Havia um pequeno barco a remo preso por uma corda à estaca no chão. Por graças estamos salvos. Estaremos.
Corremos mais um pouco. Francisco vinha logo atrás decapitando o que conseguia das criaturas, que o perseguia aos urros. Ele estava mancando e havia marcas de mordidas pelos braços e pernas. Um pedaço do seu braço faltava. Fora arrancada por uma mordida. Ele não desistira. Mas deveria ter desistido. Ele já está morto.
– Graças a Deus estamos salvos. – gritou Carla pulando dentro do barco.
Ele balançou de um lado para o outro e ela quase caiu. Ela se agarrou na borda e se agachou enquanto gritos de felicidades saía de sua boca. O corpo dela tremia.
Enquanto Beatriz entrava no barco domada por exaustão, Felipe se posicionava com a arma na mão e atirava nas criaturas. Mas os braços dele estavam tremendo tanto que eu achei que ele acertaria Francisco. Ele até poderia matá-lo. Não tinha nada a perder e eu sei, ele irá nos matar quando tiver a chance. Eu mesmo atiraria, mas meu corpo está tremendo de exaustão.
Ele só tem mais três tiros. As criaturas e o Francisco estavam mais próximos. As criaturas viam de todos os lados. Peguei a arma da cintura e atirei nas criaturas que viam do outro lado. De três bala eu só acertara uma criatura. Com os braços tremendo e com a força do tiro, era difícil atirar.
– Entre no barco, Jim.
Felipe gritou, se aproximando do barco a cada passo devagar.
Atirei mais uma vez e pulei no barco. O que foi uma péssima ideia, quase quebrei as pernas e quase derrubei Carla e Beatriz.
Felipe só precisava pular e estávamos salvos, mas ele aguardava Francisco. Idiota. Mas ele nos dera tempo. Merecia uma chance deles, não minha.
– Vamos Felipe. Pule.
Gritou Carla.
O barco balançava de um lado para o outro porque Carla não conseguia sossegar e o que nunca havia passado por minha cabeça aconteceu, eu fiquei enjoado com o balanço desse pequeno barco. Eu nunca andara de barco, então nunca me passou pela cabeça que eu tinha enjoo.
– Você está bem? – perguntou Beatriz. – Ei, Jim?
– Eu tenho que esperar o Francisco. – gritou Felipe. – Ele está próximo.
Daqui eu não consigo ver nada que acontece ali em cima. Só consigo ouvir os urros e disparos enquanto me concentro em não vomitar. Pela minha contagem ele não tem mais balas na arma.
Felipe pulou no barco e quase me derrubou quando eu estava praticamente para fora do barco para caso eu vomitasse. Ele pegou o remo e remou com força. Sei que não é certo, mas eu meio que comemorei por estarmos partindo sem Francisco. Ele morreu e eu não devia ter ficado um pouco mais feliz.
O barco se afastou da costa o suficiente e então percebi que ainda estávamos presos à corda.
Foi quando eu percebi que estava errado. Francisco mancava, mas estava correndo. Ele não vai conseguir. É o que eu quero. Ele não irá conseguir.
– Vamos. – gritou Carla. – Pule Francisco.
Eu olhei para ela assustado e foi uma pena ela não ter percebido. Mas Francisco saltara e por sorte dele e azar meu, como sempre, ele conseguira alcançar o barco. Parte do corpo dele estava na água, mas não ficara por muito tempo, Carla e Beatriz o puxaram para dentro.
Ele cortou a corda com a espada e o barco se afastou ainda mais com velocidade.
As criaturas pararam de avançar e urraram. Estavam desesperadas. As que viam atrás empurravam as que estavam na frente e elas caiam na água. Espero que essas coisas nunca aprendam a nadar. Elas se debatiam por alguns segundos na água e afundavam. Elas agarravam o ar, queriam sangue. Os olhos ainda brilhavam. Aquele peso de morte não avançava mais. Graças a Deus? Os urros não cessavam. Aquela sensação de morte ainda não fora embora. Elas estavam ali, caindo na água, urrando, cuspindo sangue. E mais criaturas apareciam. Haviam muito mais do que eu imaginava. Aquela beirada de chão de concreto, estavam completas, não estavam focando só naquele ponto onde estivéramos, estavam se espalhando por aquelas ruas. Parecia uma concentração de coisas mortas, todas urrando, todas desesperadas por mais sangue. Criaturas caiam na água. Se debatiam por segundos e afundavam.
Francisco arfava, provavelmente de dor.
Por mais que nos afastássemos. Mais alto eram os urros de sede. De dor. De desespero. De angústia. O cheiro de morte, de sangue e de podridão não nos deixava. Não ficava para trás. Meu nariz e meus olhos ardiam.
Carla e Beatriz estavam abraçadas. Tremiam de frio por causa do suor que secara. Precisamos de comida e água. Eu estava fraco e tonto por causa de tanta água que perdera por causa do suor. Felipe estava pálido demais. Seu corpo inteiro tremia, parecia que ele iria desmaiar, seus braços estavam roxos, seus olhos não haviam brilhos, estavam turvos. Suor pingava de seus cabelos, escorriam pela testa até seus olhos e ele não piscava. Se não fosse pelos espasmos que ele produzia, poderia dizer que ele estava morrendo. A única coisa que o mantinha ali, que não o fazia desistir era sua irmã. A irmã que ele não sabia estar viva ou não. E Francisco suava e eu acho que ele está com febre. Seu braço continua sangrando.
"E Julie? Onde ela está? Ela não está no meio da morte."
Isso não é hora de pensar nela. Ela já está morta. Desde no dia que ela caíra naquele valão. É no que acredito. Ela merece descansar, descansar em paz.
Eu estava na proa, olhando para a água tranquila tentando controlar meu espanto e meu enjoo; Agora Carla e Beatriz estavam atrás de mim descansando e pensando sei lá o que, talvez comemorando silenciosamente que estão seguras, já não tremiam como antes; Felipe estava no meio, remando, sem ajuda e sem reclamar do esforço que está fazendo. Ele só quer chegar ao local seguro e encontrar sua irmã. E isso está lhe dando forças para superar as fraquezas do próprio corpo; E o não tão importante e quase morto, estava Francisco sentado na outra proa gemendo de dores. O que era justificável. Seu corpo estava coberto de suor e sangue. Seus braços e pernas haviam marcas de unhas e mordidas, sem dizer um pedaço de camisa que está empapado e gotejando sangue. Sua espada estava encharcada de sangue e isso a deixou ainda mais sinistra.
Felipe remava com pressa para chegar a pequena ilha que estava a nossa frente. Ainda estava longe. Mas eu sabia, ele sabia, aquele era o local seguro. Tem que ser. Eu o agradeço por não se permitir parar até estarmos salvos. Sou um inútil comparado a ele. Essa é a coragem que tanto pedi?
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Sangue Morto
ActionOBRA REGISTRADA NA BIBLIOTECA NACIONAL (ISBN) * 29 de setembro de 2013. Foi o ano que o terror começou a andar sobre a terra. De tantos bilhões de seres humanos, apenas um parecia ter sobrevivido a uma pandemia que destruiria a raça humana. Yudi é...
