Não vejo a hora de sair daqui.
Ter saído de uma simples tubulação ao pé de uma escada de emergência foi mais difícil do que eu imaginei. Ter que tirar a grade de segurança e empurrá-la sem ter forças nos braços devido a posição em que estive por horas, não foi fácil. Mas consegui. Com muita dificuldade, mas consegui.
Até esse momento, comer foi a melhor coisa que fiz. Estava pensando e irei em busca de uma delegacia, é a coisa mais sensata e deveria ter feito isso desde o começo. Eu sei que há uma perto de casa, mas voltar agora é arriscado. Tudo seria mais fácil se eu estivesse com o meu celular. Talvez um mapa me ajude, mas voltar para dentro do shopping e procurar um não é opção.
Não é tão simples fugir por uma estrada como havia imaginado. As pessoas deram lugar a essas criaturas, mas antes, elas deixaram seus carros largados por aí, uns estão até batidos em outros carros ou nas muretas, uns com e outros sem portas. Não é fácil correr entre eles desviando de portas abertas. Não vou nem comentar sobre os corpos mortos e coberto de sangue e nem sobre o fedor... Mas saltar de carro em carro é até mais rápido, porém não é tão fácil de se fazer enquanto minhas pernas estão tremulas, já que tem mais de vinte criaturas me perseguindo.
Esse é o momento que eu desejo com todas as forças que o Jim que sussurra na minha cabeça sumisse. É até controverso pensar assim, sendo que é ele que me faz companhia e com quem converso quando não estou escrevendo. E eu achando que ele havia desaparecido quando encontrara com Julie pela primeira vez. Estou conversando comigo mesmo ou realmente existe outra versão minha dentro da minha cabeça? Eu não sei. Mas ele constantemente fica me lembrando que sou apenas humano e estou cansado de grandes esforços...
Essa voz na minha cabeça tem razão, estou cansado e diferente dessas coisas, elas parecem não se cansar, por mais que eu seja mais rápido que elas.
Eu só preciso encontrar um abrigo antes que eu não consiga mais correr. Mas antes preciso fugir dessas coisas.
Os urros estão começando a me perturbar.
Aos poucos consigo ver o final da estrada, pulando de carro em carro consigo ver o início de uma ponte.
Jim diz que o único jeito de me salvar é pulando no rio que há debaixo da ponte. Eu acho que ele tem razão. Bem, eu tenho razão. Só há um problema. Eu não sei nadar.
Eu estou definitivamente maluco.
Mais urros, dessa vez vindo um pouco mais a minha frente.
Agora consigo ver do que se trata, como eu não sei, mas a ponte está bloqueada graças a uma carreta de camião tombada. Algumas criaturas parecem perdidas tentando passar por ali.
Preciso pensar rápido e mais uma vez estou sozinho. Pelo jeito ficarei uns dias sem escrever.
Consegui fugir das criaturas que me perseguiam, graças aos carros parados que as atrasaram, mas logo elas me alcançarão. O jeito é manter o plano e pular. Espero que não seja fundo demais.
Eu preciso aprender a ter coragem. Preciso me arriscar e caso necessário, aprender a nadar. O quão difícil pode ser?
Os urros atrás de mim estão ficando mais selvagens, mais eufóricos. Eles estão próximos, consigo ver algumas cabeças se aproximando.
Jim não para de gritar na minha cabeça para pular.
A ponte é alta. Mas a água amortecerá a minha queda. É no que quero acreditar. Coragem! Preciso de coragem!
Algo me diz que é daquele lado que encontrarei pessoas. Quero acreditar nisso. É daquele lado da ponte que terei mais chances de sobreviver.
Jim não para de gritar na minha cabeça para pular.
Não posso ficar aqui parado por muito tempo, as criaturas à minha frente ainda não perceberam minha presença e as que estão atrás de mim estão muito próximas. Pular ou tentar voltar? É suicídio nas duas alternativas.
Eu preciso chamar a atenção delas, e tenho a certeza de que odiarei isso. Me aproximar foi fácil, esperar que elas me notem, foi tortuoso.
Sentiram o meu cheiro, essa é a parte em que eu volto correndo.
Preciso ignorar o outro Jim, ele não para de dizer que tenho que pular.
Os urros em uníssono são assustadores. Sinto o frio que vem junto da morte. Falhei em subir no primeiro carro na minha frente, porque senti algo roçar nas minhas costas e quase me fez cair. Correr entre os carros, abrir e fechar portas para atrasa-las, me atrasava também.
Já havia pensado se eu me escondesse dentro de algum carro eles desistiriam de mim. O Jim na minha cabeça respondeu não imediatamente e eu sabia também que elas não desistiriam.
Correr entre os carros, ir e vir entre eles, tudo para fazer com que essas coisas fossem ao sentido contrário da ponte. Suor já escorre em meus olhos de tão exausto que estou. Não consigo correr mais. As criaturas estão próximas, mas o caminho que eu quero, está livre.
Triste é eu admitir que não consigo abrir a porta solar dessa desgraça tombada. O péssimo é saber que todas essas criaturas têm o meu cheiro e estão logo atrás de mim.
*Pule.*, a voz do outro Jim na minha cabeça quase a fez explodir em dor.
Minhas mãos estão tremendo e não consigo puxar com mais força. Está emperrada. Tenho poucos segundos.
Jim não para de gritar para pular. Ele tem razão. Sou eu, eu tenho razão? Preciso pular.
Sinto algumas criaturas se aproximando ainda mais. Sinto o cheiro delas de podre. O frio da morte está em minhas costas.
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Sangue Morto
БоевикOBRA REGISTRADA NA BIBLIOTECA NACIONAL (ISBN) * 29 de setembro de 2013. Foi o ano que o terror começou a andar sobre a terra. De tantos bilhões de seres humanos, apenas um parecia ter sobrevivido a uma pandemia que destruiria a raça humana. Yudi é...
