Luzes Da Cidade

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Acabei pegando no sono ali sentada com ela dormindo com a cabeça apoiada em minhas pernas, quando acordei o pescoço doía, e já havia anoitecido, devia ser quase meia noite, a única claridade no apartamento era a que entrava pela porta de vidro onde ficava a sacada, luzes da cidade que iluminavam levemente o rosto de Wendy.

Apesar de estar desconfortável e com o corpo dolorido, eu não queria me mexer, tinha medo que isso a fizesse acordar, além disso eu estava com fome, meu estômago roncou tão alto que parecia até um motor de avião, e foi dele a missão ingrata de acorda-la.

Ela acorda assustada e começa a olhar em voltar, parecia não se lembrar de onde estava, então me vê sentada no sofá e se acalma.

___ Acabei dormindo, quando acordei pensei que estava naquele quarto outra vez.

___ Eu também apaguei aqui. Foi muita coisa para um único dia né?

___Posso te pedir um favor?

___ Claro.

___ Não quero mais falar disso, não por enquanto, me faz muito mal, tenho medo, ainda não sei controlar minhas emoções, não 100%.

___Tudo bem, não vou tocar nesse assunto, só vamos falar disso quando quiser, e se quiser.

___ Obrigada.

___ Não sei você, mas eu estou com muita fome.

___ Estou sem fome.

___Mas vai me acompanhar para a ceia. Quando eu era criança minha babá sempre me dizia que tudo ficava mais fácil com um bom prato de comida.

___ Nesse caso defina " bom"? Seria algo nutritivo ou gostoso?

Tive que rir.

___ Eu sei, minha comida é um horror, mas tenho coisas congeladas que devem estar comestíveis e boas.

___ Sua comida não é tão ruim assim, a do Kaio era bem pior, aquilo nem devia receber o nome de comida.

Me senti um pouco mais tranquila, se ela estava fazendo piadinhas o que era bem raro, então devia estar se forçando a não pensar mais no assunto, a não fuçar na dor agora. Acho que não era bem dor que ela sentia, afinal nem lembrava da família, devia ser mais o horror por como tudo aconteceu e fato dela não poder fazer mais nada para mudar as coisas, nem ao menos colocar o assassino na cadeia.

___Tenho lasanha congelada e refrigerante, e de sobremesa, chocolate. Tá bom para você?

___ Era brincadeira Giulia, juro que sua comida não é tão ruim e isso está perfeito.

___ Então senta ai, te aviso quando estiver pronto.

Eu estava indo para cozinha preparar tudo quando ela me chama.

___ Hey Giu.

___ Oi?

___ Obrigada por tudo, pela paciência, pelo cuidado, por se arriscar, por tentar me entender, mesmo sendo difícil.

___ Eu faria mil vezes se fosse preciso, não precisa me agradecer.

Cada elogio, agradecimento, sorriso, me fazia ficar feliz, aos poucos ela ia se apegando mais a mim e quem sabe chegaria o dia em que ela voltasse a me amar. Aprendi acreditar e esperar milagres.

Comemos assistindo TV no meu quarto, e falando sobre o filme The Firefly, um romance do tipo fofinho, que acabei adorando, apesar de não ser meu gênero de filme favorito. Eram quase duas da manhã quando ela foi para o seu quarto dormir.

___ Tem certeza que não quer dormir aqui?

___ É melhor eu ficar no meu quarto, talvez eu não consiga dormir e não quero que fiquei acordada por minha causa.

___Eu não me importo.

___ Mas eu me importo, já te dou aporrinhação suficiente para umas dez vidas.

Dei um beijo em sua testa e deixei que ela fosse para outro quarto, talvez ela precisasse de um tempo sozinha e eu tinha que respeitar isso, por mais que me preocupasse , eu não poderia tirar todas as suas angustias e dores.

De qualquer forma a noite não foi tranquila, um pouco depois de pegar no sono acordei com os gritos de terror dela no seu quarto, levantei de um salto e temi pelo pior.

Ela estava sentando na cama, olhos esbugalhados de medo e muito suada, mas não havia ninguém ali e nem parecia haver nada de errado.

___ Calma Wendy, foi só um pesadelo.

___ Não Giulia, foi muito mais que isso.




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