Vítor Hugo
Comi meu pão na chapa e terminei de tomar meu café com leite antes dos outros, para aproveitar o wi-fi da padaria. Agatha saiu mais cedo. Ela tinha de conversar com a Letícia e com o Amaral sobre a variação e o pas de deux que a Danielle e eu dançaríamos; tinha algo a ver com a escalação das danças.
Ontem foi um dia terrível, que eu não esqueceria facilmente. Se é que daria pra esquecer.
Aquela garota se machucou feio, talvez nunca mais fôsse a mesma. A imagem dela saltando e caindo, os ossos quebrados saltando pra fora, insistia em voltar à minha mente, me lembrando que tudo o que um bailarino constrói em anos de dedicação pode acabar em menos de dez segundos.
A Micaela, com quem eu teria de dançar um pas de deux de Raymonda, era alegria pura, indiferente ao ocorrido com a Miyuki. Como ela podia ser tão fria?
Rafa, Ana e Léo olhavam as gravações dos ensaios que os dois últimos haviam feito. Eles dançariam um duo neoclássico.
— Vítor Hugo — me virei instintivamente para a Mi.
Fuzilei-a com um olhar encolerizado. Nunca me segurei tanto para não dizer umas boas para a morena de olhos verdes. Ela vinha se superando. Eu ainda estava puto pelo ocorrido ontem na cantina.
— Por que você tá assim comigo? — ela notou minha cara de quem diz vá se ferrar.
— Sua memória é muito curta. Se esquece fácil das merdas que fala.
— Se está falando do que aconteceu ontem entre a Danielle e eu, já pedi desculpas, tá?
— Acha que só pedir desculpas resolve?
— O que mais quer que eu faça?
Virei a cabeça para o lado, bufei sem paciência alguma.
— A Danny é uma das pessoas mais legais que eu conheço, e você a expôs pra todo mundo na cantina. Como pôde ter feito isso?
Micaela soltou um suspiro, abaixou a cabeça, passou os dedos nos cabelos negros e lisos.
— Você gosta dela? — perguntou.
Não respondi.
— Gosta? — a morena insistiu.
Até bem pouco tempo atrás, eu teria uma resposta pronta para essa pergunta. Eu não era de me apegar a pessoas com quem transava, gostava de partir sempre para experiências novas, e eu era feliz levando a vida sem compromissos.
Mas Danny tinha um encanto que não dava pra desvendar só com uma transa. Ela valia a pena. Aquele jeito dela, de quem desconfia e ao mesmo tempo se entrega, aquele sorriso com aparelho de dente, aqueles olhos azuis tão lindos, me deixavam fascinado. Ela me fazia querer mais.
Não era só atração erótica o que eu sentia quando ficava perto da bailarina loura. Ela tinha uma bondade angelical, uma gentileza comovente com pessoas e uma pureza de uma garota incapaz de ofender ou machucar alguém.
— Gosta? — Micaela repetiu.
— Gosto — respondi finalmente —, mas não do jeito que você está pensando.
Perdi meu olhar num copo de suco ao meu lado, absorto em pensamentos.
Lá fora, a chuva ganhou força de novo. Ventava, muito. Vi os guarda-chuvas de duas mulheres virarem pelo acesso, obrigando-as a correr. Sorri maldosamente.
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Danielle
RomancePara Danielle, nada é mais importante do que o balé. Seu sonho é dançar nos maiores palcos do mundo e superar sua mãe, a lendária Françoise Cocu - o Cisne Branco -, um mito da dança clássica. Durante uma competição de dança em Ribeirão Preto, a...
