A Cura para Caetano

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Nota da Autora: Eita, que esse me deu trabalho. Espero que gostem ;)
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“-Encontrei Belle caída às margens do Rio Washita. Foi baleada pelas costas...Ela escondeu Nahoa embaixo do seu corpo.”-Agnes falou chorando.
Ao ouvir as palavras de minha filha, levei minhas mãos à cabeça e me ajoelhei, implorando por uma explicação, implorando ao céu que me dissesse o porquê desse massacre. Tantas pessoas inocentes morrendo por causa de sua raça, sua cor, por serem um ‘problema’ para a sociedade. Nada fazia sentido. Deus estava furioso conosco. Não sei bem ao certo quanto tempo fiquei naquele estado catatônico. Sabra me tirou de meus pensamentos:
“-Ana, o cavalo tá pronto.”-Sabra construiu rapidamente uma maca, com pedaços de madeira e cordas, para colocarmos Vitória deitada e para que fosse puxada sem maiores impactos ao seu corpo gravemente ferido. Seriam dois dias de viagem até em casa. Eu precisava me agarrar à ideia que ela sobreviveria à viagem. Pode soar egoísta, mas não me vejo mais sem ela.
“-Sabra, tem certeza que isso é seguro?”
“-Claro! Fazemos esse suporte há gerações para carregarmos os feridos em batalhas.”-Me tranquilizou. Sabra, percebendo minha preocupação, tentou me acalmar. “-Escuta Ana, Vitória semrpe foi a mais forte de nós três. Ela é durona e vai sobreviver. Tenho certeza. Ela é bastante teimosa.”-Minha cunhada me puxou para um abraço.
Sem demora, Agnes pegou Vitória, com cuidado, e a colocou na maca, no cavalo de Sabra. Depois, minha filha foi até as margens do rio, pegou o corpo de Belle e o acomodou em Caramelo.
“-Mãe, quero dar à ela um enterro decente. Vou levá-la para Northfolk conosco.”-Minha filha disse sem conter sua emoção. Apenas acenti com a cabeça e subi em ventania com Nahoa em meus braços. Trovão veio atrás de nós, protegendo nossa retaguarda.
Conforme íamos passando pelo acampamento, agora sem vida, Sabra comentava com pesar:
“- Ninguém sobreviveu. Nem os cavalos. O exército deve ter feito algumas amazonas de prisioneiras. Estão faltando umas quarenta ou cinqüenta mulheres e crianças.”-Sabra conhecia bem Pedra da Lua.
“-Sabra, fico pensando se não devíamos, enterrá-las. Nayara sumiu e levou o corpo de Júlia. Acho que foi para enterrá-la.”-Falei.
“-Vamos deixá-las aí. Os pássaros e lobos se encarregarão de espalhar sua carne pela terra. Lá...elas vão alimentar de novo nossa Mãe Terra.”-Sabra suspirou e continuou: “-O que vai fazer com Nahoa?”-Quis saber.
“-Vou deixá-la em segurança enquanto Nayara não volta para buscá-la, Sabra. Por hora é só o que posso fazer.”-Falei olhando para a pequena que se acalmou e dormiu.
Cavalgamos por várias horas e ao anoitecer, paramos para descansar. Fui examinar e trocar alguns curativos de Vitória que continuava desacordada. Agnes, acendeu uma fogueira e gentilmente fez um chá para meu estômago que estava queimando:
“-Obrigada, filha.”-Agradeci pegando a caneca de sua mão.”
“-Já triturei o milho que encontramos e misturei com água como a senhora pediu, mãe, mas Nahoa ainda está dormindo.”-Falou enquanto me ajudava com os ferimentos de Vitória. Sabra havia entrado no meio da mata para encontrar madeira e folhas para construir um abrigo para passarmos a noite.
“-Agnes, fique com Nahoa que eu termino de trocar os curativos de Vitória.”-Minha filha acentiu, deixou um beijo no rosto machucado de sua mãe e foi cuidar do bebê.
Já faziam horas que Vitória estava desacordada e eu não conseguia saber os danos internos dela. Precisava que ela acordasse logo:
“-Amor, abre os olhos, por favor...não me deixa sozinha...”-Falei baixinho perto de seu rosto, como se fosse uma prece, na esperança que ela me ouvisse e atendesse meu pedido.
“-Ni...Ninha...onde estou? O que....”-Ela sussurrava sem abrir seus olhos.
