Capítulo 41

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          Vítor Hugo

      Me vesti bem devagar. Não que eu estivesse calmo, pelo contrário. Eu sentia se a minha vida nunca mais fôsse a mesma depois que eu saísse daquela escola.

      Meus olhos tinham uma coloração rubra por causa dos minutos que fiquei chorando; respirei fundo, tentando  buscar coragem para fazer o que eu devia ter feito há muito.

      Ninguém podia me ajudar, era uma coisa só minha.

      Tão perto e tão longe… Ouvi uma vez essa expressão num filme, bem cafona, sobre um cara que fez tanta burrada no passado, teve a chance de se redimir e perto da salvação, ficou cego.

      Por que estando próximo de dar um passo decisivo, eu ainda hesitava? Por que o medo nos prega essas peças?

      Os rapazes iam para a sala número 6 para a aula de hip-hop e fizeram cara de surpresa por me verem andando na direção contrária à deles, com roupas normais e mochila nas costas. Mas é claro que eles não faziam ideia do que eu estava sentindo. Acabei esbarrando sem querer no ombro de um deles, e mal ouvi um sonoro você não olha por onde anda?

      Ao passar pela sala de onde eu acabara de sair  da aula de balé clássico, parei e olhei pelo vidro transparente as garotas sendo ensinadas pela professora Teodora, que naquele momento, segurava Danny pela cintura, por trás, passando instruções. A loura fez plié, subiu em relevé passé e girou dupla pirouette, com os braços à frente do umbigo.

      Esbocei um sorriso de orgulho pela dedicação da bailarina. Queria poder assistir sua aula.

      Ela me viu e veio em minha direção, aproveitando uma parada da aula. Me olhou com ternura, sorrindo, e erguemos nossas mãos ao mesmo tempo, tocando o vidro. Era como se nossas mãos se tocassem, como se eu pudesse sentir o calor da mão dela, mesmo com o vidro nos separando.

      Aquela garota não mexia só com meus instintos, me fazendo querer decifrá-la e entender como podia existir pessoas como ela, que mudavam tudo à sua volta e tornavam o mundo mais alegre.

      O sorriso lindo dela, diante de mim, com aquele aparelho de dente de pedrinhas azuis e borrachinhas, tão adolescente. Aqueles olhos azuis, doces e cheios de bondade, mas também com malícia de mulher.

      Eu estava apaixonado por ela. Pra quê continuar negando esse sentimento?

      Uma lágrima brotou do meu olho, e o sorriso dela, de repente, se retraiu.

      Passando o dorso de sua mão no meu rosto, olhei pra ela com gravidade e meu coração bateu forte.

       Eu te amo, balbuciei, mesmo sabendo que ela não podia ouvir do outro lado. Como a bailarina não parou de me fitar em nenhum momento, tenho certeza que ela compreendeu minhas palavras por causa dos movimentos dos meus lábios.

       Danny semicerrou a boca, os lábios carnudos e sexys, os olhos azuis tão doces e amorosos. Linda. Mais do que toda uma companhia de bailarinas, mais do que uma constelação de estrelas.

       Tudo nela me fazia lembrar beleza, perfeição, e fazia aflorar dentro de mim desejo e luxúria , mas também afeto, carinho e amor. Tudo o que há de pecaminoso e sublime, ao mesmo tempo. Eu queria poder viver muito mais com ela.

      Inspirei e expirei fechando os olhos, me perdi inevitavelmente nos lindos olhos azuis celestes da garota loura de sardas.

      A garota “soltou” minha mão e tocou com o indicador no vidro na altura dos meus lábios, sempre sorrindo, como se estivesse dizendo que tudo ficaria bem e como se quisesse que eu acreditasse nisso. De repente, vira a cabeça para o meio da sala. A aula de pontas ia continuar.

      Danny voltou para junto das colegas. Uma garota de cabelo platinado, que não participou da primeira aula, a observava de modo malicioso, e eu achei que a tinha visto em alguma cidade. Nem alta, nem baixa, com algumas curvas, e parecida com a Danny, porém com expressão perversa.

      Dei um sorriso triste ao ver que a bailarina de sardas me deu um sorriso afetuoso e fez um coração com as mãos, dando tchau em seguida.

      Uma parte de mim queria ficar e vê-la dançar com as outras moças, princesas iguais à ela. Fazendo aula ou dançando num palco, Danielle Raluca nasceu para brilhar.

      Há algumas noites atrás, em meio à uma crise moral, me perguntei se ela valia a pena.

      Sim. Ela valia.

      Danielle era tudo pra mim e eu não precisava de mais nada. Sua linda  história de vida, sua busca por se superar sempre, me davam força pra fazer o que eu precisava. Existiam coisas mais importantes do que dançar.

      Então, uma voz perversa entrou na minha mente, junto com sensações das mais horripilantes. Era uma coisa gelada, opressiva e debilitante, que logo tive certeza que era medo.

DanielleOù les histoires vivent. Découvrez maintenant