Eu estava gostando bastante do meu novo emprego.
Finalmente estava fazendo aquilo que amava e estudei pra fazer.
O Theodoro e a Patrícia eram ótimos, me acolheram, me explicaram e me ensinaram muito. E o que dizer da Guida. Ela era um tipo de mãe/avó que tudo que você quer é sentar-se ao lado com um copo de chocolate quente, um cobertor e ouvir suas histórias e vamos combinar, ela tinha muitas delas.
Os funcionários eram um navio a parte, prestes a naufragar. Como os donos cuidavam mais da parte de trazer novas empresas e fazer novas parcerias, a parte referente ao pessoal, ao Recursos Humanos, deixava muito a desejar.
Patrícia cuidava temporariamente do setor de Recursos Humanos, mas ela também ajudava Theodoro a cuidar do financeiro e de todo o restante do centro administrativo, não havia ninguém específico nesses setores, pois os que ocupavam tais posições, roubaram a empresa, levando ambos a assumiram todo o administrativo pra tapar os buracos que ficaram.
Patrícia tinha feito diversas entrevistas. Eles precisavam com urgência de um diretor financeiro e outro de recursos humanos, muitas coisas estavam ficando a desejar pois ela não dava conta de tudo.
Sinceramente, eu amava essa loucura, além das minhas obrigações de assistente, também ajudava Patrícia nos recursos humanos, mas de todas as coisas extras que eu vinha fazendo, assumir as reuniões em que o dono da boiada deveria estar, era um pouquinho demais.
Eu deveria ganhar um aumento por aguentar tanto desaforo, se bem que eles me pagavam muito bem pelos extras que fazia, mas...
Agora eu entendia por que os donos ficavam sempre em andares separados, era um saco ficar ouvindo tanta reclamação e insatisfação o dia todo, por mais que você fizesse pelas pessoas, nada nunca estava bom.
Em contrapartida, eu como proletariado, entendia bem o que os funcionários estavam sentindo. Era frustrante trabalhar tanto e não ser reconhecido. Não ter planos de carreira, ver seu futuro sendo jogado fora, ano após ano. Sem perspectiva de crescimento. Pior ainda eram as condições insalubres em que a fábrica estava, os salários eram bons, mas podiam melhorar.
Patrícia batia boca com um dos representantes dos funcionários da fábrica, enquanto eu olhava aquilo com tristeza e pesar, afinal um precisava do outro para prosperar e daquela forma não chegaríamos em lugar algum.
Olhei para Theodoro que me olhava intensamente e o questionei com o olhar ele apenas deu sinal para que eu intervisse no bendito bate boca, antes que ficasse pior e a reunião não chegasse a lugar nenhum.
Então me levantei e pedi educadamente.
_ Vamos acalmar nossos ânimos por favor. Um de cada vez falando e sem ofensas, respeito é uma via de mão dupla, minha gente.
Obviamente meu jeito calmo não resolveu, olhei para Theo que estava lá feito uma estátua, apenas esperando, sabe-se lá o que.
Então resolvi apelar. Se não ia por bem, iria por mal.
Tirei os saltos, subi na mesa, mirei o sapato de salto num jarro de flor que estava ali e ele quebrou fazendo um enorme barulho, espalhando seu conteúdo e silenciando rapidamente todos na sala.
_ Muito bom. Agora que tenho a atenção de vocês, façamos assim. Enquanto eu falo, vocês ficam em silêncio, afinal, eu pensei que estávamos lidando com pessoas. Mas, como podemos ver a situação do vaso... bárbaros só respondem a barbaridades. Agora, será assim. Eu vou dar a palavra apenas a um de vocês por vez e nós responderemos cada questão que surgir, apenas um por vez. Espero que tenham entendido. – Aguardei um momento em silêncio pra que eles internalizassem a informação e continuei. _Você falou algo importante senhor Leonardo. A empresa precisa de vocês, sim e muito, especialmente nessa época do ano. – Continuo falando e andando sobre a mesa, descalça e com todos me olhando. _ Acontece que vocês precisam da empresa tanto quanto ela precisa de vocês, ou mais até. Muitos aqui têm filhos, esposas, são esteios de família. Então a situação é a seguinte: Se eu ou o senhor formos demitidos hoje, amanhã terá uma fila na sala da Patrícia, que terá apenas o trabalho de recrutar novamente. Enquanto eles perderão alguns dias de serviços, talvez um ou dois clientes, mas eles são bons, confiáveis e vão continuar se mantendo no mercado. Entendam que a empresa, está sim com déficit de funcionários, mas de outros níveis de escolaridade e de determinadas qualificações especificas. No nível intermediário ou elementar, que é a maioria de nós aqui, há uma imensa leva de candidatos.