“-Shhhh! Não faz esforço agora, Vitória. Tu tá muito machucada. Os soldados te machucaram muito. Tamos te levando de volta pra casa.”-Tentei acalmá-la. “-Vitória, me escuta...eu preciso te examinar. Não sei quais foram teus danos internos. Vou apalpar em alguns lugares e tu me diz o que tá sentindo, tá?”-Falei calmamente e ela acentiu com a cabeça. Eu já havia percebido seu braço direito quebrado mas precisava ir mais à fundo. Apalpei suas costelas e ela deu um grito de dor. Duas costelas quebradas. “-Calma, amor...preciso te examinar.”-Disse e continuei o exame. Desci para suas pernas e continuei tocando em seus machucados. Elas não reclamou. Olhei-a com preocupação. Ela não reclamava de dor. Peguei um graveto e passei por suas pernas para testar seus reflexos e ela não se mexeu.
“-Ni..ninha...eu não sinto minhas pernas...”-Ela falou ainda de olhos fechados.
“-Sente isso?” Passei o graveto embaixo de seu pé e ela nem se mexeu.
“-O que está acontecendo, Ninha? Eu não sinto nada...”-Falou, respirando com dificuldade.
“-É...um tipo de paralisia...eu não sei ao certo...”-Falei atordoada.
“-Eu estou paralítica?”-Vitória conseguiu abrir um de seus olhos e me encarava.
“-Pode ser temporário, amor...Pode ser algum acúmulo de fluídos na tua medula espinhal. Eles te bateram muito. Precisamos de tempo pra saber se será permanente.”
“-Quanto tempo, Ana? Não minta pra mim...”-Vitória falou em lágrimas.
“-Eu não sei, Vi...eu não sei..”-A verdade é que eu não tinha perspectivas mas mesmo assim, segurei minhas lágrimas. “-Vou te dar um remédio pra dor.”
Dei uma medicação forte para que Vitória dormisse a noite toda. Descansar bem era fundamental para a recuperação de seu corpo.
De manhã bem cedo, mesmo antes do sol raiar, desmontamos nosso acampamento e seguimos para casa.
Chegamos por volta das quatorze horas da tarde. Agnes havia pedido à Lucas para que tomasse conta de Arthur e Maria. Fomos recebidos por eles:
“-Mainha, que saudade!”-Arthur veio me abraçar. “-Cadê a mãe?”-Perguntou olhando atrás de mim.
“-A mãe Vi tá machucada, Arthur. Sabra e Agnes tão trazendo ela.”-Falei tentando não chorar.
“-De quem é esse bebê?”-Lucas veio trazendo Maria pela mão.
“-É de Nayara. O exército atacou Pedra da Lua.”-Lucas não perguntou mais nada. Seus olhos marejados me diziam que ele havia entendido o que acontecera.
Nesse momento, Sabra e Agnes traziam Vitória com todo cuidado para que não houvesse maiores danos em sua coluna. Arthur olhava incrédulo para sua mãe.
“-Mãe...se o exército atacou a aldeia, o que aconteceu com Belle e as amazonas?”-Ele perguntou segurando firme sua gaitinha de boca contra seu peito.
“-Elas se foram, filho...”
“-Não pode ser, mãe...Belle é só uma garota...e por que bateram na minha mãe?”-O pequeno encheu seus olhos d’água e correu para longe de nós. Lucas quis buscá-lo, mas o impedi:
“-Lucas, obrigada por cuidar das crianças. Cuide de Nahoa, por favor. Eu não posso ficar com ela. Preciso cuidar dos meus filhos e de Vitória.”-Entreguei o bebê à ele.
“-Mas Dra. Caetano, eu não entendo nada de bebês e...”-Ele parou de falar quando viu Nahoa lhe olhando e sorrindo. Deixei os dois em seu momento e fui atrás de Arthur. Corri até a floresta atrás de nossa casa e o encontrei chorando, sentado em um tronco de árvore caído:
“-Filho, tu não vai lá dar um beijo na tua mãe? A gente tem que tá junto dela agora...”-Falei baixinho, acariciando os cabelos de meu filho.
“-Por que essas coisas acontecem, mainha? Por que coisas ruins acontecem com as pessoas boas? Minha mãe está toda machucada e uma aldeia toda desapareceu...Por que, mãe?”-Me olhava com seu rostinho molhado como se eu tivesse todas as respostas.
“-Não sei, meu filho...Não faz sentido...nada disso faz sentido...”
“-Acho que não gostavam delas por que eram índias e Belle, uma fora da lei, mas sabe mãe, eu não me importava...Belle era minha amiga...”-meu pequeno escondia o rosto entre suas mãos para que eu não o visse chorando.
“-Sabe filho, acho que Belle ia ficar muito feliz se tu tocasse a música que ela te ensinou.”-Puxei a gaitinha que estava em seu bolso e lhe entreguei.
“-Ela não pode mais me ouvir tocando...”-Ele falou triste.
“-Será? Eu não sei...tua mãe Vi sempre fala que os espíritos estão presentes em todo lugar. Acho que ela vai estar sempre contigo toda vez que tu pensar nela. Sempre que tu tocar, ela vai estar contigo.”-Ele tocou os primeiros três acordes de ‘Oh, Suzana’ e desabou chorando em meus braços. Fiquei com ele até que se acalmasse.
