""_Aparentemente o condomínio estava abandonado, completamente vazio, mas eu aprendera a não confiar nisso. Eu não iria repetir o mesmo erro duas vezes.
_Eu subira os degraus de três em três me perguntando por que ela também morava no terceiro andar. Eu não havia pensado muito bem naquela hora, já que estava sem fôlego, mas eu metralhara a campainha esperando que alguém atendesse.""
Eu preciso tentar acelerar toda essa história que aconteceu. Mas toda vez que penso isso acho que deixarei algo importante para trás. Eu acho que só em me conter de certos detalhes dê certo. Eu sei que tenho errado um pouco nessas cartas, mas ter que ficar fugindo a cada minuto não me ajuda a ter cabeça para escrever. Eu não sei quanto tempo ainda consigo aguentar, preciso de forças, respostas e acima de tudo, coragem.
Eu já saí da loja de colchões, e comi o que encontrei em um fast food no mesmo andar da loja; imagina que delícia hambúrguer frio, batata que uma vez fora frita porque estava bem murcha e dura e refrigerante quente. Alguns de vocês podem até pensar, do porquê eu não faço as coisas mais loucas que já quis fazer, já que agora não se há mais leis. Bem, seria legal se eu não tivesse que fugir para sobreviver a cada minuto.
A única certeza que tenho agora é que eu passarei mais uma noite aqui no shopping, sei muito bem que tem criaturas por aqui, mas como eu disse antes, o lugar é grande o bastante para que eu consiga me esconder delas por mais alguns dias. Sem dizer que eu não sei para aonde ir.
""_A porta se abrira e para minha surpresa, Clarice se jogara nos meus braços e me apertara forte. Aquele dia, fora o primeiro dia que encontrara alguém vivo depois que esse caos começara. Eu lembro que queria chorar, percebo isso hoje, mas não havia me permitido. Ela me puxara para dentro e tagarelava enquanto se embolara nas palavras derramando todas as lágrimas que pudera. Ela não me ouvira por um segundo.
_– Eu estou com tanto medo. Minha tia saiu para ir ao mercado já fazem 3 dias e não voltou. Nada funciona. Telefone, rádio e televisão estão sem sintonia. – ela dissera. Bem, eu acho que fora isso que ela havia dito. Já tem mais de um mês e ela estava fora de si.
_– Calma Clarice, respira um pouco.
_– Você viu essas coisas que estão pelas ruas? Como isso foi acontecer? Estou com tanto medo! Eu quase morri ontem, uma delas me agarrou pelo cabelo, olha só como estou. – ela retirara a toca que cobria a cabeça e me mostrara o pedaço que faltava um tufo de cabelo.
_– Eu sei. Acabei de fugir de algumas dessas. Caio está morto. – eu sei que não deveria soltar uma dessas em cima dela. Mas não vira outra hora melhor. – O que você foi fazer por aí? Está louca?
_– Eu precisava encontrar minha tia. Como é? – ela gritara comigo, e eu me sentira culpado pela morte de nosso amigo. – O que aconteceu, Yudi? Como tudo isso aconteceu? – ela começara a chorar ainda mais e eu não sabia mais o que poderia fazer.
_Nesse tempo eu ainda não havia escolhido o nome Jim.
_– Eu não sei. Sinceramente eu não sei, Clarice. Eu acordei e tudo estava transformado nesse caos. Estou sozinho desde que saí de casa, e hoje descobri o que aconteceu com o Caio. – preferi não comentar sobre alguns detalhes para não aterroriza-la ainda mais.
_– Onde estão seus pais?
_– Não sei. Eu não sei. Eu estou fugindo desde que saí de casa. Você é a primeira pessoa que encontro viva. Diego e Julie estão mortos também, eu não queria dizer, mas Julie quer me matar e várias outras dessas criaturas também.
