33| marcha nupcial

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— Ab, por que você acha que gosta tanto do mar?

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— Ab, por que você acha que gosta tanto do mar?

Vitória estava sentada no corrimão da varanda estreita da torre de salva-vidas, com um pé pendurado no ar e o outro apoiado na madeira gasta. O vento bagunçava seus cabelos claros, jogando algumas mechas contra o rosto, mas ela não se importava. Seus olhos estavam fixos no horizonte, onde o sol tocava a linha do mar, se despedindo do mundo só por algumas horas.

Eu me sentava no chão, encostada na parede da cabine, com os joelhos encolhidos contra o peito e os braços cruzados, como se aquele gesto infantil fosse capaz de proteger meu coração.

Fiquei em silêncio por um tempo, ouvindo as ondas e o som distante de risadas vindas da praia.

— Porque o mar não exige nada de mim. — respondi, por fim.

O céu desabava em tons de tangerina e rosa. A luz pintava o rosto de Vitória com um brilho suave quando ela se virou para mim.

— Acho que é porque ele é igual a você. — disse ela, com um sorriso — Assusta quem não sabe nadar.

Inspirei o cheiro de maresia que subia da areia quente. Fiz um gesto com a cabeça, chamando ela para sentar ao meu lado. Ela veio sem dizer nada e eu apoiei a cabeça no seu ombro.

— Ele também é como você. — murmurei — Porque me escuta, mesmo quando eu não digo nada. Porque quando eu olho para o mar, tudo parece fazer sentido, mesmo que só por alguns segundos.

Vics riu e o som sacudiu seus ombros, fazendo minha cabeça subir e descer junto. Ela se virou de leve, estreitando os olhos para investigar o meu rosto.

— Eu não sou o mar. Sou o sol. — rebateu, com uma expressão convencida e exagerada — Eu te deixo quente por dentro e te obrigo a sair das sombras. Faço você suar suas verdades, mesmo quando tenta esconder elas de mim.

— Que poético. — zombei, rolando os olhos, mas ainda sorrindo.

— É sério. — ela deu um empurrão no meu braço —  Você é o mar porque sente demais, se move com as marés. Às vezes calma, às vezes a porra de uma tempestade. Mas eu? Eu sou a que aparece todo dia para te lembrar que existe luz. Que ainda tem calor.

— Isso foi... lindo. E é verdade. — admiti, com a voz mais baixa — Mas por que eu tenho a sensação de que você quer me dizer alguma coisa com isso?

Ela deu de ombros, desviando o olhar de volta para o horizonte, onde a última linha de luz desaparecia devagar.

— Você não vai me contar por que o Zayn sumiu há uma semana?

Baixei a cabeça. Queria, de verdade, que Vitória não me conhecesse tão bem. Queria poder esconder as coisas dela, mentir sem que ela sacasse de cara. Mas, no mundo inteiro, Vics era a única que sabia ler a verdade estampada no meu rosto.

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