Voltamos para casa e fui tratar de Vitória. Lucas já havia ido embora e Agnes começava a preparar a janta.
“-Agnes, deixa que eu cozinho. Vou fazer uma sopa pra tua mãe. Ela não deve conseguir comer nada sólido por enquanto.”-Agnes nem me escutou. Estava desolada. Recém havia voltado do cemitério da cidade. Pastor Simas a ajudou com o enterro de Belle. “-Filha?”-Chamei.
“-Tá, mãe...já vou preparar a janta..”
“-Não, filha, deixa que eu faço. Vai descansar. Tenta dormir um pouco. Tu deve tá cansada também.”-Falei abraçando-a por trás.
“-Eu quero ajudar, mãe...preciso me ocupar...”-Falou triste.
Alguns dias se passaram e os machucados de Vitória estavam cicatrizando. O inchaço em seu rosto havia diminuído e agora eu podia ver meu par de olhos preferido. Mas suas pernas não respondiam aos estímulos. Naquela tarde, fui mais cedo para casa pois sabia que Agnes e as crianças estariam em Corre Ventos e Sabra não poderia cuidar de Vitória. Entrei em nosso quarto e Vitória estava recostada na cama e seu almoço estava intocado, na mesinha de cabeceira:
“-Oi, amor.”-Beijei-lhe os lábios mas não fui correspondida. “-Por que tu não comeu?”-Experimentei a comida que agora, estava gelada.”
“-Ana, quando eu vou voltar a andar?”-Me perguntou séria.
“-Vi, pode levar tempo eu te diss...”
“-Quanto tempo, Ana!”-Alterou sua voz para mim.
“-Eu não sei, Vi...Pode demorar dias, meses ou...”-Eu não queria dizer em voz alta mas esse pensamento não saía de minha cabeça.
“-Ou? Ou o quê, Ana?”
“-Ou ser permanente...”-Ela esmurrou a cabeceira da cama com o braço que estava bom mas sentiu o impacto nas costelas, gemendo.
“-Vi, não faz assim. Tu vai te machucar ainda mais...”
“-Machucar ainda mais? Ana, eu tô morta por dentro! Como tu acha que eu me sinto sendo um peso pra ti? Vendo te desdobrar em três pra manter a casa, cuidar das crianças e eu aqui, deitada nessa cama? Tu acha que eu me sinto como te vendo aí toda cansada e se acabando à cada dia que passa? Eu devia cuidar de ti e não ser um fardo...”-Falou sem nem me olhar.
“-Vitória, pode parando por aí. Não existe isso de tu ser um ‘fardo’. Tu é minha esposa. Eu jurei tua mão não soltar e não vou soltar. Pode ficar braba se quiser, mas não vou te deixar.”
“-Eu não quero que tu sinta pena de mim...”-Vitória falou ressentida.
“-Então vou fazer um acordo contigo: não vou sentir pena de ti se tu parar de sentir pena de ti mesma.”-Peguei o prato com o almoço de Vitória e fui para cozinha esquentá-lo.
Voltei para o quarto e ela parecia mais receptiva à mim:
“-Vi, tu tem que comer pro teu corpo se recuperar logo.”-Ajeitei um travesseiro em seu colo e deixei o prato pra ela. Ela comeu algumas garfadas e falou:
“-Pastor Simas veio me visitar hoje de manhã. Ele perguntou por que tu não tá indo na Igreja. Eu nem sabia que tu não tava indo na igreja.”-Falou e continuou comendo.
“-Não vou mais à Igreja, Vi...não sei mais em quê acreditar...”-Falei triste.
“-Como não, Ninha? É tua fé! É importante pra ti. Tu sempre conta como teu Deus te salvou quando tu era criança e agora não acredita mais?”
“-Ele nos esqueceu, Vitória. Já faz um tempo que venho pensando nisso...Deus está morto.”
“-Ninha, tu tá triste e magoada com tudo. Eu também tô mas não culpo a Deusa por essa injustiça toda que está acontecendo.”-Vitória tentou me fazer mudar de idea.
“-Eu não tenho tempo pra acreditar numa fantasia de criança, Vitória. Preciso cuidar da minha família, que é algo real que tenho e assim será daqui para frente. Vou me dedicar somente à vocês.”-Eu estava realmente muito triste e com o espírito enfraquecido. Provavelmente se minha mãe me ouvisse, ela me daria uns tapas bem fortes.
