Vítor Hugo
— Muito melhor agora! — Carlos Amaral bradou, batendo as mãos com energia.
Duda se adiantou a mim, fez quarta posição de pernas, e assim que segurei a cintura dela, a fiz girar pirouettes.
Nossos passos evoluíram para saltos, giros e elevações, até que a garota repousou aparentemente morta, o corpo esticado mas quase caindo, a cabeça muito baixa, sendo segurada por meu braço.
Meus dedos quase se soltaram das costas dela, porém a segurei, e fiquei empolgado que enfim nosso ensaio tivesse agradado o exigente diretor.
— Obrigado — ele agradeceu neutro.
Os cantos da boca dele se arquearam levemente pra cima, quase sorrindo.
Duda e eu batemos as palmas das nossas mãos no ar em comemoração.
— A gente arrasou, Vítor — ela deu pulinhos.
— Com uma bailarina tão talentosa como você como parceira, não tem como não ficar bom — respondi com sinceridade.
— Ah, pára, vai — a garota revirou os olhos, inclinando levemente a cabeça para o lado. — Nós dois somos talentosos. Somos uma dupla.
Sorri, concordando. Era verdade.
Duda não me soltou do abraço e seus olhos negros como uma noite escura cheia de perigos se fixaram nos meus. Um sorriso adorável brincou na boca carnuda da garota.
— Você quer comer? — ela perguntou.
— Oi? — viajei.
— Quer sair pra comer alguma coisa? As meninas devem estar jantando num restaurante, eu acho que a gente podia fazer o mesmo.
Minha carteira tinha ficado na escola. Foi Danny quem pagou minha conta na padaria de manhã, e eu estava faminto.
Merda! E se meu dinheiro não estivesse mais lá? A única chave da sala ficava com a Micaela, então nem seu Inácio podia entrar, mas minha desconfiança era muito forte pra não acreditar que alguém arrombasse a porta com pé de cabra e roubasse nossos pertences.
Dissipei na hora esse temor ridículo. As únicas coisas que supostos ladrões achariam eram collants suados das meninas, cuecas e calcinhas sujas esperando por uma lavanderia.
— Eu tô sem dinheiro — confessei vexado. — Foi a Danny que pagou o pão na chapa e o café que eu comi hoje cedo.
— Não tem problema. Eu pago.
— Duda, eu não posso aceitar.
— Deixa de ser orgulhoso. Você tá com fome, não pode ficar sem comer nada.
— Nem tô com tanta fome assim — menti, mas meu estômago protestou roncando.
— Eu não aceito não como resposta. E depois, não fica bem uma garota jantar sozinha.
— Mesmo assim…
— Vítor Hugo, eu tenho dinheiro — a garota pontuou a palavra dinheiro. — É o dinheiro do meu patrocínio, o mesmo que paga minhas viagens pra dançar no exterior. Olha só, tem um restaurante que serve comida mineira aqui perto, eu tô louca pra comer feijão tropeiro. Topa?
Ao ouvir feijão tropeiro, meu estômago deu uma cambalhota.
— Tá bom.
— Legal, me espera no corredor, que eu vou tomar banho. Quer tomar junto comigo?
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Danielle
RomancePara Danielle, nada é mais importante do que o balé. Seu sonho é dançar nos maiores palcos do mundo e superar sua mãe, a lendária Françoise Cocu - o Cisne Branco -, um mito da dança clássica. Durante uma competição de dança em Ribeirão Preto, a...
