Capítulo 59

888 96 34
                                        

A pequena Chloe não soltava a mão de Andrea desde que deixaram o prédio da Elias-Clarke. O episódio com Jacqueline havia deixado marcas visíveis — seus olhinhos pareciam mais apagados, seu corpinho colado ao da mãe como se pedisse abrigo constante. Miranda, ao lado, tinha o rosto sério, os lábios crispados e os olhos flamejantes. Não dizia uma palavra desde que saíram, mas Andrea a conhecia bem o suficiente para saber: havia um furacão se formando dentro dela. Um furacão com nome e sobrenome: Jacqueline Foullet.

No carro, Chloe sentou-se no colo de Andrea, que a envolveu com os braços. A menina encostou a cabeça no ombro da mãe, em silêncio. Miranda, no banco ao lado, observava as duas com uma expressão mista de dor, fúria e adoração.

— Ela não me ama, mamãe Miranda? — Chloe perguntou baixinho, com um fio de voz que cortou o ar como lâmina. — A moça disse que eu não sou sua filha de verdade.

Andrea fechou os olhos por um segundo, tentando conter o aperto no peito. Miranda, por sua vez, perdeu o controle. A dor que viu no rosto da filha rasgou o que ainda restava de contenção.

— Chloe... — a voz de Miranda falhou. Ela se virou de vez para a menina, segurando sua mãozinha. — Ouça com muita atenção. Aquela mulher é má. Muito má. Ela não entende o que é amor. Não sabe o que é família. E está completamente errada. Você é minha filha. Você é minha Chloe. Desde o momento em que te vi pela primeira vez, quando você caiu do cavalinho de brinquedo, quando estava passeando com a Summer e o tio Tom, eu soube. Não importa o que digam. Eu amo você. Mais do que qualquer coisa no mundo, assim como amo suas irmãs e o bebê que vai nascer.

Chloe olhou para ela, ainda desconfiada, ainda triste, mas aos poucos um fio de esperança apareceu em seus olhos.

— Mesmo eu não nascendo da sua barriga?

— A barriga não tem nada a ver com isso, meu amor. — Andrea disse, apertando-a com mais força. — Você nasceu do nosso amor. Isso é muito mais forte, assim como o bebê que está na barriga da mamãe Andy. Ele também não está na minha barriga, mas ainda assim é meu filho ou filha!

Miranda acariciou o rostinho da filha, agora mais calmo.

— Eu prometo que nunca mais ninguém vai falar assim com você. E se alguém tentar, mamãe Miranda vai virar um dragão de verdade. Um dragão com salto alto e editorial de capa.

Chloe riu baixinho, fungando.

— Um dragão de vestido?

— E de batom vermelho. — completou Andrea.

— E além de mim, a Mamãe Andrea também vai quebrar o nariz de quem ousar se aproximar de qualquer uma das filhas dela. — Piscando para Andrea.

O carro estacionou diante de um parque florido, longe da agitação da cidade. Miranda não queria voltar para casa. Precisava que a filha respirasse ar puro, visse cores, sentisse alegria. Precisava vê-la sorrir de verdade. E Andrea soube, no instante em que Miranda escolheu aquele destino, que algo havia mudado. Miranda estava diferente. Ainda mais mãe. Ainda mais leoa.

Passaram a tarde caminhando pelos jardins, brincando com bolhas de sabão que compraram de um vendedor ambulante, fazendo piquenique improvisado com croissants e suco de maçã. Chloe, aos poucos, voltava a ser ela mesma. Corria entre as árvores, apontava flores, ria quando Andrea fazia vozes engraçadas.

Miranda a observava com ternura, mas em silêncio. A cada risada da filha, sentia um alívio profundo, mas também uma raiva crescente por terem tentado feri-la.

— Ela vai pagar por isso. — disse, num tom contido, mas cortante, sentando-se ao lado de Andrea em um banco de madeira. — Jacqueline. Ela foi longe demais.

Andrea segurou sua mão, entrelaçando os dedos.

— Eu sei que vai. Mas hoje... só hoje, fica aqui com a gente. Só hoje, deixa a vingança pra depois. Acho que já dei um jeito bem especial naquela ratazana, por hoje. Ela vai ter o que merece. Mas agora, ela não importa. Chloe importa.

Miranda assentiu devagar. Havia muito mais que ódio ali. Havia frustração. Dor, mas também havia orgulho em ter a mulher que tinha, tão implacável quanto ela em defender seus filhotes

— Eu devia ter impedido isso antes. Eu devia ter previsto.

— Amor, você não pode controlar o mundo inteiro. Só o nosso. E aqui, no nosso mundo, Chloe é amada. E você é uma mãe maravilhosa. Ela sabe disso. Eu sei disso. E Jacqueline... Jacqueline cavou a própria cova.

Miranda olhou para Andrea com um misto de gratidão e intensidade.

— Eu vou destruí-la, Andrea. Mas não por vingança. Por justiça. Por Chloe.

Andrea sorriu.

— Sei que vai. E, se quiser, eu te ajudo a escrever o obituário.

As duas riram baixinho, e por alguns minutos ficaram ali, mãos entrelaçadas, observando Chloe correr atrás de uma borboleta amarela.

Mais tarde, já em casa, Andrea preparou um banho quente com espuma e cheirinho de lavanda para a filha. Miranda buscou o pijama preferido dela — o de unicórnios — e ficou sentada ao lado da banheira, contando histórias inventadas, com vozes engraçadas e sorrisos acolhedores. Chloe, agora mais leve, ria novamente com gosto.

Na hora de dormir, Andrea deitou com a menina, que não queria soltar nenhuma das mães. Miranda deitou-se ao lado, e as duas a abraçaram juntas. Chloe segurava as mãos delas, uma em cada lado, como se precisasse se certificar de que estavam ali. De que não iria mais escutar palavras cruéis de gente que não entende o que é família.

— Boa noite, minhas mamães. — disse ela, com os olhos fechando devagar.

— Boa noite, meu amor. — disseram as duas em uníssono.

Quando Chloe adormeceu, Miranda se levantou devagar, ainda com os olhos úmidos. Andrea a seguiu até o quarto delas, onde a editora sentou-se à beira da cama, tirando os sapatos.

— Nunca mais quero ver aquele olhar nos olhos dela, Andrea. Nunca mais.

— E não vai ver. — disse Andrea, ajoelhando-se diante dela, tocando seu rosto com carinho. — Porque ela tem você, nossas filhas e o bebê tem a gente. E isso é mais do que qualquer criança poderia pedir.

Miranda fechou os olhos por um instante, absorvendo aquelas palavras.

— Eu pensei em ligar para Massimo Cortelone. Ele não gosta da Jacqueline. Sempre achou ela uma péssima escolha para o editorial francês. Se eu contar o que houve com Chloe, ele não hesita em cortar a cabeça dela.

— Então conte. Mas amanhã. Hoje, você já fez o mais importante. Você cuidou da nossa filha. E de mim também.

Miranda a puxou para um abraço. Forte. Silencioso. E pela primeira vez desde o incidente, ela chorou — não de raiva, mas de alívio.

— Obrigada por estar ao meu lado, Andrea.

— Sempre, Miranda. Sempre.

Naquela noite, dormiram com as mãos entrelaçadas, como as de Chloe. E o mundo, lá fora, que aguardasse. Porque dentro daquela casa havia amor, coragem e três mulheres dispostas a proteger umas às outras com unhas, dentes e todo o poder que carregavam no peito.

A TERCEIRA PRIESTLYHistórias para pegar e não largar. Descubra agora