“-Óia, Ninha, não posso te dizer o que fazer. Acreditar ou não é uma escolha tua. Mas acho que tu também precisa achar tua cura. Tu também foi machucada nesses dias.”-Vitória disse me entregando seu prato vazio. Deixei o seu prato de lado e mudei de assunto:
“-Por enquanto eu prefiro focar na tua cura, Vitória. Eu mandei alguns telegramas para Letícia e ela me enviou alguns artigos científicos sobre os estímulos no sistema nervoso central. Uma coisa que percebi é que os músculos ficam atrofiados pela falta do movimento. Eu vou massagear tuas pernas todos os dias, pra aumentar a circulação do sangue nos membros inferiores e assim tuas pernas não ficarão atrofiadas.”-Me posicionei próxima à cama e comecei massagear suas pernas. Vitória logo falou:
“-Ninha, de que adianta isso? Não sinto nada...”
“-Por favor, Vitória, me deixa te ajudar. Eu tô me sentindo uma inútil. Não consigo parar de pensar que eu poderia ter feito mais alguma coisa por Pedra da Lua. Me deixa tentar te ajudar.”-A essa altura minhas lágrimas já caíam por sobre as pernas de minha esposa.
“-Ninha, o que mais tu poderia ter feito contra um exército armado? A gente fez tudo que pôde, Ana.”-Vitória tentou me acalmar.
“-Meu coração tá despedaçado. Eu não durmo mais, Vitória...acordo no meio da noite achando que seremos atacadas. Por que eu deixei Belle ir junto? Eu tô presa na escuridão, Vi...”-Vitória me puxou pra perto de si:
“-Deita do meu lado aqui, Ninha.”-Eu estava tão cansada. Me aconcheguei em minha esposa, tomando cuidado para não machucá-la e adormeci.
Acordei num sobresalto.Tive um pesadelo com o massacre em Washita. Passei as mãos em meu rosto, virei para o lado e Vitória ainda dormia. Vi que ainda era cedo da tarde. Precisava ir ao mercado por que a despensa estava vazia.
Cheguei no mercado e encontrei Lucas com Nahoa em um cestinho de vime que ele fez para acomodá-la:
“-Oi, Lucas. Como está Nahoa?”
“-Boa tarde Dra. Caetano. Nahoa está bem. Ela nem dá trabalho e quase não chora. No primeiro dia que trouxe ela pra casa, ela chorou um pouco e tive um pouco de dificuldade para alimentá-la. Sorte que Maro me ajudou, amamentando-a algumas vezes. Agora ela está se adaptando com a mamadeira, né princesa?”-Ele levantou o cestinho e vi Nahoa, deitada, bem confortável, sobre uma coberta de lã de ovelhas e bem tapadinha com uma manta. Ela segurava um cavalinho de pano que Lucas lhe deu e olhava, atenta à tudo, com seus olhinhos brilhantes.”-Ela fica o tempo todo comigo no estábulo. Ela gosta dos cavalos.”-Sorri ao ver Lucas falando com a ternura de um pai mas meu sorriso morreu ao lembrar que em algum momento, Nayara viria buscar sua filha.
“-Olha Lucas, eu te agradeço por cuidar da pequena mas...”-Lucas me interrompeu.
“-Desculpe, Dra. Caetano, mas deixei o estábulo sozinho. Vim aqui no mercado bem rapidinho pegar mais alguns panos para fraldas e preciso ir. Diga à Vitória que amanhã vou lá visitá-la e levarei Nahoa pra ela vê-la.”-Me disse sorrindo.
“-Tá bem, Lucas. Ela vai gostar muito da visita. Eu aviso sim.”-Ele se despediu cordialmente e voltou para seus afazeres.
Comecei a fazer as compras e Tiago, que recém entrara, teve que ser inconveniente como sempre:
“-Lucas vai ficar com aquela bebê índia? Não sei se é boa ideia ela ficar por aqui.”-Falou assim que cruzou com Lucas, pela porta.
“-Tiago!”-Manoela o repreendeu.
“-E o que sugere que ele faça, sr. Iorc?”-Perguntei.
“-Que se livre dela, Caetano. Ela vai crescer e nos odiar, como todas da aldeia dela.”-Tiago pegou um maço de cigarros e começou a fumar.
“-É só um bebê inocente! Como tu ousa a falar uma coisa dessas?”-Falei.
“-A sorte é que sempre podemos contar com o exército. Sabia que o general Dantas vai ganhar uma cerimônia póstuma reconhecendo seu heroísmo em Washita?”-Tiago me acertou em cheio com aquele comentário infeliz e eu perdi a compostura. Bati com meu punho fechado contra o balcão e fui de encontro à ele:
“-Não houve heroísmo algum em Washita! O que houve foi um massacre covarde e vil! Elas eram costureiras e estavam desarmadas!”-Explodi gritando e meu estômago começou a queimar de dor.
“-Calma, Ana Clara! Tiago é um infeliz mesmo. Não deixe ele te atingir.”-Manoela falou me puxando para fora do armazém.
Ela ficou comigo até que me acalmasse um pouco antes de ir para casa. Passamos alguns minutos em silêncio e ela disse:
“-Ana, muita gente tem escrito sobre essa batalha. Tu esteve lá. Posso escrever tua história.”
