Pelo jeito não voltaremos para esse esconderijo. Mas nos arriscar é a única forma de conseguir respostas. Isso é inevitável. Espero que a noite eu conseguia escrever um pouco mais.
*Foi por pouco, em?*
Jim tinha total conhecimento de minha vida. Até porque ele sou eu. Acredito. E quando ele me disse para me manter ligado em tudo mesmo estando com outras pessoas, ele teve razão. É até engraçado estar pensando nisso. Hoje foi um dia maluco, mas consegui sobreviver. Todos nós sobrevivemos.
Já são dez horas da noite de acordo com o relógio em cima do aparado da sala da casa da irmã do Felipe. Conseguimos.
*Não comemore, ainda não acabou.*
Hoje é dia onze de outubro, faltam dois dias para o meu aniversário. Sei nem porque ainda me importo com isso. Não tem nem o sentido de comemorar isso.
Felipe diz para dormirmos cedo, mal ele sabe que a insônia é uma das minhas amigas mais íntimas.
""_A história é a seguinte. Depois de quase ter sido morto por um adulto covarde e ter andado em paz por alguns dias, invadindo algumas casas, ter passado fome, e tudo o mais, eu encontrei com o Felipe, Beatriz e Carla. Estou com eles no momento. Então não tenho muito o que contar mais. Mas escrever me ajuda a me libertar de uma forma que essas pessoas não entendem, nem conseguem. Escrever me alivia desse terror.
_Então, espero que vocês, ou qualquer pessoa que tenha essas cartas, não se preocupem. Ainda tenho coisas para escrever.
_Eu já havia escrito, que estava me aproximando do presente. E ele chegou. Então só tenho o que escrever as coisas que aconteceram no meu dia atual.
_Hoje é 11/10/2013, daqui a 2 dias eu já terei 17 anos. E pela primeira vez passarei o dia sem meus pais por perto. Eles quase nunca paravam em casa, vocês lembram deles, né? No meu aniversário eles faziam sempre o possível para passar o dia comigo. Dessa vez não sei se eles farão o impossível. Mas vocês não precisam saber do meu drama.""
""_Enfim, voltando ao dia de hoje... Depois que saímos do esconderijo, Felipe foi o guia e nos levou por um caminho que ele achara ser o mais seguro a seguir. Carla passou todo o momento ao seu lado, ambos conversavam sobre sabe se lá o quê, e Beatriz me acompanhara.
_Os dois carregavam mochilas com armas, as poucas munições, água e algumas comidas enlatadas. Enquanto eu só carregava minha mochila quase vazia e a arma na cintura como Felipe me ensinara.
_Beatriz às vezes puxava conversas que eu nem sabia como responder e isso me deixara envergonhado e incomodado, porque eu não sabia como respondê-la. Eu espero que ela não tenha ouvido quando eu comentara sozinho sobre o meu aniversário.
_– Quando você percebeu que o mundo estava diferente? – ela me perguntara.
_Essa eu soube responder.
_– Foi no meu último dia de aula. Seria o meu último dia na escola também. Então eu acabei indo. Mas demorei para perceber o cheiro de sangue que havia na escola. Mas algo me chamava, curiosidade?! Foi quando eu vi...
_– Mas nem estamos em dezembro, como seria o último dia de aula?
_– A minha escola é um pouco diferente. Mas enfim. Foi isso.
_– Eu não faço a mínima ideia de como as coisas aconteceram. Eu perdi toda a minha família e a pessoa por quem fui tão apaixonada. – ela me contara.
_As coisas são engraçadas até certo ponto de coincidência.
_– Eu não sei onde estão os meus pais. Eles nunca paravam em casa então para mim foi um dia normal acordar e não os encontrar. Sempre estavam trabalhando. Eu perdi uma pessoa por quem fui apaixonado por muito tempo. – eu lhe contara sobre Julie. – Nós nunca fomos namorados... quer dizer, perdera entre aspas né, porque a última vez que eu a vira ela estava atrás da minha vida.
_– Como assim? – foi engraçado a cara que ela fizera.
_– Não sei como. Mas ela é uma dessas coisas. Ela matara o próprio irmão, meu melhor amigo. Minha professora. Meus colegas de classe.
_Ela parecia chocada. E deveria. Eu não perguntei, mas ainda quero saber o que aconteceu com o namorado dela, com a família...
_– Lamento...
_Não parecia sincero as palavras dela. Me pareceu algo duvidoso, que nem ela sabia se deveria lamentar ou não. O que não importa se foi ou não sincero, não mudaria o passado.
_– Mas o que aconteceu?
_– Sobre?
_– Seus pais e esse garoto?
_Ela fitava o céu. Seus olhos brilhavam com a luz do sol.
_– Que garoto, Jim? Você quer saber o que aconteceu com a minha paixão?
_Meu rosto esquentara. Eu pude sentir. Ainda bem que ela não me olhara.
_– Sim.
_– Eu gosto de ouvir histórias, Jim. De saber sobre o passado, sobre as coisas que aconteceram. Eu gosto de ouvir planos para o futuro, ter esperanças de que as coisas podem melhorar. Mas não me sinto confortável de narrar a minha história.
_– E?
_– E que eu não me sinto confortável. – seus olhos ainda brilhavam. Eram tão sérios. Eu não conseguira nem imaginar o que se passava em sua cabeça, nem entendê-la.
_– Você se sente confortável em ouvir planos para ter esperanças de um futuro diferente, mas não se sente confortável de lembrar o seu passado? Ter esperança nesse mundo é pedir para sofrer mais do que já se sofre no presente. É se torturar com expectativas.
_– Não é assim que as coisas funcionam comigo, Jim.
_– Não me importo como você se sente com isso, eu lhe contei sobre Julie. Conte-me o que acontecera e eu lhe conto como ela matara o próprio irmão.
_– Você tem audácia.
_Não havia motivo para sorrir. Mas eu havia sorrido.
_Mas seu silêncio durara por longos minutos.""
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Sangue Morto
AçãoOBRA REGISTRADA NA BIBLIOTECA NACIONAL (ISBN) * 29 de setembro de 2013. Foi o ano que o terror começou a andar sobre a terra. De tantos bilhões de seres humanos, apenas um parecia ter sobrevivido a uma pandemia que destruiria a raça humana. Yudi é...
