O corredor do Palácio de Kensington estava cheio de vozes e passos apressados naquela manhã. As janelas abertas deixavam a brisa fresca de maio entrar, dançando com as cortinas enquanto os criados arrumavam os últimos detalhes para a saída da comitiva real.
Christine ajustava os brincos diante do espelho da sala lateral, o mesmo onde costumava brincar de desfile com Charlotte quando a menina era menor. Estava elegante, como sempre — a calça social preta e a blusa de seda clara contrastavam com a expressão serena e madura que ganhara com os anos. Mas o sorriso ainda era o mesmo: torto, leve... e pronto para provocar alguém.
— Você vai mesmo embora antes de eu conseguir terminar minha missão secreta? — a voz de Louis veio atrás dela, dramática.
Christine virou-se de imediato, abrindo os braços.
— Missão secreta? Me conta, espião.
— Ia te encher de chocolate escondido no carro. Mas você anda muito adulta ultimamente. Até parece que tem 18 anos. — Louis disse com um olhar fingido de crítica.
— Louis... — ela se abaixou até ficar na altura dele e tocou o nariz do irmão com o dedo. — Você sempre vai ser o meu cúmplice favorito, mesmo quando eu estiver velhinha. Nunca subestime uma mulher com estoque de chocolate no guarda-roupa.
Ele sorriu largo, os olhos brilhando.
Logo Charlotte entrou, os saltos baixos batendo no chão como passos decididos. Usava um vestido florido e o cabelo preso em um coque mal-feito — ela mesma tinha feito questão de se arrumar sozinha para o dia especial da irmã.
— Promete que vai usar o colar que eu te dei? — ela perguntou, estendendo um pequeno relicário dourado nas mãos.
Christine pareceu tocada. Pegou o colar com carinho, colocou imediatamente no pescoço e sussurrou:
— Você sabe que esse é meu talismã agora, né?
— É só pra te lembrar que você sempre foi minha irmã de verdade. E eu sempre soube disso, mesmo antes de te chamar de irmã.
Charlotte abraçou Christine com força. Aquele tipo de abraço que ficava preso nos ossos da memória. Christine fechou os olhos, e seu semblante ficou estranho por um segundo — como se o tempo parasse. Mas logo voltou a sorrir.
Então foi George quem entrou. Alto, mais reservado, mas com os olhos fixos nela como quem mede o tempo que ainda tem.
— Você se formou e agora vai salvar o mundo com seus livros antigos?
— Talvez. — Christine respondeu, indo até ele. — Ou talvez eu vá apenas descobrir verdades esquecidas, como o nome da professora que te deu aquele zero em História Medieval.
George revirou os olhos, rindo.
— Tenta a Srta. Campbell. Aquela mulher tinha um pacto com o demônio.
Christine gargalhou. Depois puxou os três para perto e os abraçou ao mesmo tempo, sem dizer nada por alguns segundos.
— Vocês são a parte de mim que me lembra quem eu sou. Não deixem que o mundo mude isso em vocês, ok?
Charlotte assentiu, os olhos marejados.
Louis segurou a mão da irmã com força.
George apenas a olhou com um sorriso de canto, discreto — o tipo de sorriso que carregava respeito.
William surgiu na porta logo depois, já com Kate ao seu lado e a pequena menina que chegará para trazer alegria a família.
— Hora de irmos.
Christine se levantou, inspirou fundo e piscou para os irmãos.
— Fiquem longe da despensa de chocolate, por favor. Ou pelo menos deixem um pouco pra mim quando eu voltar.
E então, ela foi.
Com os olhos brilhando, com o relicário batendo no peito, com o coração cheio — e sem saber que aquele adeus, mesmo leve, ficaria para sempre no ar como um sussurro entre as paredes do palácio.
O céu de Londres parecia pintado à mão naquela manhã. Um azul real e profundo, quase sem nuvens — como se até ele soubesse que aquele dia merecia grandeza. O Palácio de Kensington estava em movimento desde cedo, com preparativos apressados e trajes sendo passados com cuidado por mãos experientes.
A comitiva real saiu pontualmente, em três carros pretos de janelas polidas. No principal, estavam William, Kate e Christine. Ela usava, depois de muito se discutir sobre vestido ou calça — sabendo ela que sua roupa formal (calça de alfaiataria e blazer) já estava sendo usada — um vestido creme com detalhes azul-marinho, sóbrio e clássico. Nos ombros, um casaco leve que ela relutou em vestir — "parece que tenho 40 anos," resmungara, fazendo Kate rir.
Mas a verdade é que ela estava linda. Com o cabelo meio preso, os olhos atentos, e aquele sorriso discreto que a acompanhava desde menina. A mulher que ela havia se tornado era, ao mesmo tempo, uma continuação delicada daquela adolescente que chegou ao palácio cheia de dúvidas, dor e medo... e uma nova história escrita com coragem.
Kate, ao seu lado, vestia azul royal. O chapéu combinava com o vestido ajustado, elegante e cheio de presença. Seus cabelos estavam presos num coque clássico. Mas nada chamava mais atenção do que o brilho em seus olhos ao olhar para a filha. Ela segurava a mão de Christine com carinho, sem dizer muito. Aquele tipo de silêncio que só mães e filhas compartilham.
William, do outro lado, olhava pela janela. A tensão era quase imperceptível, mas Christine percebeu.
Ele disfarçava com pequenos gestos: ajeitando a manga da camisa, batendo os dedos no joelho.
— Relaxa, paizão. Eu prometo não tropeçar ao sair do carro. Dessa vez. — Christine provocou, com um sorriso sarcástico.
William riu com a cabeça baixa, como se a tivesse lido por dentro.
— Você herdou o timing da sua mãe. Infelizmente.
Kate sorriu, tocando levemente o braço dele.
— Vai dar tudo certo. É um evento pequeno. Algumas famílias de veteranos, discursos, bandeiras, abraços... e sorrisos reais.
Christine revirou os olhos.
— Eu sou a rainha dos sorrisos falsos. Aprendi com os melhores.
O carro então reduziu a velocidade, virando a esquina onde multidões já se acumulavam com bandeirinhas, celulares em punho e olhos curiosos. O burburinho crescia conforme o carro se aproximava. As câmeras se posicionavam. Gritos animados ecoavam com os nomes da princesa e do futuro rei.
— Vamos dar nosso melhor, minha historiadora. — Kate sussurrou à Christine, ajustando uma mecha solta atrás da orelha dela.
— Sempre dou. E se eu cair ao descer do carro, você finge que não me conhece.
William soltou um leve suspiro entre riso e nervosismo.
O carro parou.
O segurança abriu a porta.
Flashs. Aplausos. Bandeiras agitadas.
Kate desceu com graça. Christine veio logo depois, acenando com leveza, com aquele charme despretensioso que sempre teve. William foi o último a sair.
A multidão os acolheu como sempre — com calor, com olhos encantados. Mas havia algo no ar que nem mesmo o céu azul podia esconder.
Um sentimento indefinido, como uma nota fora do tom numa sinfonia perfeita.
Mas ninguém percebeu.
Apenas o tempo...
Que, lá no alto, começava a marcar um novo compasso.
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SMILE - Vol. 2
Random*Vol. 2 de A Vendedora de Livros* O sorriso nos lábios da Princesa de Gales, Kate Middleton, exaltava a liberdade de ser uma mulher comum acima da Coroa Britânica, e só existiu graças a uma adolescente de 15 anos, que mudou sua vida em 360 graus. So...