“-Manoela, eu não estou muito bem ultimamente. Preciso pensar se quero contar sobre isso. Obrigada por me ajudar lá dentro.”-Me despedi de minha amiga e voltei para casa.
Mais tarde, naquela mesma noite, depois que minha família havia jantado e foram dormir, eu peguei meus livros e fui para cozinha estudar. Era madrugada quando escutei o som de uma coruja. Eu sabia que não era um animal e sim, o código de Nayara. Abri a porta e a encontrei escondida entre alguns arbustos:
“-Nayara! Que bom que tu tá bem!”-Falei baixinho, abraçando a Xamã.
“-Eu nunca devia ter deixado Júlia, Ana...”-Nayara chorava em meu ombro.
“-Não foi tu que causou isso, Nayara. Eu tô arrasada também. Foi meu povo que fez isso ao teu...Me sinto tão mal...”
“-Não se pode viver com raiva e culpa, doutora. É tempo de nos curarmos.”-Nayara falou saindo de meu abraço.
“-Eu não sei como...”-Falei triste.
“-Os espíritos irão nos ajudar, minha irmã...tenho certeza disso...”-Nayara falou enxugando suas lágrimas.
“-Eu não sei dizer se seus espíritos existem...nem sei mais como me sinto sobre meu próprio Deus...”
“-Só por que estamos zangadas com Eles, não quer dizer que se foram.”-Nayara continuou: “-Ana, eu não tenho muito tempo. Gostaria de ver Vitória mas preciso levar Nahoa.
“-Mas Nayara, não acha melhor deixá-la aqui? Lucas está cuidando muito bem dela.”-Tentei argumentar
“-Encontrei algumas Chayenne e elas vão cuidar de minha filha. Irão passar todo conhecimento do nosso povo para ela, para que nossos costumes não morram.”
“-Preciso falar com Lucas. Levaremos ela até você amanhã à noite. Onde nos encontramos?”
“-Embaixo do grande carvalho. Esperarei vocês lá ao anoitecer.”-Nayara me abraçou e nos despedimos rapidamente.
Entrei em casa novamente e fui ver meus filhos. Arthur dormia sozinho na cama que dividia com Maria. Fui até o quarto de Agnes e puxei mais uma coberta para ela. Fui até nosso quarto e Maria dormia abraçada em Vitória. Maria era muito agarrada com a mãe. Era uma briga para fazê-la deixar Vitória descansar. Voltei para a sala e fiquei esperando o dia amanhecer. Precisava falar com meu amigo sobre devolver Nahoa à sua mãe. Eu estava tão cansada...
Antes do sol nascer, deixei o bule com café pronto sobre o fogão à lenha, os pães, cortados, sobre a mesa e deixei um bilhete para Agnes.
Cheguei no estábulo  e fui direto ao ponto. Lucas não gostou nada:
“- Ela quer Nahoa de volta?”-O ferreiro falou enquanto dava mamadeira à pequena.
“-Pode levá-la até o grande carvalho, hoje à noite?”-Perguntei.
“-Não...eu quero ficar com ela, Dra. Caetano. Eu quero adotá-la.”-Disse embalando o bebê.
“-Lucas, por favor... eu não sabia...mas precisa devolver para mãe dela. Ela não quer que os costumes se acabem. Nahoa será uma líder das chayenne quando for a hora.”
“-Eu posso criá-la em segurança, doutora...eu posso comprar uma casa e...”-Lucas estava nervoso e tremia muito. Seus olhos já estavam marejados.
“-Eu sei que pode, Lucas. Escuta, meu amigo, se não houvesem mais chayennes que pudessem criá-la, tenho certeza que não haveria uma pessoa melhor para cuidar dela do que tu, Lucas.”
“-Eu não quero que ela seja caçada por soldados ou que morra de fome em uma reserva...”-Lucas chorava muito enquanto falava.
“-Acho que essa parte depende de nós.”-Falei com tristeza, vendo meu amigo abraçando a neném e acariciando suas bochechas rosadas.
Aquela noite, próximo ao grande carvalho, fazia muito frio. Eu levei alguns medicamentos em minha carroça para Nayara levar consigo:
“-Nayara, te agradeço por tudo que tu me ensinou e por tua amizade. Te trouxe uns medicamentos. Pode ajudar lá na reserva.”-Falei entregando à ela a caixa.
“-Obrigada, Dra. Caetano. Eu sumirei por uns tempos. O exército está atrás de mim pela morte do general. Eu assumi a culpa.”-Nayara falou.
“-Nem sei o que te dizer, Nayara. Eu sei que não foi tu e...”
“-Fui eu. Para todos os efeitos, foi minha flecha que atravessou a cabeça daquele maldito.”
