Tudo que eu não imaginava estava acontecendo hoje.
Depois de tanto andar me dou de frente a um pequeno córrego, a água brilha com a luz do sol forte. Um pequeno córrego é tudo que me separa de três pessoas.
*Não grite*, Jim sussurra na minha cabeça lentamente.
Mas sempre há um problema por qual devo enfrentar. Eles estão cercados por criaturas. Talvez tenha mais que cinquenta. Enquanto eles lutam pelas vidas deles, estou parado pensando no que eu deveria fazer...
*Nada. Eles estão mortos. Tire sua bunda daqui e salve nossas vidas.*
Tenho duas opções e estou em dúvida. Ajudá-los ou fugir.
*Fuja. Você não tem como salvá-los.*, Jim grita. Mas ele não entende. Sou eu que preciso recuperar o que estou perdendo: minha humanidade.
*Acorda, Jim. Não seja idiota. Você não está perdendo nada, mas irá perder nossas vidas.*, Jim não acredita em mim.
– Ei. – eu gritei.
Eles nem olharam para mim. Não me ouviram em meio aos urros.
Um homem e duas meninas. Novamente estão disparando as armas. Eles estão protegidos com o tanto de armas que carregam.
Criatura por criatura caem com a cabeça explodida ou com um tiro no meio da testa. Dezessete criaturas ainda tentam se aproximar.
*Eles irão te matar. Fuja Jim. Nós quase morremos uma vez por causa da sua estupidez.*, eu podia sentir a raiva que havia em sua voz. Mas ele tem razão. Talvez eles sejam como o último...
Lentamente estou caminhando para trás, ainda pensando na chance que tenho a minha frente. Mas Jim tem razão, eu não posso arriscar.
– Ei. Você.
Uma das meninas me viu.
*O quão idiota você consegue ser? Se nós morremos, saiba que a culpa é completamente sua.*, Jim não estava contente nem um pouco. Eu sabia o porquê.
Eles ainda estão atirando. Mas agora não resta mais do que cinco criaturas.
A menina continua me olhando, parece contente balançando os braços. Eu lentamente me aproximo. A água do córrego está gelada. Não passa nem do meu tornozelo.
O homem não parece feliz em me ver, bem diferente da menina.
*Eu avisei.*
– Eu não acredito. – na minha cabeça foi até engraçado me ouvir gaguejar. Mas como eu pude falar assim? Passei por tudo isso para chegar na hora que eu mais esperei e gaguejar?
– Acredite. – o outro homem me respondeu.
– Somos de verdade e espero que você também seja... – a menina riu. – Você não é mais um maluco, né?
*Eu avisei.*, Jim falou calmamente.
Não pude deixar de sorrir. No fundo, no fundo, eu tinha razão. Eles me matarão.
– Não se preocupe. Não o mataremos. – o homem que não parecia feliz me respondeu, como se tivesse lido meus pensamentos. – Ainda não...
– Não sou maluco. – novamente eu gaguejei.
– Ele é tão fofinho gaguejando. Não acha Felipe? – ela sorriu. Era tão lindo seu sorriso. – Venha.
Essa menina de sorriso lindo que me notara se chama Beatriz. Acho que estamos caminhando há uns vinte e cinco minutos e ela não para de falar.
*Você está em desvantagem. Não esqueça disso.*, Jim está certo. Ele está com medo. Eu até consigo entender. Nós temos medo.
*Você não pôde salvá-los... você não fez nada!*, meu rosto corou.
Pelo que eu entendo, Felipe tem dezenove anos, apesar do porte físico que tem, grande e forte, típico esportista de alguma escola... Está brigado com Carla, acho que também tem dezenove, parece muito ser aquele tipo de menina de filme respeitada em toda a escola. Não me surpreende o casal.
*Essa menina não cala a boca? O que mais ela tem para falar?*
Beatriz tem dezessete e é irmã de Carla. Ela anda um pouco a minha frente, e eu quase não consigo mais ouvi-la. Nem sei mais sobre o que ela está falando. Mas ela é o tipo de menina que é ofuscada por outras meninas.
Ela que me notou.
Pelo pouco que entendi, estamos indo para um abrigo onde eles estão vivendo. Eles estavam procurando por outras pessoas, mas acabaram sendo cercados por essas criaturas.
O abrigo é pequeno, mas pelo que notei, dá para umas sete pessoas, no mínimo. Não é tão confortável comparado às casas em que fiquei nesses últimos dias, mas parece ser mais seguro que todos eles. No momento somos quatro. Não quero que eles me expulsem...
*E nem que nos matem, né?! Você está arriscando nossas vidas a troco de nada. Estávamos bem sozinhos.*. Não sei o porquê Jim está tão apavorado.
Estou isolado no canto enquanto conversam, igual Jim sentado isolado no fundo do meu consciente. Por mais que eu tente não ouvir, ainda consigo ouvir fragmentos do que eles decidem.
– É o seguinte. Nós precisamos de mais gente para sobreviver. – Felipe está parado diante de mim. – Mas não pense em nos trair ou bancar o engraçadinho. Serei o primeiro a estourar sua cabeça.
Eles me aceitaram.
– Obrigado. – eu respondi.
Ele esticou a mão.
– Me chamo Felipe. Aquela ali atrás é a Carla, e a menina que veio conversando com você, você já a conhece.
Eu segurei a mão dele e me levantei.
– Me chamo Jim.
Ele me olhou desconfiado.
*Eu falei para você.", Jim sussurrou. Ele sabia que desde aquele dia, meu nome passara a ser Jim.
Só Jim. Eu repeti mentalmente. Só Jim.
Felipe colocou a mão atrás da calça. Ele ainda segura minha mão, com força demais. Aposto que pôde sentir meu corpo começando a tremer.
– Felipe. – essa voz era de Carla. Uma voz de censura.
Ele então esticou o que tirara da calça, um revólver. Ele soltou minha mão e por segundos que pareceram ser horas, ele me entregara o revólver.
Eu não havia dito, mas isso era uma perda de tempo eu ter uma dessas em mãos. A última que eu tive eu perdi em algum lugar e nem cheguei a usar. Nem sabia como.
– Obrigado. – gaguejei.
– Você é sortudo. Ter sobrevivido lá fora é sorte. Para aonde você estava indo?
Ele me olhava curioso.
– Eu não sei. Só queria encontrar um lugar onde conseguisse ajuda, tipo uma delegacia. Encontrar outras pessoas. Eu achei que estava sozinho.
– Ele tem razão. – Carla concordou.
– Então está decidido. Beatriz vai te levar para comer algo. Depois vamos pensar em como chegaremos até a alguma delegacia.
Concordei com a cabeça e fui atrás dela.
O que eles consideram uma cozinha, não chega nem próximo a uma. Só há latas e mais latas de comida enlatada e uma fogueira apagada no canto.
Eu podia sentir que o Jim que mora dentro de minha cabeça não concordava com aquilo, enquanto eu estava me deixando confortável com outra pessoa que pudesse me ajudar, ele estava com um pé atrás. Era sensato. Além do mais, um de nós precisava ser cuidadoso.
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Sangue Morto
AçãoOBRA REGISTRADA NA BIBLIOTECA NACIONAL (ISBN) * 29 de setembro de 2013. Foi o ano que o terror começou a andar sobre a terra. De tantos bilhões de seres humanos, apenas um parecia ter sobrevivido a uma pandemia que destruiria a raça humana. Yudi é...
