Vítor Hugo
Com certeza, a melhor parte de um espetáculo é quando ele termina. O que não quer dizer que antes que comece não seja legal. Sempre gostei de ver a casa se enchendo pouco à pouco, de me verem ensaiando e de posar para fotos com admiradores e pessoas do nosso meio.
Eu carregava aquela sensação tão gratificante de missão quase cumprida, estava em paz comigo e com o mundo. Danny fez muito mais do que me ensinar o significado verdadeiro da palavra amor. Deu sentido à tudo na minha vida que havia perdido cor, fez de mim um homem novo, e eu queria fazer tudo valer a pena.
Um pouco depois da marcação de palco, à pedido dela, liguei para meus pais contando que estávamos namorando. Minha mãe ficou feliz. Já meu pai fez uma de suas brincadeiras, dizendo que eu o havia puxado.
— Trate de respeitá-la e dar todo o amor que ela merece, ou você vai se ver comigo, mocinho — dona Carmem Lúcia exigiu em tom de ameaça.
— Pode deixar, mãe. Tchau.
Faltava contar para o pai da bailarina, mas eu não acha que ele fosse impedir. Eu havia conquistado seu respeito. E eu era o melhor para sua filha.
Tânia Dressler pediu pra rodar o filme do Curso de Verão da Promoarte e segurei à custo a vontade de chorar ao ver imagens da Danny saltando e girando pirouettes durante as aulas. O maior destaque para ela era mais do que justo, porque chamou pra si a responsabilidade de tudo, sem se envaidecer, sem deixar de ser aquela moça humilde que conheci no segundo dia do festival.
Toda vez que nossos olhos se encontravam, eu sentia aquele mesmo encanto que vi no dia em que ela entrou desfilando na aula da Manuela Almeida. De collant, polaina. E tudo dentro de mim orbitava em volta daquela garota.
Corri para a coxia depois de dar um último beijo na loura pintadinha, tendo como desgosto ver rapazes com as bundas de fora, se vestindo.
— Cara, daqui a pouco você vai entrar — Ítalo me olhou por sobre o ombro. Estava terminando de erguer a calça. Ele seria um dos bailarinos da valsa da côrte.
— Eu sei. Costumo me trocar rápido, dá tempo — respondi.
Formei uma enorme bola disforme com a camiseta e a calça de moletom da Promoarte, atirei-a no chão junto com as peças de roupa dos rapazes.
— Seus pais virão? — Angel vestiu seu figurino de Rotbarth, abaixando-se para calçar as sapatilhas.
Sorri com tristeza.
— Infelizmente, não. Jundiaí fica longe e meu pai tem muito trabalho pra fazer.
— Os meus também não — o colega da Danny respondeu dando de ombros. — Mas quer saber? É bom que fiquem em São Paulo.
— Por quê?
— Se fôr para meu pai vir só porque sou filho dele, então prefiro que nem venha.
Havia revolta na expressão do bailarino louro.
— Ele não te apoia no balé?
— Não mesmo. Meu pai é um mecânico de motos, cheio de tatuagens nos braços, e é um funkeiro doente, sem cultura e sem classe. Acha que homem tem que comer mulher e fazer coisas de homem — Angel fez um sinal de aspas com os dedos e uma careta — Ele surtou quando soube que eu fazia balé depois da escola e que sou gay.
Senti desprezo pelo pai do Angel mesmo sem conhecê-lo.
— E a sua mãe? — questionei.
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Danielle
Storie d'amorePara Danielle, nada é mais importante do que o balé. Seu sonho é dançar nos maiores palcos do mundo e superar sua mãe, a lendária Françoise Cocu - o Cisne Branco -, um mito da dança clássica. Durante uma competição de dança em Ribeirão Preto, a...
