Encontramos o nosso local seguro

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     – Beatriz, diga que minha arma está na sua mochila? Consegue procurar enquanto corre?
     Ela procurou e procurou diversas vezes. Não é tão difícil de acha-la caso esteja ali. Não entendi a dificuldade. Por que estou me estressando? Não posso permitir que meu medo me deixe nervoso nesse momento. Vou precisar de muita coragem. 
     – Está comigo. – gritou Carla desacelerando os passos. – Tome.
     Eu a peguei e conferir as balas. 6 balas. Tem que ser o suficiente. A coloquei na cintura e continuei correndo.
     – Conseguem ouvir? – gritou Francisco lá da frente. – Conseguem sentir esse cheiro?
     – De quê?
     Perguntei. Não conseguia ouvir direito e nem sentir cheiro de nada. Meu suor está quase me cegando de tanto ardor. E estou forçando meu corpo ao máximo apenas para correr. 
     – De água. – respondeu Felipe. – Estamos perto. Provavelmente o fim do chão se aproxima.
     Que tipo de pessoa é Felipe? Ele não parece nem um pouco cansado. Carla consegue acompanhar o pique dele muito bem. Beatriz está como eu, não irá aguentar por muito tempo. 
     Mais urros. Agora o cheiro que eu sentia era outro, o cheiro da morte se aproximava. E esse eu consigo sentir muito bem. Aquele peso se aproxima. Beatriz contorceu o rosto com o odor de sangue, é a primeira vez que vejo ela fazer essa cara.
     – Precisamos correr ainda mais rápido. – disse Felipe. – Essas criaturas não podem nos alcançar. Não agora.
     Ele não é normal. Correr ainda mais rápido? Eu era um sedentário. Como ele quer que eu corra ainda mais rápido? 
     Eu não havia percebido até que eu olhei para trás. O céu azul agora parecia cinzento com o tanto de coisas mortas que nos perseguiam. Elas urravam e cuspiam sangue. Tropeçavam para servirem de tapete para as outras criaturas que pisoteavam o que estivesse na frente. Aqueles olhos leitosos pareciam brilhar em um branco lúcido. Os braços esqueléticos em carne podre se esticavam para frente como se com aquele movimento eles nos alcançariam. Ainda bem que não. É muito mais das quais eu já fugi. São muitas criaturas. É mais do que eu imaginara que seria. Nós não conseguiremos sobreviver se um deles nos alcançar.
     Eu quero sobreviver.
     Procurei pela mão de Beatriz que corria ao meu lado e a segurei com força e corri ainda mais rápido, a puxando. Por mais que meu peito esteja doendo, meus pulmões queimando e meu coração doesse de tanta força que esteja batendo. Eu não podia pensar em parar... Senti o corpo de Beatriz tremendo de exaustão. Eu não poderia deixar que ela parasse. Eu não a abandonaria.
     Que ódio. Não consigo nem sequer levantá-la. Desculpe Beatriz, mas você precisa correr.
     Francisco desembainhou a espada e olhou para trás. Seus olhos pesaram em mim. Foi o que eu achei. Mas eu lembrei que as criaturas já estão visíveis e nos perseguiam.
     – Não pensem sequer em parar.
     Gritou Felipe.
     – Então precisamos ser ainda mais rápidos. – gritou Francisco. – Não parem.
     Mais rápido? Ainda mais? Eu não aguento mais.
     – Olhem. – Carla apontou. – É água. 
     Francisco parou e se preparou numa posição que eu achei ser de kendo.
     – Eu alcanço vocês. Preciso aliviar minha vontade...
     Achei que ele sorriu. 
     Não pensei nem em parar para questionar. E nem pararia caso pensasse.
     – Deixe ele. – disse Carla. – Só precisamos correr. Dependemos disso agora.
     Ela sentia dor. Estava estampando na voz e no rosto.
     Beatriz olhou para trás e arrependeu-se. Tenho certeza. Ela abriu a boca assustada e tenho certeza que ela gritaria se não estivesse na situação que se encontra. Ela não consegue respirar. Se meus pulmões queimando e doendo a cada batida do meu coração eu imagino como que ela esteja. Preciso correr mais rápido. Preciso salvá-la.
     – E agora? Para aonde vamos? Não vou pular nessa água. – disse Carla. – Vamos acabar nos afogando. Meu corpo não aguenta mais. Sinto como se estivesse derretendo de cansaço.
     – Tenho certeza que estamos perto. – disse Felipe olhando para os lados. – Olhem.
     Ele apontava para o meio da água. Precisei força a vista mas conseguir ver uma mancha negra no meio de tanta água.
     – É aquele o nosso local seguro? – perguntei. – Como chegaremos lá?
     As criaturas se aproximavam. Já conseguia enxergar Francisco brandindo pra lá e pra cá a espada que decepava as criaturas como se fossem um saco de feno. Sangue espirrava para todos os lados. Ele era rápido e bem ágil para a idade que tinha, mas era professor de artes marciais, então acho que aguenta bem. Mas são muitas criaturas até para ele. Ele não irá aguentar por muito tempo, sem que ele está exausto.
     Essa é a hora. Vamos aproveitar e fugir.
     – Ali. Está ali. Vamos.

...

Sangue MortoHistórias para pegar e não largar. Descubra agora