""_Eu me lembro do esforço que fiz para não sentir medo, porque minhas mãos tremiam, e o que eu planejara fazer era preciso calma. Falhar é humano e eu falhei. Mas havia prosseguido com o plano mesmo assim.
_Lembram do gato morto na cozinha? Todo plano era elaborado em cima dele. Eu pensara mais vezes do que era preciso para ter certeza se eu faria ou não. Era preciso. Eu precisava sobreviver.
_Ainda preciso.
_Peguei todas as minhas poucas coisas e fui até a cozinha. O gato estava no mesmo lugar, então o peguei, meus braços tremiam e suor escorria pela minha testa sem parar. Me despedi de Caio silenciosamente e me desculpei por não ter conseguido fazer nada por ele. Enquanto eu descia pelas escadas, eu calculava todo o meu plano para que não falhasse.
_No térreo, eu abrira a porta do prédio lentamente e com o máximo de força que conseguira, atirara o gato pelo rabo em cima de uma das criaturas que estava perto. 5 criaturas correram até o gato quando sentiram o cheiro diferente no ar, mas eles não atacaram, apenas ficaram parados farejando o ar e eu até hoje não entendera o porquê de eles não terem feito nada.
_Mas eu aproveitara a chance e correra. Eu apenas corri. Não olhei mais para trás.
_Como eu havia dito, sou humano e eu havia falhado, novamente.
_Eu notara tarde demais que eu havia cometido dois erros: um, fora ter jogado o gato com intuito de sacrifício para o meu bem maior, mesmo ele já estando morto, e a outra, fora ter corrido sem prestar uma maior atenção nas criaturas que estavam por perto. E foi aí, pela primeira vez que várias criaturas me perseguiram. Provavelmente todas queriam e ainda querem ter meu sangue em suas bocas.
_Eu achara que elas não fossem rápidas o suficiente, mas como sempre, mais uma vez eu estivera errado. Uma delas segurara minha mochila e me puxara, seu rosto destruído por mordidas e sangue coagulado fedia. Seus olhos leitosos pareciam estar vivos e o nariz não parava de se mexer. Ele urrara e então como um coro, todas as outras criaturas urraram juntas...""
Não sei como as outras criaturas responderam ao urro sendo que são surdas. Isso eu mesmo comprovei. Mas isso é uma das várias questões que eu não tenho tempo para pensar e nem para quem perguntar.
""_Em uma torrente de terror, as criaturas avançaram sobre mim, desesperadas e sedentas, com sangue escorrendo por suas bocas, ou meias bocas, já que algumas tinha rostos completamente desfigurados.
_Só me restara duas alternativas: uma era me livrar da mochila e fugir e a outra era tentar soltar a mochila e fugir. Claro, que optei pela alternativa que me daria mais chance de morrer.
_Umas das criaturas se aproximara e me puxara pelo braço, saliva e sangue foram cuspidos em toda minha cara. O pânico me dominara de pouco em pouco novamente. E aquele cheiro não ajudava em muita coisa. A cada segundo me puxava em direção ao seu rosto, enquanto a outra criatura me puxava pela mochila. Aquele hálito me dava ânsia, até hoje me recordo da força que tive que fazer para não vomitar.
_Elas eram mais forte do que eu e eu estava aceitando o meu trágico fim que teria, havia até fechado os olhos para lembrar de todos o meu passado em segundos antes da minha morte, mas eu fora salvo, e por mais incrível que possa parecer, foi por uma das criaturas. Sim, isso que vocês leram, umas das criaturas me salvara.
_Ela agarrara a criatura que me segurava pelos ombros e com a boca aberta, mordera seu pescoço, jorrando ainda mais sangue em meu rosto. Ela arrancara um pedaço de carne podre e engolira, então ela mordera novamente enquanto a criatura que me segurava urrava em histeria. Por milagres, o que segurava minha mochila me soltara e atacara a criatura que estava tendo uma segunda morte.
_Meu corpo inteiro tremera enquanto me esforçava para me levantar do chão. As criaturas que me salvara se fartaram naquele dia.
_Mas eu ainda não estava a salvo, ainda restava outras criaturas que estavam por perto, elas não correram, caminharam lentamente em minha direção ignorando a festas que as demais estavam fazendo, e eu não conseguira me levantar.
_Então eu deduzira que elas não se importam com coisas mortas, o que não tiver um coração que pulse por menor que seja, para elas não há importância.""
Isso eu deduzi, né. Essas coisas só querem matar o que está vivo. Só querem sugar o cheiro que os vivos exalam. Mas por que eles se mataram? Talvez aquela criatura não quisesse dividir o meu corpo com as outras. Vai saber. Eu não sei, mas acredito que por menor que seja a pulsação, eles ainda tem um batimento dentro deles. Mas é só mais uma pergunta entre várias que tenho.
""_Elas me farejaram e lançaram-se contra mim. Uma delas me agarrara pelo pé e as outras caíram sobre ela, tentando agarrar alguma parte do meu corpo. Se lembram das criaturas que me salvaram, então, elas já haviam acabado de comer e agora ainda mais imundas de sangue farejaram o ar em minha busca. Eu me esforçara para fugir, mas cada vez que eu forçava, mais dor eu sentira. Meu tênis se soltara e eu conseguira me levantar e correr, com o canto dos olhos eu vira o esqueleto da criatura que morrera, só sobrara os ossos.
_Então uma das criaturas que me salvara me agarrara pela mochila, novamente e me puxara com tudo para trás, eu caíra novamente, mas dessa vez eu conseguira me levantar mais rápido. Por sorte, minha mochila se rasgara, um pedaço ficara na mão dela e a outra presa na mochila nas minhas costas com um enorme rasgo. Mas eu não parara, só correra aos tropeços, sem um tênis e com as pernas bambas.
_As criaturas correram atrás de mim, elas se empurravam aos urros para conseguirem o maior prêmio. Minha vida.
_Eu conseguira escapar do condomínio, mas novamente, eu só tivera duas opções, descer a rua e tentar ter sorte no outro condomínio onde uma amiga morava ou voltar pela mesma rua onde daria na minha escola, onde parece que todo esse terror na minha vida começou.
_Então eu resolvera descer. As criaturas urraram a todo segundo e eu tivera medo delas estarem chamando por outras criaturas, igual havia sido no condomínio. Por sorte, elas não correram atrás de mim, fora igual da primeira vez. Mas até hoje não esqueço daqueles olhos leitosos brilhando à luz do sol.""
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Sangue Morto
AcciónOBRA REGISTRADA NA BIBLIOTECA NACIONAL (ISBN) * 29 de setembro de 2013. Foi o ano que o terror começou a andar sobre a terra. De tantos bilhões de seres humanos, apenas um parecia ter sobrevivido a uma pandemia que destruiria a raça humana. Yudi é...
