PARTE I - APARTAMENTO 303 [ATUALIZADO]

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     Me pareceu uma boa ideia colocar essas pedras na entrada da gruta, mas agora para sair eu penso no quão trabalhoso foi e perigoso. Foi uma ideia estupida. Começando por ficar cansado e lento caso precise fugir, sem dizer que se isso desabasse com alguma criatura tentando entrar eu estaria morto na hora.
     Preciso prestar atenção no que consigo ouvir lá fora. Preciso tirar as pedras, pedra por pedra, devagar.
     Acho que é uma grande vitória conseguir sair e não encontrar nenhuma criatura. Há um shopping aqui por perto, talvez eu consiga chegar lá em segurança. Tem bastante lojas em que posso pegar algo útil. Preciso reabastecer minha mochila. Quer dizer, eu preciso de uma mochila nova, porque essa já está aos trapos sem comentar sobre minha roupa.

     Quase perdi o meu braço, mas consegui escapar e chegar ao shopping vivo.
     Pontos positivos? Meu braço está inteiro. E por sorte não tive nenhum machucado nesse infeliz encontro. Eu ainda não sei como as pessoas foram transformadas, não sei se foi por mordida, arranhão ou sabe se lá por qual motivo. Mas é melhor eu evitar ao máximo me ferir.
     Pontos negativos? Meu braço está doendo e marcas vermelhas de dedos podres enfeitam minha pele. Sem falar que mais uma criatura tem o meu cheiro. Já perdi as contas de quantas criaturas já me perseguem tentando me matar ou me devorar vivo, vai saber...
     Estou em uma loja de colchões, finalmente poderei descansar confortavelmente e mais sossegado agora que baixei as grades de segurança da loja.
     O shopping sofreu bastante dano, mas não parece ter nenhuma criatura aqui dentro, assim eu espero. Logo continuarei contando o que aconteceu no apartamento do Caio, mas antes, preciso descansar um pouco de verdade.
     Pela primeira vez eu senti a sensação de ser corajoso. Estou aprendendo. Sinto isso.

*

""_Eu não queria e nem deveria criar esperanças, mas o sentimento de encontrar alguém vivo, um amigo vivo, é algo reconfortante. E foi reconfortante ter sentido um pouco de esperança.

_Por um ato de loucura mesmo, penso eu, eu pegara uma pedra do jardim e atirara para o outro lado, na direção oposta, contando que eles fossem correr até a origem do som.
_Foi em vão.
_Espero que vocês não se esqueçam como eu havia esquecido. Essas coisas são surdas e cegas, é o cheiro que as atraí. O cheiro as faz se locomoverem. As pessoas têm cheiros diferentes, mas sangue tem cheiro forte. É sempre o mesmo cheiro. OK. Eu sei que às vezes isso tudo aqui escrito possa estar confuso. É enlouquecedor estar vivo em uma situação dessa. Não me julguem por meus atos.""

     Vocês fariam as mesmas coisas se estivessem vivendo no meio desse pandemônio.

""_Até aquele momento, eu não havia encontrado nenhum animal, possa ter passado despercebido, mas nem pássaros eu havia visto. Então como um estalo mágico, um gato branco caiu em cima de uma das criaturas, provavelmente caíra de umas das janelas. Vai saber.
_Ele miava alto enquanto arranhava a cara de uma daquelas coisas. Aquela criatura ganhou quatro fissuras na cara podre e um olho leitoso estourado que vazava sangue. Mas o gato fora pego pelo rabo.
_Queria dizer que o gato escapara com vida, mas sabemos que isso não iria acontecer.
_Mais duas criaturas se jogaram em cima, cada uma tentando pegar algo daquele animal. Os urros estridentes eram irritantes e incômodos. Mas por cima de todo aqueles urros, o som que o gato fizera fora mais alto e muito pior. Fora possível sentir todo o desespero e dor que ele sofrera naqueles poucos segundos.
_Era a minha única chance e eu tive que aproveitar. Era preciso. Então obviamente eu corri enquanto aos poucos o silêncio começava a crescer. Naquela hora eu não conseguira olhar para trás. Minhas pernas tremiam e eu tive medo de tropeçar e cair de cara no chão. Não teria sido a primeira vez, mas teria sido a minha última.
_Eu entrara no prédio com um desespero que vocês já conhecem, trancara a porta com o trinco e sem pensar subi as escadas de dois em dois, até porque não seria muito legal ficar preso no elevador.
_303.
_Silêncio.
_Tocar a campainha a essa altura do que estamos vivendo não era uma opção muito viável, mas como eu havia dito, não julguem meus atos... eu tocara a campainha e com um pouco de ansiedade e medo eu esperara alguns segundos. Mas nada. Não havia ninguém. Por sorte eu havia tentado abrir a porta e descobrira que estava aberta. Eu precisei entrar.
_Sabe aquele vazio que você sente quando não encontra respostas? É o que sentir em estar parado no meio da sala quando entrei no apartamento. O único barulho era da televisão que chiava baixo.

_Na cozinha tudo estava em ordem, não havia nada de se estranhar a não ser pelo pano de pelos que estava largado sobre a mesa da cozinha, que mais tarde descobrira ser o gato da família. Não faço a mínima ideia do que acontecera a ele, mas ele estava morto.
_Em meio a dúvidas e medo do que poderia encontrar, procurei nos quartos, ambos estavam vazios. Então voltara para sala e tentara usar o telefone, mas qualquer número para qual discava só dava caixa postal, ninguém atendia. Tentara discar para números aleatórios que estavam na agenda ao lado do telefone, e para minha surpresa um dos números para qual liguei atendera, mas no mesmo segundo desligara. Não faço a mínima ideia de quem era, porque não conseguira ligar novamente.""

     Certo, vocês têm alguns minutos para imaginar o tamanho da minha euforia naquele momento.

""_Eu não tinha ideia do que pensar, mas naquele momento eu só senti que pela primeira vez em dias que eu não estava só nesse caos. Parece bobagem né?! Já que eu não tinha a mínima ideia de quem era e de onde morava. E sim, eu liguei diversas vezes e todas caíram na caixa postal. Provavelmente a pessoa estava tão assustada quanto.
_Eu precisava acordar para o real, eu precisava sair dali e continuar meu caminho. Mas algo naquele momento me prendera àquele lugar. Foi quando pela primeira vez eu começara a sentir o cheiro fraco de ferrugem. Meu cérebro saltava dentro da minha cabeça. De onde estava vindo?! alguém gritava sangue sem parar.
_O banheiro fora o único lugar que eu não olhara desde que entrara ali. Eu não estava preparado para saber de quem era, mas eu sabia do que se tratava. Eu precisava. Curiosidade...O cheiro de sangue fora o suficiente para fazer minhas pernas tremerem quando abri a porta. O medo me dominara mais uma vez com um soco no estômago. Havia sangue no sanitário, na pia, no espelho e uma poça no chão. A cada segundo que eu inspirava aquele cheiro, mais medo me dava e o que eu havia visto quase me fizera cair...""

Sangue MortoHistórias para pegar e não largar. Descubra agora