Capítulo 49

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          Danielle

      Joguei um pouco de água no meu rosto e me olhei no espelho, com a assustadora impressão de que a qualquer momento a porta atrás de mim se abriria e meu ex-padrasto entraria, soltando uma risada apavorante igual a dos bruxos dos contos da Disney.

      Me virei instintivamente para a porta recém escancarada, abafando com a mão um grito que queria escapar da minha garganta. Era a bailarina loura de mecha cor-de-rosa, que abaixava uma das alças do collant enquanto entrava no banheiro.

      — Preciso fazer xixi! — a porta se fechou com um estrondo que todo mundo deve ter ouvido.

      Fechei os olhos, inspirando e expirando, numa tentativa vã de me acalmar.

      Pus minha mochila numa das gavetas, fechei o cadeado, e me persignando com o sinal da cruz, saí em direção à sala de aula.

      Os rostos das meninas eram os mesmos de ontem. As expressões faciais, olhares, posturas altivas e graciosas, de nada diferiam das que eu vi na aula que meu pai deu ontem, e no entanto, era tudo diferente. Pra mim, era opressivo.

      Andei até meu lugar na barra e notei a furto que alguns alunos me acompanhavam com atenção. 

      Todo mundo tá vendo que não tô bem, dizia a mim mesma.

      Desde pequena aprendi que uma bailarina não leva suas frustrações, seus medos e inquietações da casa para o estúdio, e que tudo isso deve ficar da porta pra fora, pra que ela possa brilhar. O desapego dos problemas pessoais nos torna leves, nos faz flutuar quando saltamos e cria uma conexão perfeita entre corpo e alma. É um caminho inequívoco para a sensação de um vôo perfeito em direção às estrelas, que se torna real quando dançamos no palco.

      Isso nunca foi difícil pra mim, porque eu nasci com o balé no DNA. O balé era o meu oxigênio. Essa completude me protegia de tudo o que podia me entristecer, me impulsionava a ir além das minhas forças e me distinguia de uma garota comum. Nada me abalava quando eu dançava. Nada me jogava pra baixo. 

      Mas depois que vi o Laerte e todas as lembranças tristes voltaram à minha cabeça com o efeito devastador de uma tempestade que arrasa tudo, achei que pelo menos naquele dia a dança não poderia me dar alento.

      Ânimo, me pedi.

      Duda se postou à minha frente na barra, me olhando com preocupação ao se virar.

      — Você tá bem? — ela pôs o indicador e o médio no meu rosto.

      — Não. Eu vi o Laerte — respondi.

      — Você tá brincando.

      — Não tô. Eu vi. Meu padrasto, o filho da puta que me largou na estrada pra morrer de frio, tá aqui em Ribeirão Preto.

      Minha amiga arregalou os olhos, pôs a mão em frente à boca. Eu não era de dizer palavrões, principalmente com aquele ódio visceral, junto com medo, que estavam me corroendo.

      — Vocês conversaram?

      — Ele fugiu de mim. Se fez de idiota, disse que não conhecia nenhuma Danny, mas aí eu refresquei a cabeça dele. Ele juntou todas as pulseiras dele, colares… Puta que pariu, Duda! O Laerte virou... riponga!

      — Mas você disse que ele era um cara fino, elegante, que só vestia grife. O que aconteceu com ele?

      — Eu não sei. Não tô nem aí com o que aconteceu com ele, deve estar tendo o que merece pelo que fez comigo e com a memória da minha mãe. Mas eu vi o vi, e tô em choque. Sabe o que é um fantasma do passado voltar pra te assombrar?

DanielleHistórias para pegar e não largar. Descubra agora