Ouvimos a carroça de Lucas chegando. Ele parou seu cavalo próximo de nós e desceu calmamente com Nahoa em seus braços:
“-Posso me despedir dela, Nayara?”-Lucas perguntou, com a voz embargada.
“-Claro, sr. Lucas. Obrigada por cuidar de Nahoa.”-Nayara agradeceu.
“-Princesinha, eu quero que tu saiba que uma ex-fora da lei salvou tua vida, uma mulher branca te amamentou e um homem negro cuidou de ti como uma filha e que se não houvesse mais ninguém por ti, ele seria teu pai. Tu vai crescer como parte de um povo corajoso e maravilhoso...Teu nome, Nahoa, significa Vivendo na Esperança. Eu vivo na esperança que tu cresça  feliz, saudável e que não seja julgada pela cor da tua pele.”-Lucas tinhas suas mãos caleijadas e ásperas por causa do seu ofício mas mesmo assim, não deixou de acariciar com cuidado o rosto da pequena. Deixou-lhe um beijo terno e entregou-a para sua mãe.
O ferreiro sentou-se no chão, com as pernas encolhidas enquanto via Nayara partir.
“-Lucas, vamos embora...”-Toquei em seu ombro.
“-Doutora Caetano, eu vou ficar mais um pouco.”-Ele abraçou seus joelhos e escondeu seu rosto entre os braços.

Narrador PoV:
Doutora Caetano então, deixou seu amigo próximo ao grande carvalho e subiu em sua carroça para voltar ao seu lar. Ela estava cansada e fraca. Havia perdido parte do que lhe deixava forte. A tristeza e o cansaço à impediam de pensar claramente nas coisas e foi sem prestar atenção que pegou um caminho errado na volta para casa. Entrou em uma parte da floresta que não conhecia. O caminho era pedregoso e quando deu por sí de onde estava, uma pedra enorme apareceu em seu caminho e ela passou com a roda da carroça por cima:
“-Ah, não! Era só o que me faltava...a roda quebrou...e agora Trovão?”-A doutora desceu para ver se a roda estava muito ruim. Estava quebrada em três partes.
Ela deu a volta na carroça, desencilhou Trovão e levou-o até o riacho ali perto. O som da água parecia uma canção harmonizada pelo barulho dos sapos e grilos :
“-Que lugar é esse?”-A lua iluminava pouco o lugar mas ela sabia que era uma parte desconhecida por ela da floresta.
Dra. Caetano já ia montar em Trovão para voltarem para casa, quando ouviu alguém se aproximando. Ela chegou mais perto, com curiosidade, para ver quem era e uma senhora índia revelou-se por de trás das árvores, segurando uma tocha acesa:
“-Ora! Visitas. Boa noite.”-Disse a velha índia.
“-Boa noite. Me desculpe mas estou perdida. A senhora sabe que lugar é aqui?”-A doutora perguntou cordialmente.
“-Eu conheço a senhora! A senhora é a Dra. Caetano! Olha, sua fama corre pela floresta. Soubemos da doutora branca que ajuda à todos, sem distinção de raça ou cor. Isso é bastante raro por aqui. O que a senhora faz nessa parte da floresta?”-A idosa perguntou enquanto acendia uma fogueira para se aquecer.
“-A senhora me conhece? Mora aqui perto? Não lembro de tê-la visto em nenhuma tribo que já atendi.”-Doutora Caetano perguntou curiosa, já se sentando próxima à fogueira e esfregando suas mãos para aquecê-las.
“-Eu moro nessa parte da floresta. Já faz muito tempo que ando por aqui. Mas me diga, a senhora parece cansada. Tem dormido bem?”-A velha índia perguntou, colocando algumas folhas de chá em infusão para ferver.
“-Eu estou cansada. Me sinto fraca e sem ânimo. Fazem dias que não consigo dormir.”-Sem perceber, a doutora já estava com seus olhos cheios d’água. Ela tentou segurar as lágrimas. Não queria chorar na frente de uma desconhecida.
“-Tudo bem, doutora, pode deixar que elas saiam...Sei que a senhora está triste, magoada e com raiva. É bom para a alma deixar que as águas rolem de vez em quando. São águas que curam.”-A anciã alcançou uma caneca com o chá pronto para a doutora, que aceitou de bom grado.
“-O que tem nesse chá?”-A doutora cheirou o conteúdo da caneca. O vapor embaçou seus óculos.
