""_Eu não conseguia mais correr e meus pulmões estavam queimando em fogo pela falta de ar.
_Tenho certeza de que Clarice estava sofrendo mais. Ela não conseguia nem fazer o mínimo esforço para falar algo, imagino para respirar. Me lembro de como estava o corpo dela a cada segundo que eu a arrastava pelo braço: coberto de suor e completamente gelado. Ela já parecia morta.
_Conseguimos chegar no meio da ponte e meu erro foi tê-la soltado...""
É impressionante a diferença de lugar. Há quanto tempo que estou aqui nessa casa? No chute, talvez umas oito horas e não ouvi um urro. Nada. Talvez eu possa realmente relaxar. Talvez eu possa estar seguro...
*Não. Não. Você sabe que não deve se sentir assim, sabe que não deve se acostumar com uma segurança que você não terá.*, Jim gritou no canto do meu consciente.
Posso ouvi-lo. Mas devo acreditar no que ele diz? No que eu digo?
""_Clarice caiu no meio da ponte no exato momento em que eu a soltei. Como eu escrevera, ela já parecia estar morta. Seu corpo pálido me dava arrepios. Minhas pernas vacilaram, e foi aí que caí de bunda no chão, por sorte, do outro lado da ponte.
_Ela tentava se arrastar. Não havia som. Seu corpo tremia com tanto esforço. Meu corpo tremia de medo e cansaço. Meu coração me machucava. Os olhos dela estavam perdidos e sem brilho. Eu tentei me aproximar. Eu ofereci a mão, mesmo com o braço tremendo, eu ofereci. Ela não tinha forças nem para esticar o braço. Não tínhamos forças.
_Foi tão rápido. As criaturas que nos seguiam se lançaram com força na ponte em cima da minha amiga. Elas urravam. Elas estavam desesperadas. Elas estavam sedentas por sangue e carne. Elas brigavam entre elas para saber quem a comeria. A ponte tremia com todo aquele desespero. Aquelas coisas nem olharam para mim. Não deram a mínima. Estavam tão animadas com a carne que pareciam ter me esquecido. Elas só queriam a morte. Julie estava ali no meio urrando com as mãos curvadas e o corpo coberto de sangue. Eu ainda me lembro, eu não ouvi nada vindo de Clarice. Clarice não esboçou dor quando aconteceu. Clarice não gritou. Eu só conseguia ver sangue espirrando por toda ponte que tremia e os urros desesperados de satisfação.
_Julie já estava satisfeita, ela não queria só aquela morte, ela não se esquecera de mim. Ela ergueu-se e cambaleando entre as outras criaturas. Ela avançou. Sangue pingava de sua boca. Ainda havia euforia por parte das outras criaturas.
_Se foi sorte ou não. Eu não sei. Provavelmente tenha até sido. Mas por milagre a ponte começou a ruir com toda aquela agitação descontrolada.
_Clarice havia sido devorada. Eu estava caído no chão sem controle das minhas pernas, com meu corpo ainda controlado pelo tremor. O cheiro podre era forte demais, havia me deixado com o estômago embrulhado.
_A ponte ruiu e todas aquelas coisas caíram junto naquela água escura. Era raso, elas podiam andar...
_Foi necessário um bom tempo para recuperar boa parte do meu fôlego e me por de pé. As criaturas não urravam mais e eu curioso me arrastei e coloquei a cara próxima a beirada para saber o porquê. Elas estavam caminhando seguindo o único caminho possível que dava em sei lá onde. Algumas ficaram paradas, andando em zigue-zague, elas sentiam o meu cheiro. Julie estava ali, parada. Como se estivesse congelada. O nariz dela não parava de se mexer e quando menos esperei ela olhou para cima. Aqueles olhos brancos me fitando com uma expressão morta. Ela sentia o meu cheiro. Então eu me afastei.
_Por sorte, aquelas coisas ficariam presas ali por um bom tempo. Esse era o lado bom.
_Pelo outro lado, o ruim, Clarice havia sido devorada e eu sei que é minha culpa. Eu a tirei de casa e não a fiz sobreviver nem por um dia. E me dói admitir que nenhuma lágrima encheu meus olhos naquele dia. Eu não soube como reagir e hoje, mesmo tendo conhecimento, não consigo chorar por ela. Eu deveria, não?
_Eu deveria protegê-la. Eu havia dito que a manteria a salva. Eu não soube cumprir. Eu não consegui.""
É triste ter que dizer que ela morreu e é mais triste ainda admitir que graças a ela eu estou vivo. Eu a matei.
*Você a tirou do único refúgio seguro que ela tinha. Você sabe.*, Jim surrava. *Você sabe.*, A voz dele ressoava na minha cabeça, por todo meu corpo.
Ele tem razão.
Me sinto culpado até hoje por isso, mas não posso deixar isso me atrapalhar. Por mais que eu não tenha coragem suficiente, eu preciso me manter com a mente sã. Forte.
""_Não sei o que acontecera depois disso porque eu desmaiei.
_Sim. Isso que vocês leram. Desmaiei. E pasmem como eu pasmei, nada me aconteceu. Nenhuma criatura estava por perto, a não ser aquelas que caíram da ponte e permaneceram ziguezagueando por ali. Julie estava no mesmo lugar, olhando para cima. Ela sabia que eu estava ali, então ela permaneceu no mesmo lugar.
_A lua já estava no alto e eu não sabia para aonde ir. Em qual direção deveria continuar agora que eu estava sozinho novamente. Eu estava longe de casa e não me arriscaria voltar para o outro lado. Mas havia apenas um amigo ao qual eu não me certificara se estava vivo: Diego. Ele morava próximo de Clarice e Caio, do outro lado da ponte destruída.""
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Sangue Morto
ActionOBRA REGISTRADA NA BIBLIOTECA NACIONAL (ISBN) * 29 de setembro de 2013. Foi o ano que o terror começou a andar sobre a terra. De tantos bilhões de seres humanos, apenas um parecia ter sobrevivido a uma pandemia que destruiria a raça humana. Yudi é...