_Eu tive que explicar como essas coisas estão vivas, meio vivas. E que talvez, ela encontre sua tia por aí em estado deplorável com sede de sangue. Mas não comentara sobre a morte de Caio ou de nossos colegas de classe.
_– O que nós faremos, Yudi? – ela me surpreendera com a pergunta, ainda mais porque seus olhos estavam secos.
_– Precisamos fugir daqui. Isso é óbvio. Você não vai querer continuar aqui presa por muito mais tempo, vai? E eu quero respostas, quero saber o que é isso. Estou feliz de encontrar mais uma pessoa viva, sei que não aparento, mas é bom saber que não estou sozinho.""
Eu tenho quase certeza que foi assim que havia rolado a conversa. Posso ter mudado algumas palavras... Agora já está tarde, tentarei dormir por mais um pouco para sair daqui, amanhã continuo escrevendo.
*
A melhor hora que há para você fugir de uma praça de alimentação, é de manhã. Eu às vezes até acho que é ironia do universo me fazer cruzar o caminho da mesma criatura que me atacara na farmácia no dia anterior. Não tem nem como não a reconhecer já que está sem uma das mãos. Ela não está só, com certeza não é bom pra mim, mas pra ela, talvez também não seja. Sei que elas são cegas, mas elas conseguem me sentir ali, me enxergar. Sinto calafrios só de olhar para esses olhos leitosos. Depois de ter conseguido fugir, e de me esconder em uma loja de roupa, o mínimo que posso fazer agora é pegar uma roupa nova para usar.
Lembrei-me de um filme de ação onde o ator se arrastava pelo duto de ventilação para não ser encontrado pelos bandidos, bom, estou aqui fazendo o mesmo e é mais difícil do que eu imaginava. Mas eu tenho certeza que será mais seguro do que qualquer outro lugar dentro desse shopping no momento.
É engraçado falar sozinho.
É meio apertado aqui e eu tenho que me arrastar fazendo forças no cotovelo, mas aposto que elas não chegariam aqui, mesmo que sintam o meu cheiro, nunca irão saber onde estou.
Meus cotovelos estão literalmente queimando, estão me fazendo sentir muita dor. Mas o que eu poderia esperar depois de ter me arrastado por esses tubos por duas horas sem parar?! Estou perto de uma saída perto da escada de incêndio do lado de fora do shopping. Sei que estou seguro aqui, mas não posso parar por aqui. Ainda tenho um tempinho a mais para escrever enquanto isso.
""_– Como você acha que sairemos daqui? – Clarice havia me perguntado.
_– Do mesmo jeito que eu cheguei. Só precisamos ter cuidado. – eu havia dito com clareza, ela ainda estava abalada. – Essas criaturas nos perseguem pelo nosso cheiro e são mais fortes do que aparentam. Mas elas não enxergam e são desengonçadas.
_– Olha, eu não quero sair daqui. Estou segura, você também pode ficar se quiser. Você acha que eu sobreviveria lá fora?
_– Eu preciso de respostas e tenho que encontrar meus pais. Sei que é duro de acreditar, mas a essa altura sua tia já está morta... Talvez até mesmo meus pais. Mas não posso ficar aqui parado sem saber.
_– Você acha que eu sobreviveria lá fora, Yudi? – ela me perguntara de novo.
_– Eu estou vivo até agora, não estou? Eu sobrevivi. Eu não posso ficar aqui, mas também não posso deixá-la. Quanto tempo acha que conseguiria ficar aqui? Venha comigo...
_Eu não conseguira lhe dar a resposta que ela queria, porque eu sabia que ela não gostaria de ouvir.""
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Sangue Morto
AksiyonOBRA REGISTRADA NA BIBLIOTECA NACIONAL (ISBN) * 29 de setembro de 2013. Foi o ano que o terror começou a andar sobre a terra. De tantos bilhões de seres humanos, apenas um parecia ter sobrevivido a uma pandemia que destruiria a raça humana. Yudi é...
