Epílogo

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Há 4 anos atrás

Era inverno em Londres. A primeira neve do ano caía delicadamente sobre os telhados de Kensington, tingindo tudo de branco e silêncio.

Kate tinha acabado de fazer chá quando a encontrou encolhida no sofá da biblioteca, coberta por um cobertor felpudo, o nariz vermelho de frio, e um livro gigantesco sobre dinastias europeias no colo. Christine tinha 15 — quase 16. Já era sagaz, irônica, apaixonada por histórias... e com uma aversão declarada a bebidas quentes.

— Você realmente vai fingir que chá de menta é veneno outra vez? — perguntou Kate, estendendo a caneca.

Christine a olhou por cima da borda do livro, semicerrando os olhos.

— Veneno elegante. De rainha. Tô aceitando chá de chocolate com chantilly e marshmallows em forma de unicórnio, se quiser subir seu nível.

Kate riu, sentando-se ao lado dela.

— Você está aprendendo a manipular melhor do que qualquer nobre francês. Estou preocupada.

Christine soltou um sorrisinho debochado, mas deitou a cabeça no ombro da mãe adotiva.

— Pior que eu acho que fui mesmo nobre numa vida passada. E fui expulsa da França por zombar de algum duque.

— E agora voltou na forma de uma adolescente sarcástica que odeia chá e ama livros. Incrível. Creio que Catherine lhe ensinou muito bem a como ver a vida.

Silêncio. Um silêncio confortável.

Lá fora, a neve cobria os jardins. Lá dentro, o tempo parecia desacelerar só para elas.

— Sabe, eu ainda acho que você é uma espiã, Princesa Rebelde. — Christine murmurou de repente. — Bonita demais. Calma demais. E vive se enfiando em lugares importantes. Consegue coisas que ninguém consegue, e ainda por cima tem um corpo impecável. Pratica esportes. É legal. — a analisa com cuidado — Você, por um acaso, se infiltrou nessa família para roubar informações para os russos?

Kate riu.

— E você é um desastre teórico com coração de ouro. Um deles vai te capturar um dia, sabia?

Christine ergueu uma sobrancelha.

— Tipo... capturar o coração?

Kate sorriu. Tocou levemente os cabelos castanhos da menina.

— É. Tipo isso.

Christine não respondeu. Só fechou o livro e abraçou Kate pela cintura.

— Se um dia eu sumir, ou for embora... não esquece disso aqui, tá?

Kate franziu a testa, surpresa.

— Disso o quê?

Christine ergueu o olhar.

— De que, mesmo sem querer, você virou minha melhor parte.

Kate engoliu em seco. E não respondeu. Só a abraçou mais forte, sentindo, por um instante, que aquele momento tinha peso. Como se o tempo tivesse deixado um bilhete secreto bem ali.

Elas ficaram assim por longos minutos. Mãe e filha. Historiadora e história viva.

Lá fora, a neve continuava a cair.

Lá dentro, um amor que nem o tempo poderia apagar.

SMILE - Vol. 2Onde histórias criam vida. Descubra agora