRA PRIESTLYHistórias para pegar e não largar. Descubra agora