PARTE I - SE ESTÁ VIVO, DEVE MORRER [ATUALIZADO]

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""_A criatura urrava baixo enquanto maltratava mais e mais aquele corpo já morto. Parecia hipnotizada.""

     Naquele dia, as coisas aconteceram tão rápido que eu mal pude processar. Eu só poderia estar louco. Era uma conclusão fácil e aceitável. Isso teria explicado toda essa situação. Nada passa de apenas um pesadelo. É isso. Tudo é apenas um pesadelo.
     Queria eu estar tão certo quanto.
     Seria até mais fácil de lidar, sobreviver.
     Lembro-me como se tivesse acontecido há alguns minutos, pela primeira vez e só daquela vez, eu senti meu coração vibrar com aqueles urros, eu ouvi o meu coração ecoar as palavras em minha mente: "se pulsa, ainda está vivo. Se ainda está vivo, deve morrer!". Nunca irei conseguir apagar isso da minha memória ou fingir que não ouvi.

""_Não sei se naquele momento ela havia me notado ou apenas me ignorava. Talvez só quisesse me amedrontar ainda mais. Talvez ela pudesse sentir toda adrenalina causada pelo medo no meu corpo.
_A criatura havia puxado a tesoura do corpo estirado, em um movimento lento, a levou à língua, lambeu o sangue da arma e pareceu sorrir. Tudo aquilo lhe dava prazer.
_Por um segundo aquela criatura me encarou, os olhos leitosos brancos se fixaram em mim, e eu notei que ela não enxergava. Mas mesmo com a face em decomposição eu consegui reconhecer quem outrora fora, Julie Fernandez. A minha melhor amiga, irmã gêmea de Diego e simplesmente a menina a qual fui apaixonado desde meus 12 anos.""

     Aquilo tudo foi um pesadelo. Só podia ser. Isso tudo é um pesadelo. Tem que ser!

""_Julie tivera um lindo cabelo vermelho outrora vida, mas todo aquele fogo nos fios dera lugar a pequenos tufos vermelhos escuros, muito escuros por causa de todos os ferimentos e do sangue coagulado. Sua cabeça estava completamente destruída por mordidas. Sua pele agora acinzentada era complementada com diversos cortes e mordidas profundas cobertas por sangue e sujeira. Ela havia me encarado tão intensamente que eu sentira diversos calafrios fortes perfurando cada parte do meu corpo.
_Um sorriso torto havia estampado em seu rosto, aqueles dentes podres e tortos. Ela havia farejado o ar. Eu tive a impressão de que ela havia memorizado meu cheiro, como um cão. Então de uma forma calma e veloz, ela enfiara a mão no peito aberto de Diego e com violência a puxara de uma única vez a única coisa que ainda parecia ter um pingo de vida, um coração quente, que pulsava muito lentamente. Encaixava-se perfeitamente em sua mão.
_Eu quase havia desabado. Minha cabeça não parara de rodar enquanto minha visão ficava escura, enquanto lágrimas escorriam de meus olhos. Enquanto meu estômago se contorcia e meu coração me agredia com força suficiente para me machucar. Mas por algum milagre minhas pernas trêmulas haviam me sustentado, mas elas não me respondiam. Todo aquele medo me havia feito esquecer de todo o básico que levei meses para aprender e tudo do que apenas conseguia lembrar era de gritar e chorar, cada vez mais alto.
_"Preciso aprender a ter coragem!".
_Mas o que eu, um simples garoto de 16 anos poderia ter feito? Meu cérebro mandava, mas meu corpo não queria obedecer...""

     Ainda estou vivo, precisei fugir de algumas criaturas. Preciso ficar mais alerta a cada barulho que ouço, mesmo que seja de uma folha caindo no chão. Não posso deixar que mais criaturas gravem o meu cheiro. Já é complicado fugir e se esgueirar por aí, me sinto rato fugindo de vários gatos. Mas agora estou seguro e posso descansar um pouco. Duvido que me encontrarão nessa gruta, mas sei que não posso me dar o luxo de ficar aqui por muito tempo.
     Sei que estou contando a história desde o começo, de como tudo aconteceu comigo, mas falta pouco para eu começar a contar o meu presente.
     Eu preciso aprender a ter coragem.
     Às vezes me pego tendo esperança de que não estou sozinho nesse mundo, e eu realmente espero que não.

""_Eu estava paralisado. Algo havia feito meu corpo desligar naquele momento. Talvez tenha sido o medo. O que é bem provável. Mas por alguns segundo tudo ao meu redor havia se apagado e a única coisa vívida que eu pude sentir foi aquelas palavras ressoando por meu corpo, então por algum outro motivo, novamente, eu me lembrara da minha infância, de quando eu tinha uns 7 anos e minha vó Renata sempre me falava: "A curiosidade matou o gato.", sempre quando eu queria saber de alguma coisa que não era da minha conta, o que naquela época era basicamente tudo.
_Então tudo acontecera rápido demais, meu mundo acordou e as antigas palavras que eu havia ouvido no interior da minha cabeça: "se pulsa ainda está vivo. Se ainda está vivo, deve morrer!", me atingiram novamente, provocando uma certa dor no meu coração.Julie, a criatura, se erguera lentamente. Suas pernas mordidas se retesaram. Ela apertou o coração de Diego e enquanto fazia isso, ela urrava de prazer...""

     Pensando naquele dia, eu não sei dizer o que realmente aconteceu devido todo aquele terror que presenciei. Mas todo esse medo me fez criar inconscientemente um outro Jim. Um Jim com quem eu pudesse conversar e lidar com certas situações que eu não conseguiria sozinho. Mas fica as minhas dúvidas de qual lado ele realmente está, porque do mesmo jeito em que ele apareceu, ele desapareceu, mas antes de sumir ele havia sussurrado na minha mente: "Sua vez, será menos dolorosa.". Eu só queria ter entendido o porquê. Mas eu pude sentir o medo que ele também sentira, não era o mesmo medo que eu havia sentido. O meu medo fazia o meu corpo pesar, fazia meu coração doer, mas o medo dele fazia o meu corpo vibrar.
     Loucura? Eu acredito que não. O medo nos faz acreditar em coisas que não são reais. E às vezes tenho impressão de que um dia esse medo irá me matar.
     Eu preciso aprender a ter coragem.

""_"O medo nos faz acreditar em coisas que não são reais."""

""_...Saliva e sangue eram cuspidos daquela boca podre toda vez que emitia algum barulho. Então como que para me tirar de um transe, ela urrara mais alto. Parecia ter ecoado em todas as direções.
_"Você está desesperado, não?! Posso ouvir o seu coração gritando, machucando seu peito. Se pulsa, ainda está vivo. Se ainda vive, eu sei que deve morrer! Você está vivo...". Novamente eu sentira as palavras ressoar dentro da minha cabeça medrosa. Elas veem quando eu menos espero e somem antes mesmo que eu perceba. Eu não tenho respostas para nada disso. Eu não sei explicar.
_Ela se precipitara para cima de mim, parecia ser mais ágil do que antes já fora, e tudo que eu fora capaz de fazer foi ter ficado paralisado, tremendo de medo, com um grito preso na garganta.""

Sangue MortoHistórias para pegar e não largar. Descubra agora