Felipe reage

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     – Como você está?
     Eu escutei Carla perguntar.
     – Estou bem. – respondeu Felipe. – Ficaremos bem.
     – Estou enjoado. – respondi. – Não quero ficar enjoado. Não é legal.
     Não mesmo.
     Beatriz esfregou as minhas costas e riu. Queria ter entendido o porquê da risada, mas não perguntei.
     – Não sei como eu estou. – respondeu Francisco. – Acho que não estou muito bem.
     Ele tentou rir e aquilo lhe causou dor. Pude ouvir a dor dele na falha. Mas eu havia esquecido completamente dele. 
     Felipe bufou.
    Soou até engraçado. Como consigo achar graça em uma hora dessas. Francisco logo morrerá e nos matará. Era melhor jogá-lo nessas águas.
     Faltava quanto para chegarmos na ilha?  Era só o que eu queria saber. Mas tendo só Felipe remando não seria rápido. Eu deveria ajudá-lo. Mas quando tentei eu quase vomitei em cima dele. 
     – Eu realmente não estou bem.
     Disse Francisco.
     – O que você tem? – perguntou Beatriz. – Aguente só mais um pouco. Estamos quase perto da ilha...
     Ele está morrendo.
     – Ele está morrendo.
     Consegui dizer antes de vomitar.
     Fiquei aliviado e o enjoo diminuiu, o que é bom. Só não posso dizer o mesmo sobre o gosto ruim na boca.
     – O que faremos agora com ele? – perguntou Carla. Ela tentou se levantar e quase caiu para o lado de fora. – Precisamos fazer algo.
     – Não sei. – respondeu Beatriz.
     – Vamos se livrar dele. – Sussurrei. – Tomem cuidado.
     Beatriz me olhou, mas acho que foi porque ela ouvira o que eu dissera sobre se livrar dele.
     
– Enquanto nos livramos dele você fica aí vomitando, é?
     Beatriz aumentou o tom de voz, mas não estava brava e nem havia gritado.
     – Não toquem nele. Ele pode fazer algo. – disse Felipe. – Estamos chegando. Aguentem só mais um pouco que já estamos chegando. Ele não conseguirá fazer nada no momento.
     Estamos chegando. Mas quando chegaremos? Felipe está se esforçando mais do que seu corpo pode aguentar.
     Estamos chegando.
Essas palavras ressoaram e se repetiram por minha cabeça. E eu só consegui pensar nisso.
     – Vocês...
     Francisco produzia uns sonhos estranhos. Ele tentava dizer algo.
     Me sentei e consegui olhar para ele completamente, Felipe não estava na frente da minha visão. O corpo de Felipe tremia com o esforço que fazia e o corpo de Francisco tremia, provavelmente por estar morrendo e sentindo a leveza que é a morte. Será que está sentindo dor? Só de olhar para ele eu sentia meu enjoo voltar, e estava voltando com mais força. Sangue escorria de sua boca enquanto seus olhos perdiam o brilho. Eu ouvi algo estalar. Parecia osso se quebrando, mas não tinha certeza do que poderia ser.
     Carla tentou se levantar, mas perdeu o equilíbrio, então permaneceu encolhida no chão.
     Francisco se levantou e quase caiu do barco, mas mesmo fraco e frágil, conseguiu permanecer em pé. Os hematomas que ele tinha estavam ficando mais escuros, e eu achando que era coisa da minha cabeça, sua pele antes pálida, escurecia. Seus olhos já estavam sem brilhos.
     – Eu tinha planos. – ele conseguiu dizer com uma grande dificuldade. – Eram planos...
     Ele pegou a espada.
     Achei que ele cairia novamente com o tanto de espasmos que seu corpo produziu. Ele gemia de dor, mas acho que ele já está morto. Ele é só mais uma dessas criaturas. Foi o que eu achei.
     Ele está apodrecendo. Essas criaturas apodrecem.
     Felipe reagiu, pela primeira vez ele fez algo diferente desde que entrara nesse barco.
     Espanto? Medo? Eu não sei.
     – Vocês terão que morrer. Era o plano.
     A voz de Francisco estava perdendo a força. Estava ficando mais baixa a cada palavra e a única coisa que saía era fedor.
     Felipe levantou-se e encarou aqueles olhos brancos, então tentou arrancar a espada da mão dele. Mas tanto ele quanto eu esquecemos. Mesmos mortos eles têm bastante força.

...

Sangue MortoOnde histórias criam vida. Descubra agora