Capítulo 15

7.1K 813 37
                                        

Troquei algumas palavras com os policiais, apenas respondendo as perguntas que eles faziam.

Nos encaminharam para uma sala estéril com muitas macas. Nelas haviam vários corpos cobertos com lençóis brancos. No canto direito da sala havia uma maca mais larga onde estavam os corpos dos meus queridos. Assim que levantaram o lençol, eu tive que me apoiar na parede. Ali estavam as duas pessoas que me acolheram de forma tão amorosa desde que cheguei aqui.

Engraçado como a vida da gente parece um nada diante de uma situação dessas. Engraçado como nossa vida passa como flashs neste momento. Veio tudo na minha mente. O dia em que conheci aquela criança negra na sala de aula que chamava os meninos pra briga. A adolescente que ia comigo ao shopping somente para me criticar nas escolhas de roupas. A jovem que ia comigo nas festas. A mulher que eu vi se realizar. E o corpo que esta estendido aqui na minha frente.

Procuro por apoio novamente e Marcello me ampara neste momento.

- Esses são seus amigos, Srta. Sanches? – pergunta o medico legista acompanhado de dois policiais.

Confirmo com a cabeça. Não era preciso mais do que isso. Ele assenti e cobre os corpos novamente.

Saímos da sala e um policial me informa.

- Será preciso entrar em contato com os familiares no Brasil, Srta. Sanches. – ele me olha. – Suponho que você saiba para quem ligar.

- Não vai ser fácil. – eu respondo. – Ligarei para a família dos dois e pedirei que providenciem o transporte dos corpos.

Porque era certo que eles seriam enterrados no Brasil. Onde eles nasceram, viveram por um bom tempo, onde a família estava e onde, com certeza, eles estariam mais felizes para descansar em paz.

O policial agradece e vai embora.

Entrei em contato com as famílias no Brasil. Um irmão de Fabiana ficou responsável por providenciar toda papelada para liberação e transporte dos corpos.

O caso teve repercussão em toda mídia e logo tinham repórteres na porta do IML. Não contentes com as declarações dos policiais e do médico legista, foram atrás de mim para tentar buscar novas informações. Pareciam urubus na carniça.

Foi desta forma que Peter ficou sabendo da tragédia e me ligou. Eu não tinha cabeça para nada, nem mesmo lembrar de avisa-lo da morte de Fabiana. Eles nem eram próximos. Na verdade ele nem a conheceu da forma correta. Nunca saímos como casais. E, certamente, nunca vamos ter essa oportunidade. Nunca mais. Esse pensamento me faz chorar.

Meu telefone tocava insistentemente, mas eu não tinha vontade e nem forças para atendê-lo, mesmo sendo Peter. Marcello o pegou da minha bolsa e atendeu. Contou como as coisas haviam acontecido e que estávamos indo para minha casa e que eu não tinha condições de falar.

Por volta das 13hrs, conseguimos despistar os repórteres carniceiros e nos enfiamos apartamento adentro.

- Vou tomar um banho. Quem sabe a água leva as imagens que eu acabo de ver. – digo a Marcello.

- Vai sim Gata. – ele indica a cozinha. – Vou fazer um chá pra ver se nos acalmamos.

Eu concordo e sumo dentro do banheiro. Saio do banho e me sento no sofá, Marcello se aproxima e me entrega uma xicara de chá de ervas mistas, o meu favorito.

Pouco tempo depois o interfone toca e Marcello atende.

- É o Peter, posso deixa-lo subir? – pergunta ele para mim.

Faço uma careta e confirmo com a cabeça. Ele destrava a porta e mais alguns segundos depois Peter já estava batendo na porta de forma desesperada. Marcello a abre e ele entra no apartamento cheio de sacolas de papel na mão.

Preço de um recomeço #Wattys2016Histórias para pegar e não largar. Descubra agora