“-São ervas paregóricas. Vai ser bom pro teu estômago. Pode tomar.”-Enquanto Caetano saboreava o chá, lembrou-se que não havia falado com a índia sobre sua dor de estômago. Teria sido coincidência? Nesse momento, a doutora levantou seus olhos para observar melhor a velha índia. Olhou no fundo de seus olhos e achou que quase podia ver através dela. Então a mulher lhe sorriu e seu perfume pareceu envolvê-la, tirando todo peso de seus ombros. Sentiu-se mais leve que o ar. Sentiu-se sonolenta. A velha índia pegou nos ombros de Caetano e deitou-a gentilmente em seu colo. A doutora, já quase entregue ao cansaço e ao sono, falou:
“-Eu sei quem é Você. Sua presença e seu perfume estavam sempre comigo quando eu era criança. Eu Lhe reconheci. Por que parou de falar comigo? Por que deixou esse massacre acontecer? Eu fiz alguma coisa que Lhe desagradou?”-Dra. Caetano, forçava seus olhos à ficarem abertos e encararem a Índia:
“-Eu sinto muito, Ana clara. Sei o tamanho do abismo que isso abriu entre nós. Quero curar essa ferida que cresceu dentro de ti, filha. Nada eu podia fazer quanto ao que aconteceu em Washita. Eu vos dei o livre-arbítrio. Não posso interferir nas ações de vocês. Mas Eu nunca te abandonei. Estive e estarei sempre ao teu lado.”-As palavras da Anciã penetravam constantemente na mente e no coração da doutora que conseguiu relaxar.
“-Eu me sinto perdida... Eu devia ter feito mais alguma coisa por Pedra da Lua...Belle...”-Caetano falou em um sussurro.
“-Não se preocupe, filha, eu estou cuidando delas e Isabelle, Eu mesma vim buscá-la quando tudo aconteceu. Tudo vai ficar bem, Ana.”-Disse a Anciã acariciando os cabelos da doutora. Ficaram um minuto em silêncio e a Velha Índia continuou: “-A dor tem a capacidade de cortar nossas asas e nos impedir de voar. E se essa situação persistir por muito tempo, você pode quase esquecer que foi criado originalmente para voar. Respire, Aninha. Feche os olhos e esqueça onde está. Deixa o grito do silêncio falar, ouça, ouça. Abra as portas e as janelas do ar e deixe a luz do sentimento entrar.”-Caetano lutou para encontrar as palavras que expressassem o que estava sentindo:
“-Eu queria Lhe contar sobre meus filhos, como são maravilhosos e o quanto Vitória me faz feliz...”
“-Eu adoraria conhecer seus filhos através de seus olhos. E seu casamento com Vitória me fez tão feliz. Foi uma cerimônia linda. Obrigada por me convidar.”-Doutora Caetano colocou a mão no bolso de seu casaco e puxou o colar que havia feito para Vitória, sussurou algo e embarcou no mundo dos sonhos. A Anciã ainda ficou um tempo observando o sono da doutora e falou: “-Você pode falar comigo sempre que quiser, filha. Estarei sempre aqui para te ouvir.”

Ana Clara’s PoV:
Acordei com os relinchos de Trovão. Eu dormi enquanto voltava para casa. Lembro de ter deixado  Lucas perto do grande carvalho e acho que apaguei voltando para casa. De qualquer forma, esse cochilo me deixou bem melhor. Meu peito estava mais leve e uma sensação boa voltava a habitar meu corpo.
Desci em silêncio para não acordar ninguém, levei Trovão para o celeiro, coloquei ração para os animais e entrei em casa. As crianças já dormiam mas Vitória me esperava acordada:
“-Oi, amor, tá sem sono?”-Falei baixinho para não acordar as crianças.
“-Tava te esperando. Tu demorou. E Lucas? Como tá?”-Vesti minha camisola e fui deitar com minha esposa.
“-Lucas tá arrasado. Ele ficou lá e eu voltei sozinha. Foi estranho. Eu dormi no caminho de volta. Acordei aqui na frente de casa.”-Me acomodei, abraçando Vitória.
“-Mas essa soneca te fez bem, Ana. Tô te achando diferente. Não sei direito o que é, mas tá diferente.”-Disse e deixou um beijo em minha cabeça.”
“-Ah, quase esqueci, eu fiz um colar pra ti.”-Levantei e peguei o colar que estava no bolso do meu casaco.
“-Que lindo, Ana! Essas pedras e essas garras de falcão! É a coisa mais linda! Obrigada, amor.”-Me beijos os lábios e colocou seu colar no pescoço.
“-E tu? Tá te sentindo melhor hoje?”-Perguntei me aconchegando mais nela. Meus pés estavam frios, então os enrosquei nos pés de Vitória que são sempre quentes.
“-Hoje tô me sentindo bem. Meu braço direito quase não dói. Quero pedir para Agnes amanhã instalar um pedaço de madeira sobre a cama. Tô achando que dá pra prender uma corda lá em cima, no forro e pendurar o toco de madeira pra eu poder exercitar meus braços, pelo menos. Eu tive pensando nisso hoje.”-Vitória me falou animada.
“-Que bom, amor! Mas não força muito o braço direito. O esquerdo pode fa...”-Parei de falar por que senti algo se mexer, tocando em meu pé. Me levantei rapidamente, retirando as cobertas de cima de Vitória.
