Evitar brigas é o foco de uma pessoa com mente barulhenta, pois as coisas só ficam piores em nossas cabeças. Ser complicado é ruim, diferente também. Ter sentimentos é ruim, não tê-los, também é. Enquanto Yok e os rapazes davam um sermão em Sean sobre seu comportamento com os garotos, Aye tentava falar com Kan que havia saído irado.
— O que foi aquilo, Kan? — perguntou Ayan, o puxando e fazendo-o olhá-lo.
— Você viu o que foi. Eu não estou aqui pra aturar ninguém, Ayan, e nem você vai me fazer aguentar isso. Se foi ele quem começou, sou eu quem vou terminar.
— Cara, relaxa, não vai querer iniciar uma briga entre nós, vai? — perguntou Wat.
— Querer eu não quero, mas o amiguinho do Ayan lá dentro tá louco por isso. Eu não vou recuar se ele chegar perto demais. Você entendeu?
Ele estava frustrado, era muito fácil fazê-lo perder a paciência. Para isso não era preciso muito.
— Huh! Tudo bem, não vou pedir que recue, mas evite isso por enquanto. Não estamos no nosso lado da cidade e aqui somos minoria. Agora respira e vamos voltar lá pra dentro.
— Eu não tenho mais clima pra voltar lá pra dentro, prefiro ir embora daqui.
— Vai dar esse gosto ao Sean, Kan? Saindo irritado desse jeito depois de uma "pequena" desavença?!
Wat tentava motivar seu amigo a voltar para dentro e aguentar Sean até pelo menos metade da noite, então ele concordou. Se havia alguém que Kan ouvia mais que Ayan, era Wat. Ele tinha um jeito único de persuadir e mudar os pensamentos do amigo.
— Vocês podem ir na frente, quem precisa tomar um ar agora sou eu... — disse Ayan.
— Tem certeza?
— Tenho, podem ir.
Kan e Wat voltaram para dentro e sentaram em seus lugares. O clima entre Kan e Sean ainda era um pouco tenso enquanto os outros bebiam e conversavam. A conversa com o rapaz do lado de dentro pareceu surtir efeito, pois ele tentou se aproximar de Kan se que o mesmo recuasse e deixasse tudo ainda mais embaralhado.
— Onde tá o Ayan, Kan? — perguntou Sean, tentando deixar mais leve o clima que ele mesmo havia pesado.
— Ele disse que precisava respirar, mas já volta.
Yok olhou para fora e através das janelas de vidro viu o mais baixo sentado num banco na frente do lugar. Ele parecia preocupado, então o moreno levantou para ir até o garoto e vê se estava acontecendo algo. Mesmo que ambos implicassem com o outro o tempo todo, eles ainda se preocupavam. E isso era estranho. Um preocupação tão grande que surgiu num período de tempo extremamente curto.
— Onde você vai, Yok?
— Você é meu melhor amigo, mas não nasceu grudado comigo, Gram. — riu — Eu só vou fumar, trouxeram um isqueiro? Esqueci o meu na oficina.
— Você vai lá fora, não vai? Aye pode emprestar o dele.
— Não vai me dizer que aquele baixinho fuma, vai, Wat?
— Ele não fuma. — sorriu ladino e o mais alto entendeu.
— Huh! Por favor, Gumpa, cuida de tudo aqui enquanto eu estiver lá fora.
— Eu já entendi, Yok, não precisa pedir que fiquem de olho em mim!
— Eu não pedi isso.
Yok riu e caminhou para fora do bar onde encontrou Ayan com os cotovelos apoiados nos joelhos e seu rosto escondido nas mãos.
Ele respirava pesadamente e o que chamou a atenção do moreno foram as gotas que pingaram de seu queixo. Qualquer coisa que Aye não pudesse dar conta de resolver o fazia perder totalmente seu autocontrole. Algo por mínimo que seja para uma pessoa cheia de problemas como ele era a gota d'água, ele se cobrava demais por coisas que não estavam ao seu alcance. As crises de ansiedade de Ayan não eram tão frequentes desde que terminou seu último ano na Suppalo, mas quando problemas estressantes surgiam elas voltavam com força total contra o garoto.
— Você tá aqui, baixinho. — falou Yok sentando ao lado de Aye que não o olhou, mas enxugou o rosto discretamente.
— Se veio aqui me dar sermão de como eu devo cuidar dos rapazes pode voltar pra dentro.
A voz de Ayan era falha, parecia haver muito choro preso ali dentro e o mais alto percebeu isso, já que ele não o olhou. Um nó estava formado na garganta do mais novo e seus olhos estavam avermelhados. Ele queria desabar em algum lugar e apenas chorar. Queria um abraço, que sem palavras, ainda fosse capaz de dizer: "vai ficar tudo bem, eu tô aqui."
— Eu não vim dizer como você deve cuidar do Kan e do Wat. Você os conhece melhor do que eu que só os conheço há alguns dias. Você sabe como controlá-los.
— O que você quer aqui então?
— Quero saber porque está chorando, pode me dizer ou vou ter que arrancar a verdade de você, baixinho?
— Não é nada, já passou.
— Olha pra mim.
— O que?!
— Anda, olha pra mim!
Yok segurou as mãos de Ayan e ele finalmente o olhou, mas não aquele olhar de sempre. Não o jeito que Ayan sempre olhava para Yok. Seus olhos mostravam que não estava nada bem ali dentro.
— Vem — o moreno levantou e puxou Aye pela mão enquanto caminhava até sua moto no estacionamento —, vem ver a lua comigo. Muitas vezes ela me acalma quando eu me encontro do mesmo jeito que você está agora.
Ao se encostar na moto ao lado de Yok, Aye olhou para o céu e viu como a lua cheia realmente estava simplesmente esplêndida aquela noite, então uma lágrima escorreu do canto de seus olhos. Ele se sentiu tão perdido quanto uma estrela sozinha no meio de toda aquela escuridão. Aquele vazio imenso se comparava ao vazio que ele tinha no peito. Era um vazio doloroso.
— Baixinho — Yok mirou aquele rostinho preocupado e sentiu uma coisa estranha apertar seu peito ao vê-lo tão tristonho, então Aye o olhou com seus olhinhos brilhantes —, você está autorizado a ser fraco... Pelo menos comigo a partir de hoje...
Quando o mais baixo ouviu as palavras do moreno sua guarda baixou e seus olhos inundaram de lágrimas, então elas caíram e molharam seu rosto. A única coisa que o mantinha firme em relação ao moreno se quebrou e o mesmo o abraçou. Aye chorava ao ponto de soluçar. Quanta coisa estava guardado ali dentro? Quantas noites ele passou com o peito apertado... com o choro preso na garganta... Um peso enorme parecia sair do peito de Ayan junto às lágrimas, e o que mais significou para ele foi que durante todo o tempo em que chorava, Yok estava ali consigo, abraçando-o.
VOCÊ ESTÁ LENDO
Bed Friend
Fanfic"E agora, te odiando ou não, mesmo que eu tente, eu não consigo ficar longe de você..."
