Danielle
A sala de aula ainda não estava liberada pra que pudéssemos entrar e nos aquecer. Depois que nos trocamos no vestiário, começamos a fazer alongamento ali mesmo, no corredor.
Felizmente, eu havia trazido vários collants para Ribeirão Preto. É super desagradável fazer aula de balé com uma malha fedendo a suor, mesmo com o antitranspirante. Bailarinas não são necessariamente as pessoas mais cheirosas que existem. Não depois de mais de duas horas de aula.
Segurei numa barra embutida na parede, fiz um souplesse e um detiré, segurando meu tornozelo e esticando minha perna direita até fazê-la tocar na minha orelha.
— Metida! — Nicole cruzou os braços, fazendo uma cara de nojinho.
Ofereci um sorriso à minha amiga de olhos bicolores, e acidentalmente, encontrei a Duda do outro lado do corredor, fazendo cambrés.
Desde ontem a noite conversamos muito pouco. Ela não ficou nem um pouco contente com a medalha de segundo lugar, já que era acostumada a vencer competições. Claro que eu achava isso muito infantil, nada combinando com a principal bailarina da Promotanz. Ela devia saber que nem sempre a melhor vence. Além disso, eu estava numa noite de sonho.
Eu não tinha culpa alguma pelo mau humor dela, e nem me cabia passar a mão na cabeça de ninguém. Ficar em segundo lugar numa competição é ótimo, é um prêmio, de qualquer forma.
Finalizei meu aquecimento fechando minhas pernas em quinta posição e desci meu tronco até que minha cabeça tocou bem abaixo dos joelhos. Os músculos das minhas coxas latejaram, e fiquei assim por três minutos.
— Bom dia, meninas — Letícia tinha um sorriso quando se aproximou segurando um jornal .
— Danielle, você saiu no Caderno de Artes — ela informou animada.
Eu arrumava minha polaina quando ela estendeu o Gazeta de Ribeirão Preto. Me levantei rapidamente, com meu olhar brilhando de ansiedade, tomei o periódico e abri num dos cadernos.
— O que escreveram? Lê pra gente— Nicole se apoiou no meu ombro.
“Segunda noite de competição consagra bailarina catarinense”, dizia o título.
Na foto a cores, eu estava fazendo um ecarté devant – incrível como essa pose fica legal em todas as fotos.
“A bailarina Danielle Ponor impressionou ontem público e jurados com um atrevimento técnico e sorriso cativante, e conquistou o primeiro lugar na categoria Júnior com variação de Paquita”.
O artigo não era extenso, mas as palavras foram o suficiente para fazer com que eu sentisse orgulho de mim mesma. Me perguntei se era um sonho.
“Danny será um dos principais destaques este ano e já desponta como favorita em importantes competições ao lado da Duda”, enfatizou Ico Villa Lobos, ex-bailarino do Theatro Municipal de São Paulo e um dos jurados.
O que me deixou superfeliz é que ninguém mencionou o nome Françoise. Os caras escreveram só sobre mim.
— Atrevimento técnico — Angel pontuou.
— Ontem ela estava atrevida — Letícia apoiou, recebendo de volta o jornal que eu estendia, toda alegre.
— Minha partner é muito linda — Angel abraçou minha cintura por trás, beijando meu rosto.
VOCÊ ESTÁ LENDO
Danielle
RomancePara Danielle, nada é mais importante do que o balé. Seu sonho é dançar nos maiores palcos do mundo e superar sua mãe, a lendária Françoise Cocu - o Cisne Branco -, um mito da dança clássica. Durante uma competição de dança em Ribeirão Preto, a...
