O céu de Londres parecia chorar com eles.
Cinza, pesado, silencioso. Como se o mundo tivesse parado por um instante em respeito ao que fora perdido. Uma multidão vestida de preto ocupava os jardins do Palácio de Kensington, onde a cerimônia acontecia em tom íntimo, mas solene.
Dentre todos os rostos marcados pela dor, havia um que se sobressaía em silêncio: o de Kate.
Vestia um sobretudo de lã preta, abotoado até o pescoço, e um véu delicado sobre os olhos. Ainda assim, nenhuma sombra conseguiria esconder a devastação no fundo do olhar. Era o tipo de luto que não se descreve — que não se vê em lágrimas, mas em pausas, em gestos contidos, em tudo que ela não disse.
Christine repousava num caixão branco, adornado com flores do campo, como ela teria pedido. Dentro, um broche em forma de livro, preso à gola de seu vestido azul-marinho. Em suas mãos, um exemplar antigo de "Os Três Mosqueteiros" — seu favorito — que Kate colocara ali na madrugada anterior.
William estava ao lado da esposa. Segurava sua mão com firmeza, mas seus olhos estavam marejados. Mesmo ele, acostumado à formalidade de tantos eventos públicos, mal conseguia se manter de pé. George, Charlotte e Louis estavam próximos, sem compreender completamente a extensão da ausência, mas sentindo que algo essencial havia partido.
Quando o silêncio finalmente se rompeu, foi Kate quem falou. Sua voz falhou no início, mas encontrou forças onde ninguém sabia que ainda havia.
— Christine não era só minha filha... Ela era minha amiga. Minha confidente. A razão de tantas risadas, tantas noites viradas com chocolate escondido, tantos debates sobre história e sobre como eu 'precisava parar de parecer perfeita demais'...
Algumas pessoas sorriram, mesmo chorando.
— Ela me ensinou mais do que eu jamais ensinei a ela. Me ensinou a rir quando doía. A amar quando era difícil. A me perdoar, mesmo quando eu não achava merecer. — Ela respirou fundo — E, no fim... ela me salvou. De novo.
O vento soprou forte nesse momento. Como se o universo tivesse sentido.
Kate segurou o medalhão em seu pescoço — o mesmo que Christine tinha dado em seu último aniversário — e fechou os olhos por um instante.
Depois se aproximou do caixão, colocou sobre ele uma flor de cerejeira seca, guardada desde o primeiro passeio das duas ao sul da França, e murmurou, tão baixinho que só o vento ouviu:
— Minha melhor parte, lembra? Vai com calma. Eu te alcanço depois.
Ao longe, os sinos da Abadia de Westminster começaram a tocar.
Era o fim de um capítulo.
Mas, como toda grande história, o amor que escreveram juntas jamais se apagaria.
O quarto estava em silêncio.
Não o silêncio confortável de quando todos dormem.
Mas aquele silêncio pesado... de quando alguém que amamos já não está mais ali.
Kate estava sentada na beira da cama de Christine. O quarto ainda era o mesmo — como se esperasse por ela. Os livros enfileirados, a câmera pendurada atrás da porta, uma blusa dobrada com cuidado na poltrona ao lado.
No colo de Kate, repousava o livro.
A capa trazia uma foto tirada por George num fim de tarde qualquer — ela rindo, desprevenida, com a câmera da Christine na mão.
O título, simples e comovente: "Apenas minha nova mãe, Kate".
As mãos dela tremiam ao abrir a primeira página.
Ali, uma dedicatória:
"Para quem me ensinou que amor não se mede por sangue, mas por presença.
Obrigada por não me salvar — mas por me adotar.
Com todo meu amor,
Christine."
Kate levou a mão aos lábios, tentando conter o soluço que escapava.
Passou os dedos sobre o nome da filha, como quem tentou, num gesto quase infantil, senti-la viva mais uma vez.
Virou a página. Havia fotos.
Fotos das duas rindo juntas na cozinha.
Fotos de um dia de chuva em que se molharam de propósito.
E textos... trechos em que Christine descrevia como Kate a ensinara a se sentir em casa mesmo no meio da monarquia.
Como, certa vez, ela lhe dissera: "Você não precisa parecer comigo. Só precisa ser você."
— E você foi... mais do que eu um dia mereci — murmurou Kate, com os olhos embaçados.
O vento soprou pela janela entreaberta, fazendo a cortina dançar devagar.
Kate apertou o livro contra o peito.
— Você ainda está aqui. — sussurrou.
— Na nossa história. No que você escreveu. E, meu Deus... no que você me deixou.
Ela deitou na cama da filha, abraçada ao livro. E pela primeira vez em dias, fechou os olhos com uma ponta de paz.
Porque Christine...
Christine havia deixado palavras.
E palavras, como o amor verdadeiro, nunca morrem.
VOCÊ ESTÁ LENDO
SMILE - Vol. 2
Random*Vol. 2 de A Vendedora de Livros* O sorriso nos lábios da Princesa de Gales, Kate Middleton, exaltava a liberdade de ser uma mulher comum acima da Coroa Britânica, e só existiu graças a uma adolescente de 15 anos, que mudou sua vida em 360 graus. So...
