Capítulo 16

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      Minha transa com o Vítor Hugo foi melhor do que eu poderia imaginar. Eu nunca iria esquecer. Mas eu não podia perder meu foco, que era o balé, e tinha que ser honesta comigo mesma ao me lembrar que o que aconteceu entre nós foi casual.

      Senti que meu corpo desobedecia todos os avisos de alerta que minha razão dava. Aquele bailarino tinha um magnetismo, algo forte o suficiente para desestabilizar uma garota. Não sei se era aquele sorriso, aqueles olhos invasivos ou a boca que se entortava graciosamente do lado esquerdo tipo Edward Cullen, mas eu meio que fiquei em transe enquanto esperava ele falar.

      — Nada — fiquei frustrada com a resposta.

      De repente, Pedro Botelho entra causando na sala, e disfarcei fazendo três ou quatro piqués até chegar ao meu lugar na barra. Nicole estava atrás de mim, beliscou meu bumbum, e vi um sorriso irônico em seus lábios ao me virar.

      — Pena que o professor entrou — ela disse fazendo uma série de tendus en croix. — Tem que ser mais ligeira, sardentinha.

      — Não me chame de sardentinha — admoestei-a. — E não sei do que você tá falando.

      — Vocês dois disfarçam muito mal.

      — Disfarçar o quê? Explica, Nicole Nágila.

      — Ah, meu Deus, que sonsa... — a neta de libaneses revirou os olhos. — Danny, você não percebeu?

      Neguei com a cabeça.

      — O Vítor Hugo tá a finzão de você, garota.

      — Não seja boba, Nicole — me irritei. — Que nada a ver.

      — Nada a ver por quê? — a garota de um olho azul e outro castanho faz um soutenu devant com um demi rond seguido de um port de corp na barra, ignorando minha falta de paciência.

      — Somos só amigos — expliquei.

      Fiquei de costas para ela. Desci em grand plié e ao subir, fiz um atittude derriere.

      — Amizade colorida é mais do que amizade — a risadinha sardônica da Nic me fez perder a concentração e quase caí.

      Olhei para o teto balançando a cabeça negativamente e virei a cabeça para o outro lado, onde Vítor Hugo estava. Ele havia recobrado sua postura de aluno atento e dedicado. Era o que eu iria fazer também. Sem distrações com sexo masculino.

      Fiz tantos tendus na minha vida que esse exercício se tornou um dos meus preferidos. Como tenho o colo de pé mais alongado, ele acaba chamando a atenção de todos os professores. Não é todo mundo que consegue se sentar e fazer a ponta do pé tocar no chão.

      Carlos Amaral, impassível e quieto ao lado do suporte do som, fazia anotações na sua prancheta, alternando com olhares atentos em cada exercício que fazíamos, e eu não fazia a menor idéia do porquê. Claro que isso não era da minha conta.

      Pedro desligou o som para corrigir a postura da Nicole, que fazia o tendu derrière torcendo a cintura e mandando o bumbum lá pra trás. Gostei da explicação do emprego das forças opostas, se bem que a Letícia dava essa explicação sempre. O problema é que esquecíamos.

      Pobre Nicole! Junto com a Fabrícia, a Renata e o Enzo, foi a bailarina mais corrigida durante a aula. Não que eu tivesse sido perfeita. No grand battement, em que a gente sai de quinta posição raspando o chão e levanta a perna o mais alto possível, me esqueci de fundamentos bobos.

DanielleHistórias para pegar e não largar. Descubra agora