Adeus

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___ Então ela te disse que foi um acidente?

Ele tinha aquele sorriso de triunfo no rosto, ele poderia até cair, mas ia me destruir junto. Tentei fazer ele se calar, mas era mais um ato de desespero do que algo eficiente.

___Cala boca, foi um acidente.

Wendy agora olhava de mim para ele, tentando entender o que estava acontecendo.

___ Giulia bebeu estava nervosa e acabou batendo carro, foi isso.

___Ah, sim Drei, mas ela não contou o principal, ela bateu o carro de propósito.

Não pude evitar o olhar horrorizado que Wendy me lançou, uma parte dela parecia lutar para não acreditar naquilo, e cada palavra que meu tio dizia parecia me rasgar por dentro. Eu nunca iria confessar isso, mas também não tinha forças para continuar a mentir, eu havia batido o carro de propósito, e por mais que me explicasse ela me odiaria para sempre, isso era certo.

Ela mantinha o olhar fixo em mim, talvez esperando que eu negasse, coisa que não fiz, só abaixei minha cabeça.

___ Giulia? Por favor, isso não é verdade, certo?

Não respondi nada. E ela soube que era verdade.

___ Viu só, ela queria mesmo te matar.

Não, eu nunca quis matar Wendy, como eu iria explicar que nunca quis o mal dela, que tive uma ideia em um momento de bebedeira? Como ela iria acreditar em mim?

___ Eu nunca iria te machucar de propósito, eu não queria que acabasse assim, a intenção era me machucar e não matar você.

Comecei a sentir medo quando percebi que uma explosão de fúria se aproximava, aquelas pupilas se dilatando a uma velocidade assustadora, a respiração ficando mais forte, quando achei que ela pularia no meu pescoço e me quebraria ao meio, ela se vira e fala com uma voz quase sussurrante para meu tio.

___Você sempre me surpreende, doutor Klaus. Vamos ao que interessa, Giulia, pegue o esparadrapo e prenda Kaio, não quero surpresas enquanto o doutor estiver na máquina. Depois volte e vem me dizer o que fazer.

___ Eu te contei tudo, você não pode fazer isso comigo, você tem que...

Ele nem chegou a terminar a frase, Wendy bateu com a coronha do revolver em sua cabeça fazendo com que desmaiasse, quis falar com ela, tentar me explicar melhor, mas ela não estava afim de conversar, agia como se nada tivesse acontecido, mas eu via a raiva se acumulando a cada segundo, ela nem conseguia me olhar.

___ Vai logo amarrar o Kaio, quero acabar com isso de uma vez.

Por sorte Kaio ainda estava apagado no mesmo lugar. Passei o esparadrapo primeiro por seus tornozelos, e depois pelos pulsos, por fim colei um pedaço em sua boca, só por garantia. Voltei para sala onde Wendy estava com Klaus.

___Agora Giulia, me diz o que fazer com ele. Como essa droga de máquina funciona?

___ Preciso dar um sedativo forte para que ele não acorde.

___ Então prepara logo.

Fui até a sala de medicamentos e peguei tudo que precisava, Wendy se mantinha parada encostada na parede olhando tudo que eu fazia.

___ Wendy, a gente precisa conversar, me deixa explicar o que aconteceu naquela noite.

___Eu não quero conversar agora, só quero que faça o que tem fazer.

Wendy havia colocado meu tio deitado na maca ao lado da máquina, preparei o sedativo, o ideal seria uma anestesia, mas eu não tinha recursos para isso ali, peguei uma veia e apliquei, aquilo faria ele dormir pesado por um bom tempo. Cortei seus cabelos com uma tesoura e raspei o resto com uma lamina de barbear, então olhei o gráfico na parede, marquei os pontos com canetas, e colei os fios com adesivo e gel.

Fiquei olhando para o botão que ligava a máquina sem conseguir me mexer, era a primeira que fazia aquilo. Wendy veio até onde eu estava e mesmo com Klaus desacordado ela fala em seu ouvido.

___ Meu nome não é Drei, é Wendy, pena que não vai se lembrar disso quando acordar.

. Então ela aperta o botão que liga a maquina. O corpo de Klaus começou a tremer, senti um leve cheiro de queimado, a coisa não durava muito então desliguei, era o suficiente, quando ele acordasse não saberia nem próprio nome, e não teria nenhum acréscimo a sua mente, só perdas. Estava feito.

___ Pronto, agora Giulia, ele é responsabilidade sua, leve para onde achar melhor, vá até a casa dele e destrua tudo que achar relacionado a isso aqui. Vou cuidar do Kaio.

___ O que vai fazer com ele?

___ Dar dinheiro e pedir para ele sumir com corpo de Quatro. Ele vai ficar caladinho. Depois vou destruir tudo aqui. Não vai sobrar nada se a Beta Mind vier procurar.

___ E depois?

___ Depois? Não sei, eu tenho dinheiro, vou sumir por ai.

Sumir? Aquilo me atingiu como um soco, claro que ela tinha raiva de mim e com razão, mas eu esperava que ela ficasse na cidade em algum lugar onde eu pudesse ao menos ter noticias.

___Sei que não mereço, mas me deixa ao menos explicar.

___ Fala, mas cuidado com que o vai dizer, eu estou a um passo minúsculo de quebrar o seu pescoço.

Engoli em seco, um pouco de agua agora seria bem vindo, mas fiz o possível para formular a explicação que nem eu mesma conseguia entender.

___Eu nunca quis te matar, nem ao menos te machucar, eu estava tão desesperada por ter te perdido, achando que nunca mais íamos ficar juntas, você sempre foi uma pessoa boa e leal, eu pensei que se talvez me se machucasse bastante, você ficaria cuidando de mim por um tempo e isso te faria voltar. Eu queria me machucar, me arrebentar, mas tudo saiu errado.

___ Você destruiu a minha vida, foi coisa mais idiota que já ouvi.

___ Eu sei, me arrependo disso todos os dias.

___ Infelizmente se arrepender não vai mudar o que aconteceu.

___ Não suma, por favor?

___Eu não tenho condições de ficar perto de você, a raiva que sinto e forte demais. A gente se separa aqui Giulia, vou te ajudar a colocar seu tio no carro e você vai embora.

Não havia mais nada que pudesse dizer, ela tinha razão, eu não merecia nada, nenhuma consideração. Ela pegou Klaus e jogou nos ombros, eu ainda me admirava com a força física que ela tinha adquirido, colocou no banco de trás. Fiquei parada ainda pensando em algo para dizer, algo que fizesse com que ela mudasse de ideia.

___ Eu te amava tanto que me perdi, fiz tudo errado.

___Jeito estranho de amar. Querendo me dominar, ser minha dona. Adeus Giulia.

Entrei no carro, não percebi como o tempo havia passado rápido, era quase noite, liguei o motor e arranquei, ainda olhei uma última vez para Wendy, que agora voltava para dentro para acabar o serviço.

Meu peito doída como se eu estivesse tendo um ataque cardíaco, mas era só minha alma se despedaçando.







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