_ Você está do lado deles, porque é riquinha e metida como eles, nem sabe o que é sentir fome. – Aponta uma garota mal-humorada.
_ Primeiro, não chegou a sua vez de falar, seja educada e espere sua vez. Segundo, não que seja da sua conta, mas sim eu já passei fome e já vi minha irmã passar fome pra me dar o único pedaço de pão amanhecido disponível e isso não foi apenas uma vez. Eu tive uma mãe alcoólatra e um padrasto abusivo, então não fale de mim como se me conhecesse porque você não me conhece. Se quer respeito, aprenda a respeitar. Se não sabe fazer isso, aconselho que se retire da sala pois há aqui, quem esteja interessado em conversar e entrar em um acordo. Mais alguém pra apontar o dedo, ao invés de buscar soluções?
Paro novamente de falar e espero que mais algum exaltado diga algo, mas aparentemente todos se calaram.
Organizo as falas de modo que todos possam questionar e para que nós, mais especificadamente Patrícia e Theodoro, possam responder de maneira coerente e satisfatória todas as questões.
A reunião que deveria durar trinta minutos, durou duas horas.
Não poderíamos bater o martelo pois quem daria a palavra final era Tristan e ele apesar de ter visto minha mensagem, não se dignou em responder, aliás como era do feitio dele.
_ Bem senhores, é isso. – Digo me levantando agora da cadeira, onde já tinha juntado os cacos do jarro. _ Iremos passar a pauta para o senhor Tristan Lucchesi, como CEO da Lucchesi Entertainment é ele que faz as considerações finais e dá a última palavra. Tentaremos ao máximo iniciar o novo ano com boas novas, mas se isso não for possível para atender todas as necessidades, peço a todos que reconsiderem a paralisação nesse momento. Estamos vivendo momentos difíceis para todos e isso não seria bom pra ninguém.
_ Já demos nossa palavra senhorita Selena, que não iremos fazer greve e nem nenhum outro tipo de paralisação, mas precisam cumprir sua parte do acordo e ir averiguar as condições da fábrica. Essas novas instalações ficaram horríveis e está havendo muitos acidentes.
_ Nós iremos...
_ Senhoras, senhores... me perdoem o atraso. – Tristan Lucchesi faz sua entrada triunfal, lindo em um terno de três peças preto. – Perdoe a interrupção Selena, Patrícia. Theodoro. Obrigado por segurarem as pontas até aqui. – Tristan respirou fundo algumas vezes e percebo que ele está suando, mas prossegue falando pausadamente. _ Meu irmão foi me mandando as pautas de vocês enquanto eu tentava chegar aqui, o trânsito hoje não estava nada fácil. Peço apenas mais alguns minutinhos, sei que estão cansados, mas se já podemos resolver parte dos nossos problemas aqui e agora, então... porque não o fazer.
Theodoro olha para o irmão não entendendo nada e parecendo um tanto quanto preocupado com o mesmo.
Eu mesma não estava entendendo, se vi Theodoro pegar no celular duas vezes foi muito, isso muito antes de começar a esquentar as coisas. O resto do tempo passou como estátua ou respondendo questões quando solicitado... e Tristan não tinha nada na rua hoje, ao contrário ele tinha muito serviço interno esperando em sua mesa para ser despachado..., enfim, mas pra mim não fazia diferença.
Desde que resolvêssemos aquelas pendências, estaria tudo certo.
O homem limpou o suor do rosto com um lenço que Theodoro lhe ofereceu e eles deram um sorriso fraterno. Theodoro bateu nas costas do irmão e esse pareceu se sentir mais forte, mais bem preparado e prosseguiu. Em momento algum, além do comprimento da chegada ele olhou na minha direção, nem mesmo quando falava sobre mim. Fiquei sem entender nada, mas enfim quem sou eu na fila do pão, não é mesmo.
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JUNTANDO OS PEDAÇOS
RomanceSelena é uma garota forte, destemida, determinada... por fora. Por dentro, ela ainda é uma criança quebrada, machucada que não teve a proteção de quem deveria tê-la amado, cuidado e protegido. Ela não confia em homens. Tristan é um CEO que junto com...
