Solto

747 74 47
                                        

Sentir-se bem na escuridão parede algo terrível, não é? Mas não é bem assim. Há um espaço vazio que insiste em chamar você e, ironicamente, você se sente completo com esse vazio. Você acaba se tornando parte dele.

Ayan começou a nadar de volta para a praia e os olhos de Yok o seguiam inquietos, pairando também na escuridão ao redor do mesmo. Seu coração batia acelerado enquanto segurava a camisa do garoto em suas mãos e o via chegar mais e mais perto. Ele temia por algo na escuridão que Ayan encontrava paz.

O mais baixo não é muito o tipo de pessoa que vai te evitar mesmo que esteja com sérios problemas com você. Se ele tiver que bater frente a frente com qualquer pessoa, ele só o fará, não importa com quem seja, mas naquela hora ele queria evitar o moreno.

"Eu deveria ter vindo? Ele deixou claro que não queria mais me ver. Talvez seja melhor ir embora de vez..." — pensou consigo, mas não teve coragem de deixar a camisa na areia, dar as costas ao garoto e simplesmente sair — "Se ele ainda não me odeia completamente, vai me odiar se eu fizer isso..."

Aye caminhou para fora da água e passou os dedos em seus cabelos, pondo-os para trás e indo na direção de Yok que estendeu a camisa para o dono quando ele chegou mais perto, porém, Ayan só a pegou e passou pelo rapaz como se não houvesse ninguém ali. Isso doeu.
Para alguém que afirmou diversas vezes que não iria insistir ou ligar, ou até mesmo ir atrás do mais baixo, o rapaz estava ansioso demais, mas teve metade dessa ansiedade reduzida quando Ayan o ignorou. Ele não tentou ir atrás de Aye e só ficou mirando o mar a sua frente enquanto atrás de si um garoto com emoções confusas se afastava. Mas, conforme andava, os pensamentos mais traiçoeiros do mais baixo surgiram em sua mente como um tsunami que derruba tudo que está a sua frente. Com isso, Ayan sentiu uma dor fina no meio do peito e o mesmo curvou-se brevemente para dentro enquanto tentava respirar, mas o ar não chegou aos seus pulmões. Isso fora culpa de toda a ansiedade que ele sentia destruir seu peito.

O moreno olhou para trás e viu que Ayan estava caminhando devagar. Seu andar estava estranho aos olhos de Yok, então o mesmo começou a dar passos curtos na direção do mais baixo, ainda receoso sobre ir até ele, mas correu ao ouvi-lo inspirar pesadamente. Aye não conseguia respirar graças a dor forte em seu peito. Ele doía como se estivesse sendo esmagado por toneladas de pressão.

— Aye?! O que tá acontecendo com você?! O que você tá sentindo?!

— Y-Yok... eu não... — ele puxava o ar, mas ainda não conseguia falar ou respirar direito — eu não consigo respirar... — terminou. Sua voz parecia suplicar por ajuda, mas soava baixa demais.

Essas palavras, mesmo que tão poucas custaram muito do garoto para serem ditas. A cada palavra que saía de sua boca, seus pulmões eram como um abismo enorme e completamente vazio, pois não havia ar suficiente. Depois de perceber o quão ruim ele estava, Yok não tentou mais saber o que ele estava sentindo e o segurou em seus braços, escondendo o rosto do menor em seu peito.
O peito de Ayan apertava mais e mais e ele se desesperava com isso. Seus olhos reviravam lentamente todas as vezes que tentava respirar e não conseguia. Ele estava sufocando, foi quando caiu desacordado nos braços de Yok.

— Aye?! Aye?!

Yok pegou o garoto no colo e voltou depressa para o bar, mas todos estavam bêbados demais para tomar qualquer atitude, então ele mesmo pegou a chave do carro de seu amigo Todd e levou o mais baixo para o apartamento do mesmo, mas depois voltaria para buscá-los.
Difícil mesmo é explicar como ele conseguiu carregar o garoto em seus braços por tanto tempo sem se cansar. Talvez o desespero por vê-lo daquele jeito aumentou seus níveis de adrenalina e o fez esquecer do peso que carregava. O mais alto colocou Ayan em sua cama e massageou com cuidado seu peito, passando também um pouco de álcool perto de seu nariz.

— O que é tudo isso que acontece com você?... Isso me assusta... O que está em sua mente?

Yok sentou-se no chão ao lado da cama e perguntou preocupado, mas claro, não obteve respostas. Aye estava deitado e parecia estar apenas dormindo, não parecia que sua respiração estava caótica alguns minutos atrás. O moreno acariciava gentilmente a mão do mais novo e com isso sentiu um arrepio em sua pele, um arrepio que não fora causado pelo frio. A cama absorvia a água do corpo de Ayan e adentrava o colchão, deixando-o molhado.

— O que é que acontece comigo quando eu tô com você? Meu Deus... se eu não tivesse esbarrado em você naquele dia no parque isso não estaria acontecendo... Eu deveria ter evitado tantas coisas.

Ayan estava cansado por tudo que vinha acontecendo consigo. Estava cansado de ter que fingir não se importar com o moreno que estava sentado ao seu lado. Cansado de fingir a maior parte do seu tempo que estava tudo bem. Cansado desses ataques que acontecem do nada. Cansado de sentir tanto. É estranho, não é? Em um momento ele estava agonizando com seu peito pesando toneladas, já no outro estava apenas desacordado no quarto do apartamento de Todd, na cama de Yok com seu coração batendo desacelerado como se nada tivesse acontecido.

— Pode não tá tudo bem, mas eu tô aqui...

O rapaz encostou o queixo na mão de Ayan e mirou o céu através das portas da varanda enquanto sentia um nó se formar em sua garganta. Um choro doloroso havia ficado preso ali.

— Por que você foi até lá...?

A voz de Aye soou fraca no quarto silencioso e Yok o olhou depressa, engolindo em seco. Ele estava feliz pelo garoto ter finalmente acordado, é claro, mas ele não estava pronto para conversar com o garoto tanto quanto pensou que estivesse.

— Eu precisava me explicar e dizer que sinto muito...

Na mente de Yok começaram a passar alguns dos momentos que ele esteve ao lado de Ayan e também algumas coisas de seu passado. O passado do moreno o atormentava da pior forma, torturando-o por completo, então uma lágrima escorreu do canto de seus olhos. Ele também estava exausto. Quando a lágrima deslizou lentamente em seu rosto, ele o escondeu na cama para tentar disfarçar, mas Aye já havia visto.

Bed Friend Histórias para pegar e não largar. Descubra agora