“-Que foi, Ninha?”-Vitória perguntou assustada.
“-Eu senti uma coisa.”-Corri na mesinha de cabeceira e peguei meu lápis. Passei embaixo do pé de Vitória e vi seu dedão mexer por reflexo. “-Vi! Teu dedão mexeu!”-Falei alto e acordei as crianças.
Rapidamente as crianças já estavam em nosso quarto, paradas na porta:
“-O que houve, mainha? Ouvimos um grito. Aconteceu alguma coisa com a mãe?”-Agnes perguntou preocupada.
“-Aconteceu, filha! Olha!”-Passei novamente o lápis na sola do pé de Vitória e seu dedão mexeu novamente.”-Reflexo, filha! Os reflexos de sua mãe estão voltando!”-Arthur e Maria subiram em nossa cama e começaram a pular abraçados, comemorando.
“-Calma, crianças, se vocês quebrarem a cama, não vou poder consertar agora.”-Vitória falava rindo e algumas lágrimas desciam por seu rosto. Eram águas que curam. Não lembro onde ouvi isso, mas era muito verdadeiro.
Aquela noite dormimos todos juntos, abraçados em Vitória.

Narrador PoV:
Ainda naquela mesma noite, em um estábulo  na vila de Northfolk, um homem solitário fitava com os olhos marejados para o fogo que acendeu para se esquentar naquela noite fria.
Seus pensamentos iam diretamente para uma indiazinha valente de olhos brilhantes e um sorriso que iluminou sua vida triste.
Seu olhar se direcionou para o cestinho que fizera para a pequena e não pode deixar de pensar se ela estava aquecida e confortável. Será que iriam alimentá-la direito? Será que a protegeriam como ele a protegeria?
Então, com esses pensamentos, fez a única coisa que podia e que há muito tempo não fazia: ajoelhou-se e orou baixinho. Pediu à Deus que protegesse Nahoa de todo mal.
E foi perdido nos próprios pensamentos e oração que ouviu alguém batendo em sua porta.
O humilde ferreiro passou a manga da camisa em seus olhos para secar suas lágrimas e foi atender a porta com a certeza de que haviam lhe trazido algum cavalo para trocar as ferraduras. Mas aquela hora da noite?
“-Boa noite, sr. Lucas.”-Os olhos do ferreiro se iluminaram quando viram a pequena no colo de Nayara.
“-Boa noite, Nayara. Entre, por favor, está frio aí.”-Ele abriu mais a porta para que ela entrasse.
“-Não tenho muito tempo. Estava à caminho da reserva e pensei melhor. O senhor cuidou muito bem de Nahoa e vi como ficou depois que a peguei de seus braços. É um bom homem.  Poderia cuidar dela para mim? Acho que ela ficará melhor com o senhor do que na reserva. Ela é tão pequena e já passou por tanta coisa...”-Nayara falava triste enquanto fitava sua pequena dormindo.
“-Seria uma honra para mim cuidar dela. Eu queria adotá-la, se possível.”-O ferreiro falou baixinho enquanto acomodava a pequena em seus braços.
“-Apenas diga à ela, se ela perguntar por mim, que sua mãe a ama muito mas infelizmente não tem condições de cuidar dela. Não deixe que ela se perca e se possível, ensine-a a amar todas as formas de vida.”-Nayara deixou um beijo na testa de sua pequena, montou em seu cavalo e partiu.
Lucas abraçou Nahoa contra seu peito e ficou um tempo de olhos fechados, apreciando a sensação de tê-la novamente consigo.  Acomodou sua pequena em seu cestinho e a cobriu bem, aquecendo-a. Colocou o cestinho próximo de sua cama e finalmente, conseguiria dormir bem.
Aquela noite, Deus estava contente.


Nota da Autora: Dos três capítulos que escrevi dessa sequência (Washita, A Cura Para Caetano e o próximo capítulo que ainda não vou revelar agora), esse foi o mais difícil. Eu precisava fechar algumas pontas que ficaram soltas do capítulo anterior e começar os processos de cura dos personagens, o que deixou esse capítulo bem longo também. Eu não queria que o encontro de Ana na floresta fosse um diálogo raso mas também não queria algo extenso e filosófico demais, até porque nem entendo muito do assunto. E por falar no encontro da floresta, será que foi real ou sonho? Me diz aí o que achou.
Sobre o destino de Nahoa, ela voltaria para a reserva mas toda cena que eu escrevia dela com Lucas me emocionava e então decidi que eles ficariam juntos. Enfim, mais uma vez agradeço à ti que vem comigo sempre nessa viagem e que abraça junto comigo Dra. Caetano. Sei lá, tô meio emotiva hoje. Kkkk Um beijo e um excelente final de semana ;) Até sábado que vem.

Dra. CaetanoOnde histórias criam vida. Descubra agora