""_– Se não me engano, foi dia 29 de setembro... Eu ainda nem havia levantando da cama quando ouvira os gritos...
_Eu não escrevi a data errada. Ela falou exatamente a data que eu havia escrito nas primeiras cartas. Então as coisas começaram realmente no dia 29. "?"
_– Eu estava meio confusa, perdida. Eu havia chegado de uma festa as 4:30 da manhã, então eu estava em outro estado de espírito naquela hora em que levantara da cama. Mas eu não vou esquecer o rosto de terror da minha irmã.
_Seus olhos brilhavam com as lágrimas que escorriam por seu rosto. Mas não havia nenhum semblante de perda ou dor em seu rosto, mas sim de raiva.
_– O que aconteceu com a Carla?
_Ela nem me escutara.
_– Ela estava no pé da escada chorando, e quando eu a chamei, seus olhos estavam perdidos, havia um terror em seu rosto e eu nunca a vi daquele jeito. Havia sangue em seu rosto e nas mãos...
_Carla interrompeu os passos e a chamou. Ela havia escutado toda a história.
_– Beatriz...
_Ela a ignorou por alguns segundos, então forçou um sorriso.
_– Sim, Carla.
_– O que está fazendo?
_Felipe olhava para ambas. Pelo jeito ele também não sabia do que se tratava.
_– Seria diferente? – as lágrimas ainda escorriam por seu rosto. – Carla, seria diferente?
_Carla deu as costas e continuou a andar. Felipe se apressou para acompanhá-la e eu o escutei perguntar sobre a pergunta.
_– Sabe Jim, naquele dia, eu estava no topo da escada olhando para baixo, para minha irmã. Não havia cor em sua pele avermelhada de sol, não havia sequer um brilho nos olhos castanhos que sempre brilhavam em alegria por qualquer coisa. Eu estava exausta, então eu não havia notado o mar de sangue em seus pés que também pintava os degraus e as paredes. Jim, me diz, o que você teria feito?
_E eu havia sido pego desprevenido, porque eu não fazia a mínima ideia do que ela estava falando.
_– Você quer minha resposta do Jim de antes ou depois de ter passado por isso tudo? – eu não fazia a mínima ideia do que eu estava falando, mas não podia deixá-la sem resposta.
_– Seria diferente?
_– Talvez. Eu teria fugido. Me trancaria no quarto e fugiria pela janela ou ficaria trancado no quarto tremendo sem saber o que fazer.
_Ela então esboçou um sorriso. Mesmo sendo forçado, havia sido bom.
_– E foi exatamente o que eu havia feito. Eu me trancara no quarto. Desesperada. Eu nem sabia do porquê estava me trancando no meu próprio quarto e chorando. Eu tinha motivos, mas ela era a minha irmã e eu tinha que ajudá-la, não?! Ela era minha irmã gêmea.
_As lembranças ainda a machucam. E eu não imaginaria que ela tinha outra irmã. Achei que estava falando de Carla.
_– Mas o que você poderia fazer? Você não sabia de nada.
_– Bianca era minutos mais velha que eu, sempre foi a mais responsável e nunca precisou de minha ajuda. Ao contrário, eu que sempre precisei dela. E quando eu tive a chance de ajudá-la, a única coisa que eu fiz foi fugir e me esconder.
_Do nariz escorria água e dos olhos as lágrimas. Ela não estava bem e eu não sabia o que fazer. Não sabia se deveria lhe abraçar ou se deveria ter dito algo. Não fiz nada.
_Felipe olhava de relance para trás e Carla parecia curvada ao seu lado. Ele a abraçou. Eu não pude fazer o mesmo.
_– Eu era apaixonada por ela, Jim. Ela era o meu verdadeiro amor. E por muito tempo isso havia me machucado, porque eu não sabia nada do que sei hoje.
_Foi isso mesmo que eu escrevi. Ela era apaixonada pela própria irmã.
_– Não era um garoto?
_– Eu nunca havia dito que era um. Você que pressupôs só por eu dizer que era apaixonada por alguém. – ela não me olhava.
_E eu não sabia o que dizer mais. Me deixara surpreso e eu sinceramente nem sei o porquê.
_Ela pegara uma garrafa d'água da mochila e bebera e me oferecera o resto.
_– É Jim, eu era apaixonada pela minha irmã e ninguém sabia. Eu não podia falar nada e nem fazer nada em relação a isso. Nós dividíamos o mesmo quarto, então sempre a observei dormir, trocar de roupa. Eu conhecia cada traço de seu corpo. Eu a desejava e ela não fazia a mínima ideia. Ninguém sabia. Tantos sonhos não realizados com ela e ao lado dela. Você deve estar pensando como eu poderia desejá-la, né? Nós éramos gêmeas idênticas, né?! Mas o coração manda.
_Na verdade, eu nem pensara em nada e nem imaginava o que eu poderia dizer. Nada. Não me importo. A única coisa que conseguira fazer naquele momento fora balançar a cabeça.
_– Nós éramos idênticas, mas tão diferentes. Ela tinha mais piercings do que nossos pais permitiam. Tatuagens escondidas que ela achava que eu não sabia. – ela sorriu. – Talvez você até gostasse dela. Ela tinha o cabelo todo picotado com mechas azuis e roxas. Eu era louco por aquele cabelo e nunca tive coragem de fazer a mesma coisa. Inclusive era o cabelo que mais chamava a atenção, em qualquer um.
_– E por que nunca contou a ela? – arrisquei
_Ela riu.
_– Você nem parece ser desse mundo. Não acha estranho, duas irmãs se relacionando? Como eu contaria isso a ela? E ela nunca me olhara como eu a olhava.
_– Acho. Mas sei lá né. Não sei o que dizer.
_– É. Parece que sim. Mas enfim, para resumir a história, eu queria Bianca e ela queria me matar. O meu quarto havia sido a minha salvação até que Carla me salvara realmente. Quando abrira a porta Bianca não estava mais lá, apenas Carla e os corpos dos nossos pais na sala... – ela respirou fundo. – Não havia mais sangue em lugar nenhum. Mas ela não me conta o que acontecera naquele dia. Desde então Felipe tem nos ajudado. Ele e Carla já eram namorados antes.
_Eu lembrara de Julie.
_– E assim como eu, você não faz ideia de como ela se transformou e de como essas coisas começaram a acontecer, né?
_Ela suspirou forte.
_– Sim. – ela ficou pensativa. – Agora é a sua vez de me contar o que acontecera e não invente desculpa ou uma história qualquer. Me entretenha com o seu passado.
_– Estamos chegando. – foi então que Felipe interviu.
_– Não acha melhor eu contar depois? Já estamos chegando. Temos que prestar bastante atenção agora.
_– Não Jim. Pode parar de enrolar e conte-me. Lembre-se da sua dor. Quero prová-la como você acabara de provar a minha. – ela sorriu.
_E eu suspirei.""
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Sangue Morto
AksiOBRA REGISTRADA NA BIBLIOTECA NACIONAL (ISBN) * 29 de setembro de 2013. Foi o ano que o terror começou a andar sobre a terra. De tantos bilhões de seres humanos, apenas um parecia ter sobrevivido a uma pandemia que destruiria a raça humana. Yudi é...
