Danielle
Quando meu pai finalmente me deixou tirar as caneleiras de 4 kg, depois de quase uma hora de aula de barra a tèrre, minha malha estava ensopada de suor, e meu corpo, salgado e fedido.
O odor era o de menos. Bailarinas não são necessariamente as mulheres mais cheirosas do mundo, não é? Todos os meus músculos pareciam ter nós e eu estava sofrendo com câimbras. Para fechar a manhã de tortura, Daniel Răducanu me fez executar duzentas loucas abdominais. Tinha como não achá-lo adorável?
Me levantei do chão toda trôpega, cambaleante. Cada passo que eu dava pelo quarto vinha seguido de uma careta de dor. Pior que amanhã teria mais. Mas só amanhã.
— Acho que a Rosário preparou o café da manhã — meu pai disse com voz tranquila.
Rosário era o nome da filha do dono do hostel. Era uma moça loura, de olhos negros, covinhas no rosto, e muito sorridente.
Assenti, passando os dedos nos cabelos. Desfiz o rabo de cavalo, me sentei numa das beliches.
Valéria, Fabíola, Marcos e João, nossos colegas de quarto, disfarçavam risinhos, deitados preguiçosamente em suas respectivas camas. Eram quatro mochileiros de Mato Grosso do Sul, dois casais, que passavam a vida viajando e tiravam seu sustento do canal monetizado que tinham no YouTube.
Eles assistiram minha aula de chão com o encanto típico de quem vê pela primeira vez como é a preparação de uma bailarina antes de dançar, e me elogiaram.
— Menina, tu faz isso todo dia? — João era o mais simpático do grupo.
— Quase todo dia — respondi.
— De uma coisa tenho certeza — Valéria tirou um diário da mochila cargueira. — Não nasci pra ser bailarina.
O som das nossas risadas preencheu o quarto. Os hóspedes da suíte ao lado resmungaram, obviamente incomodados com o barulho.
Os quatro aventureiros pularam de suas camas e foram se juntar aos outros hóspedes na mesa de refeição.
Me levantei, arrumei a calcinha por dentro da malha. Os olhos do meu pai encontraram os meus. Sorri com ternura pra ele, que retribuiu passando seu braço comprido e musculoso em volta do meu corpo fino e dolorido.
— Senti sua falta — confessei.
— Também senti — ganhei um beijo na testa.
— Pai, sobre o Vítor Hugo…
— Não precisa me explicar nada. A vida é sua. O corpo é seu.
Meu pai era avesso a fazer cobranças. Não que eu quisesse fazer da minha vida o que bem entendesse. Tenho certeza que o Daniel me mandaria para a Sibéria se eu cometesse a maldade de promovê-lo a avô aos trinta anos de idade.
Me estapeei mentalmente ao pensar nessa possibilidade.
— O Antony vem amanhã. Meu figurino de O Quebra Nozes está com ele.
— Gosto dele. Espero que vocês se casem.
— Não estamos com pressa. Por enquanto, é melhor que cada um more na sua casa.
— Pai… Eu posso te dizer uma coisa?
Daniel Ponor, o Primeiro Bailarino da Companhia Paulistana de Ballet, um artista que parecia não se abalar com nada, que não sabia o que era sentir pressão, subitamente franziu o cenho. Vi preocupação em seus olhos, azuis iguais aos meus e aos da Françoise. Levei a mão à boca pra disfarçar um riso.
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Danielle
RomansaPara Danielle, nada é mais importante do que o balé. Seu sonho é dançar nos maiores palcos do mundo e superar sua mãe, a lendária Françoise Cocu - o Cisne Branco -, um mito da dança clássica. Durante uma competição de dança em Ribeirão Preto, a...
