Danielle
Imagine se sentir amada, com todas as pessoas gritando seu nome, e vibrando a cada pirouette, sissone, grand jeté, que seu corpo executa. Imagine todo seu corpo sentir uma força pulsante que o faz se mover de forma sublime, sem limites. Poder expressar com movimentos um amor puro e verdadeiro, entre dois jovens que não têm para onde fugir e que dependem um do outro para continuarem sonhando.
Era assim que eu estava me sentindo.
Como um cisne.
Um cisne que não vê nenhum limite diante de si enquanto voa, muito acima de tudo.
No momento em que me vi no espelho do camarim das solistas, vestida como a bela Odette, com aquele tutu branco de Princesa dos Cisnes, a tiara branca em volta da minha cabeça como uma pluma, um monte de coisa passou rapidamente pela minha cabeça.
Eu não conseguia me reconhecer, ver a Danielle quieta e comportada, mas uma princesa imponente, e ao mesmo tempo, doce.
Essa bailarina linda sou eu?
Toquei meu rosto no espelho. Minha boca, meu peito. As sardas, os olhos azuis, eram meus, e também minha expressão sempre doce e com uma sombra de melancolia, delineada pela maquiagem com tons sombrios.
Não era ilusão. Meu sonho estava se tornando realidade.
Maria Luíza, tão linda com o tutu de Fada Açucarada, se aproximou de mim, tocou meu ombro, e me virei pra ela. Meus lábios formaram um sorriso, e nos abraçamos.
— Merda — ela me desejou.
Agradeci com um obrigada.
Olhamos uma para a outra, lágrimas começando a cair dos meus olhos. Os dedos dela deslizaram delicadamente pelo meu rosto, tocando minha tiara branca como neve. Seu sorriso me passava confiança, carinho e afeto.
— Hoje é o seu dia, princesa — disse.
Saímos do camarim de mãos dadas, e meu pai, com seu figurino de Quebra Nozes, esboçou um sorriso tímido ao me ver. O sorriso discreto, porém amoroso. Me apertou contra seu peito, tomando o cuidado pra não amassar a saia curtíssima que mal cobria meu bumbum.
— Minha menina cresceu e se tornou uma mulher linda — foi o máximo que disse.
Assenti, sem saber o que dizer. O mundo meio que, com todos os problemas que tinha, com tanta coisa errada pra ser corrigida, se tornou um lugar feliz e bonito.
Eu o encontrei próximo às grandes cortinas. Lindo, imponente, sensual e atrevido. O meu Príncipe Siegfried. Andamos de encontro um ao outro, sorridentes. Meu coração palpitava, e minha pele se arrepiou assim que senti o dorso da sua mão tocar minha bochecha quente e ruborizada.
— Você está linda — ele disse.
Mordi meu lábio inferior atrevidamente, retribuindo com um toque do meu indicador nos lábios em seus lábios.
— Eu sei — respondi.
Eu não fazia a menor ideia de como seria entre a gente dali em diante, e não estava nem aí pra isso. Cada um teria que seguir seu caminho, escrever sua história, viver sua vida. Correr atrás daquilo que acreditava que devia ser feito.
Mas aquela era a nossa noite. E estávamos unidos para realizar o mesmo sonho: ganhar os corações das pessoas.
Meu nome foi anunciado. Ele beijou minha testa e me abraçou, me desejando merda, que no balé, é uma coisa legal. Sorri e caminhei graciosamente para o palco. As luzes num tom azul etéreo envolvendo meu corpo. Me tornei um cisne gracioso e apaixonado. Senti a música de Tchaikovsky dentro de mim, e deixei de ser a Danielle, para que a Odette surgisse.
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Danielle
RomancePara Danielle, nada é mais importante do que o balé. Seu sonho é dançar nos maiores palcos do mundo e superar sua mãe, a lendária Françoise Cocu - o Cisne Branco -, um mito da dança clássica. Durante uma competição de dança em Ribeirão Preto, a...
