Capítulo 133

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A noite avançava com a mansidão típica de dias felizes. As risadas ecoavam de forma mais suave agora, enquanto os últimos convidados da festa já haviam ido embora. A luz baixa da sala principal dançava sobre as paredes como se também estivesse cansada, pronta para dormir.

Kate caminhava descalça até a varanda do andar superior, enrolada em um xale claro. Sentia o vento frio acariciar seu rosto, e por um instante, fechou os olhos.

— Você sempre gostou de se esconder aqui.

A voz de Christine soou atrás dela, tranquila, como se não quisesse perturbar a noite. Vestia um moletom largo e o cabelo estava preso de qualquer jeito, como de costume quando estava em casa.

Kate sorriu sem abrir os olhos.

— Não me escondo. Eu... respiro.

Christine encostou ao parapeito ao lado dela, olhando o céu, depois a mãe.

— Respirar... é algo que aprendi a fazer quando você entrou na minha vida.

Kate virou o rosto para a filha, surpresa pela delicadeza da frase. Mas Christine continuava olhando as estrelas, serena.

— Sabe, eu sempre achei que minha vida tinha começado tarde demais. Como se todo mundo já tivesse um caminho, e eu só tivesse... uma bagunça.

— Você era uma menina de 15 anos tentando ser forte por si mesma. E conseguiu.

Christine riu baixo, o tipo de riso que escapa de lembranças antigas.

— É, mas só consegui porque você segurou a porta aberta. Você não entrou invadindo, Kate. Você ficou ali... esperando que eu deixasse você entrar.

Um silêncio doce caiu entre as duas. Aquelas palavras não estavam ensaiadas. Saíram do coração de Christine como pétalas que o vento leva — bonitas, frágeis, involuntárias.

— Se um dia eu tiver uma filha... — ela continuou, a voz agora mais suave — ...quero ser como você. O tipo de mãe que transforma paredes em jardins. Que não ensina a amar... só ama. E por isso, a gente aprende.

Kate sentiu os olhos marejarem.

— Você já é tudo o que eu gostaria de ser, Chris.

Christine virou-se para ela, abraçando-a de lado, como fazia quando era mais nova, quando tinha medo de trovões ou de suas próprias dúvidas.

— Você vai prometer uma coisa?

— O que quiser.

— Promete que, aconteça o que acontecer, vai continuar escrevendo? Seja livros, diários, cartas... qualquer coisa. Porque o mundo precisa da sua voz.

Kate não entendeu de imediato por que aquelas palavras a afetaram tanto. Mas assentiu, segurando Christine com mais força.

— Prometo.

E ali ficaram. Duas mulheres, mãe e filha, debaixo de um céu que parecia quieto demais.
Como se até as estrelas estivessem prestando atenção.

Na despedida que nenhuma das duas sabia que era uma despedida.
Na promessa que Kate ainda não sabia que teria que cumprir, mesmo com o coração em pedaços.

A casa ainda cheirava a flores do dia anterior. Era cedo, o tipo de manhã preguiçosa em que até os pássaros pareciam acordar devagar. A cozinha estava iluminada pelo sol que entrava pelas grandes janelas, aquecendo o chão de mármore e o riso de quem a ocupava.

— Você tem noção do que esse chocolate faz comigo?! — Christine esbravejou, entre um gole de chá e uma careta de dor, segurando a barriga.

Kate, já arrumada com um vestido azul royal que moldava seu corpo com elegância clássica, virou-se devagar da bancada, com uma sobrancelha arqueada.

SMILE - Vol. 2Onde histórias criam vida. Descubra agora