PARTE I - A PERDA DE UM AMIGO [ATUALIZADO]

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""_No chão do banheiro, Caio estava estirado no chão, morto. Os pulsos estavam cortados, me pareciam cortes profundos, porque dos talhos ainda vertiam sangue. Eu não sabia o que poderia fazer, não havia ninguém a quem eu poderia pedir por ajuda. Ao lado dele, comprimidos estavam espalhados e uma faca afiada suja de sangue. O mais assustador era ter presenciado aqueles olhos sem brilho e vidrados na porta, e naquele momento em que eu entrara, eles estavam me encarando.
_Tudo poderia ter sido mais simples se eu não tivesse de relance reparado no que havia na banheira, seus pais, ambos mortos e coberto de sangue, havia marcas de perfurações de faca por todos os corpos.
_Um grito saíra da minha garganta e lágrimas explodiram de meus olhos. Então algo me derrubou no chão. Todo pavor que estava em meu ser fizera meu corpo vibrar, sugando todas as forças que me restara.
_Me arrastara pelo chão e chutara a porta, trancando todo aquele terror dentro daquele banheiro.
_Mais uma vez eu entrara no quarto de caio, com o corpo tremendo e me permitir sentar-me na cama e chorar mais e mais... até porque eu não tive um pingo de coragem de sair daquela casa e enfrentar o terror que havia fora de casa.""

     Naquele dia, eu não sabia e hoje eu ainda não sei, se eu chorara por um amigo que perdera ou pela sensação de morte que me envolvera e que eu ainda sinto presente em meu encalço todos os dias.
     Ainda lembro quando conversávamos na escola, eu sabia sobre os problemas pessoais dele, eu sabia do sofrimento que ele carregava, e eu nunca tive a capacidade de ajudar, ou talvez a minha companhia e meus conselhos não tivessem sido o suficiente para amenizar o que ele sentia. Eramos amigos e tudo isso me faz parecer que eu nunca dei real importância para nossa amizade. Eu não fui suficiente. Eu deveria ter percebido isso antes. Eu deveria ter sido mais, mais amigo, companheiro, compreensivo. Se eu tivesse sido, talvez ele ainda estivesse vivo. E me corrói saber que eu nunca saberei a resposta.
     Eu ainda me sinto culpado. Mas hoje eu preciso ignorar esse sentimento ao máximo que consigo e me manter vivo. Eu sei que é egoísmo, mas eu preciso sobreviver... Preciso sobreviver por mim e por ele. Preciso.

*

     Já está amanhecendo e eu preciso de várias coisas. Ainda tenho algum tempo extra para me aventurar pelo shopping e pegar o que preciso. Com certeza tem algumas farmácias aqui dentro, porque eu imploro por algo que faça a dor no meu braço desaparecer. Tudo graças aquela criatura que me segurara. Acho que alguns remédios seriam bons também.
     Bem, como um bom sortudo que sou, o shopping não está vazio como eu achara... Mas é grande o suficiente para não encontrar nenhum problema. Acho que posso ver a minha sorte nessa situação.
     Shopping grande e encontro apenas uma farmácia. Uma. Só uma. Não tenho escolha e não ouço nada vindo de lá de dentro. Ótimo.
     Não conheço nada sobre remédios então apenas jogo dentro da mochila os que eu reconheci pelo nome. Tudo está uma zona. Tudo jogado no chão, deve ser por isso que eu não sinto o cheiro de gente morta aqui dentro. Só peço que eles não se levantem.
     Algo se prendeu ao meu tornozelo e minha cabeça grita, porque eu sei muito bem o que é, mas eu sussurro pedindo para que não fosse.
     Eu só quero sair daqui, mas estou novamente duvidando das forças que essas coisas têm.
     Tenho que reconhecer que eu possuo uma força que nem eu conheço. Não sei se era porque o pulso da criatura estava estraçalhado por mordidas, pelo pouco que eu consegui olhar, ou se foi só meu pico de adrenalina. Mas consegui puxar minha perna e correr de lá, derrubando tudo pelo meu caminho.
     Estou a salvo em uma loja que estava com a porta aberta e respiro fundo, porque a mão da criatura ainda está presa no meu tornozelo. Com um pedaço de madeira consigo soltar.
     Sinceramente já estou cansado de fugir, na maioria das vezes sei que não chegarei a lugar nenhum fugindo. Sinto que não chegarei longe e estou mais exausto do que o normal. Minha mente, meu corpo estão cansados.
     Toda essa exaustão causada pelo terror recente me faz lembrar da frase que minha mente sussurrou ao ouvir Julie urrando: "Se pulsa, ainda está vivo. Se ainda está vivo, deve morrer!". Eu não sei o porquê me lembrar disso, mas no momento é a única coisa que ressoa em minha cabeça.

*

     Estou de volta nas lojas de colchões. Arrumei uma mochila nova, tenho praticamente quase todas as coisas que precisava. Irei descansar por mais algumas horas antes partir. Arranjei um caderno novo e canetas para continuar escrevendo. Preciso terminar de contar o que aconteceu na casa do Caio.

""_Eram 6h da manhã, e eu precisava sair dali. Mas como? Eu pensava em como fazer. Pular a janela não era uma opção, mas me dava uma boa visão do condomínio até a saída. E adivinhem, para a minha enorme sorte, só havia 7 criaturas na frente do prédio. Só 7. Vai ser moleza, eu pensara.
_Pela primeira vez que me lembre, eu não sentira um pingo de humanidade em meu ser ao pensar nas coisas que havia pensado, e naquele dia que percebi, o medo nos transforma em seres que nunca imaginaríamos ser.""

Sangue MortoOnde histórias criam vida. Descubra agora